sexta-feira, 30 de maio de 2008

Conto q me inspirou pra escrever Espíritos Indomáveis


Olhos de onça


E lá estavam as árvores sobre as terras de águas límpidas em volta, com as cores de azul e verde, refletidos da beleza natural da floresta, onde desfrutávamos de uma paisagem deslumbrante. Eu, apaixonado pela natureza, não resisti à tamanha beleza nos dada por Deus. Aquele conjunto de árvores altas, bem verdes, altura entre dez e quarenta metros. Chamada de floresta negra pelos moradores daquela região, pois diziam que quem estivesse nela em pleno dia, poderia jurar que era noite.
Com meu espírito aventureiro, tirei fotos de nossa lancha, em seguida fomos direto para margem da floresta e confirmamos o que os moradores tinham nos dito: “Dentro da floresta vai parecer que está de noite.” Agora só faltava achar a tribo Guatinchara, “pra” minha matéria sobre seus segredos, começaria a expedição no dia seguinte. Fomos alertados pelo guia, de perigos que corríamos, mas não esperávamos que esses perigos fossem grandes e com conseqüências macabras. Então nós acampamos na floresta negra, que ficava cada vez mais escura quando a noite chegava. Sentia algo estranho, como se já esperasse que aquilo fosse acontecer. Com toda aquela escuridão e frio, acendemos uma fogueira, tiramos uma “prosa” sobre lendas da tribo, religião, legalização das drogas e até mesmo o RPG. Na hora de dormir, o nosso grupo combinou de revezarmos a segurança na noite do acampamento, começando por mim, o guia e o biólogo da nossa expedição. Pegamos nossas armas e fomos. Algum tempo depois, quase acabando o tempo de nossa segurança, ouço um certo barulho em cima daquelas árvores, parecia algo nos observando pulando de galho em galho. Falei aos meus companheiros que me ajudavam na segurança do acampamento:
- Tem alguma coisa de errado aqui! – digo demonstrando medo.
Marlon me responde:
- Você que deve estar estranho.
- Não, eu ouvi alguma coisa, parece que estamos sendo observados por algum animal que deve estar perto.
- Está ficando paranóico, isso sim.
Muapi fala:
- Também ouvi algo estranho nessas árvores.
- Viu Marlom, tá vendo que eu tinha razão. – digo a ele.
- Marlom, vamos nos separar e dar uma olhada em volta do acampamento. – diz a Muapi a Marlom.
Marlom fala:
- Tudo bem. E qual é o plano?
Nisso eu digo:
- Vamos nos separar e olhar pelos três cantos do acampamento.
Muapi fala:
- Será que não é melhor ficarmos juntos.
Eu respondo:
- Eu vou olhar o lugar sosinho.
Marlom fala:
- Eu irei com você então Muapi.
- O mais certo é que estivéssemos juntos...
Enquanto os dois conversavam, já estou andando pelo acampamento com meu rifle, observando as árvores meio aflito. Derrepente! Ouço rugido felino gritos de sofrimento: “Ahaaaaar! Ahaaar!” Sinto meu sangue gelar, todos acordam, saem de suas barracas e redes armados com suas pistolas e rifles gritando aflitos, pondo-se em prontidão: “Quê que ouve!? Quê que tá acontecendo!?” Aí que do escuro percebo um braço ensangüentado vindo de cima e caindo do meu lado, ficamos todos apavorados no centro do acampamento, do nada nos apareceu aquela fera negra, assustadora e enorme dilacerando rapidamente três dos nossos companheiros. Afastei-me rapidamente antes de atirar, vejo meus outros companheiros fazendo o mesmo que eu e atirarem feito loucos na fera de aparência humanóide.
Mas não! Como era rápido... Não o pegávamos! Um dos nossos começou a correr desesperado e foi rasgado pelas costas, mesmo nós usando lanternas, mal víamos a fera. Pois ela não parava quieta, ia para todos os lados, se escondeu de nós. Derrepente, saiu da escuridão matando a garradas, em questão de segundos, outros cinco companheiros próximos de mim. Continuo me afastando rapidamente, aperto o gatilho e percebo que não tenho mais balas. A fera para... Olha para mim e vem andando calmamente para meu lado. Mesmo suando frio, consegui recarregar meu rifle com as poucas balas que ainda restavam, apontei para o desgraçado há sete metros de mim. Puxei o gatilho e descarreguei com vontade todas as balas, impressionantemente ele conseguiu evitá-las, esquivou-se perfeitamente das balas!
Vendo melhor com a claridade da fogueira, vejo uma fera negra com mais de dois metros e meio de altura, olha pra mim com um sorriso macabro, gotejando sangue de sua boca. Era um homem meio onça, não pensei duas vezes, estava com tanto medo, que corri feito um doido. Poderia fazer cem metros em sete segundos, vi a lancha amarrada na margem do rio, tirei o facão de minha cintura, cortei rapidamente a corda num só golpe. Pulei dentro da lancha, por sorte a chave já estava no câmbio do barco, liguei o motor e zarpei de lá com tudo. Pensando estar livre daquele animal, passando entre as árvores do rio Amazonas mais aliviado, quando menos espero, algo pula das árvores no bico da lancha! Assustado, caí de costas no chão da lancha, era aquele bicho horrendo prestes a me atacar! E agora... O que me espera... Que irá me acontecer... Será que vou morrer?
Deitado no chão, percebo à meu lado um sinalizador, peguei-o rapidamente e dei um tiro perfeito no peito da fera. Foi tão forte o impacto, que o desgraçado deve ter voado mais ou menos cinco metros de distância, direto para água. Levantei-me, vi que estava prestes a bater nas árvores e pulei dela no momento exato da colisão. A conseqüência não poderia ser pior, a lancha explodiu, fazendo-me voar mais ou menos dez metros, caí violentamente no chão. Não sentia mais meu braço direito, devo ter quebrado, mas me sentia aliviado, pois a fera não estava mais me perseguindo. Levantei-me, andei um pouco para margem do rio, desconfiando de algo, para ver o que sobrou da lancha e se tinha realmente me livrado dele, parece que estava sonsinho.
Pensei estar sonsinho! Mais não, maldita fera que não morre! Levantou-se da água atordoada, com ferimento bem grave no seu peito, mas ainda querendo me matar! Nisso eu me perguntei, por que eu não fui embora correndo quando ainda pude? Mas agora era tarde, a fera veio em minha direção e não estava muito feliz. Me atacou com aquela garra enorme, sem nenhuma precisão, não foi difícil esquivar, o medo nos faz fazer coisas inacreditáveis quando os encaramos de frente. Fui parar atrás das costas dele, mas não esperava um “coice” no peito e fui parar a mais ou menos cinco metros da fera. Colidindo com as costas num galho de uma árvore meio seca, com quase a circunferência de um “DVD”, quebrou na hora! Eu estava esticado no chão e a fera pulando direto sobre mim, peguei o galho quebrado usando o braço que não tinha fraturado, o levantei com a ponta para cima, dessa vez foi certeiro.
Bem no meio da ferida feita pelo sinalizador, atravessou o peito da fera, o sangue dela jorrou em cima de mim. Enquanto a fera descia, apoiei meus pés em seu peito. Depois, consegui sair de baixo da fera com muito custo, tive que fazer muita força com minhas pernas para tirá-la de baixo de mim, agora só algo me importava... Eu sobrevivi! Com aquele galho na mão, o levantei para o alto como se fosse uma lança, dei um grito como se fosse um guerreiro e depois o joguei no rio. Voltei meus olhos para fera e algo estranho começou a acontecer, a fera começou a tomar forma humana! Espantado, eu olhei aquilo que me parecia familiar. Fiquei mais horrorizado ainda, era nosso guia! Lá estava ele ainda com as roupas e botas intactas no corpo. Por que ele faria isso? Pareceu ser um homem bom, não passou de uma ilusão. Que loucura era essa agora!? Entendia tudo! Quando ouvi gritos, era Marlom sendo morto por ele. Espere um pouco!? Então quem estava pulando de árvore em árvore? E percebi que isso estava acontecendo de novo, quando menos espero! Pulam mais três deles, que se diferenciavam por usar tangas em seus corpos.Dois aparentavam uma mistura de homem e onça pintada, agora eu estou morto, não adiantaria fugir, pois estava muito cansado. Lutar! Só se fosse para morrer, me ajoelhei e fiquei quieto esperando pela morte. Um deles, um outro homem onça negra, que estava entre os dois, um pouco maior do que aquele que matei. Se diferenciava, com um cabelo grande, olhou para o guia... Olhou para mim. Nisso eu me perguntava: “E agora... Que me falta acontecer?”
Aquele ser extraordinário se transforma em um índio alto com quase dois metros, com tatuagens tribais estilo cerâmicas indígenas por quase a metade do corpo, fala para mim:
- Para tribo Guatinchara! Um homem de coragem vale mais do que tudo! Por isso conseguiu se livrar da morte. Mas não se esqueça avisar para o homem branco que quiser nos descobrir por interesses e nos destruir! Estarão sujeitos a isso! Você não sabe o que recebeu, isso lhe será útil como ensinamento de vida. Uma nova condição!
Eles saíram de lá pulando de árvore em árvore, perturbado, sai correndo pela noite no meio daquelas árvores sem parar, sentia minhas botas espirrando lama para trás. Apesar de estar com o braço quebrado e muito ferido, não estava nem aí para a dor, fui tomado por uma loucura. Vi um barranco e me deu vontade de pulá-lo, dei um pulo bem distante, deveria ser mais de cinco metros, consegui chegar do outro lado que era mais baixo. Caí dando um rolamento, me levantei e continuei correndo naquela lama até chegar num pasto de capim bem alto. Começou a chover forte e senti meu corpo se transformando novamente, minhas calças(Obs: Calça de elástico.) e minha camisa que eram largas ficaram justas, minhas botas se rasgaram e não estavam mais nos meu pés, eu era um Guatinchara!
Um homem meio onça pintada, minhas roupas se rasgavam um pouco enquanto eu ia correndo como um bicho pela mata, como se usasse quatro patas, sentindo todo aquele capim nos meus braços e as gotas de água nas minas costas. Não sei quanto eu tinha corrido, sei que era muito. Parecia um bicho do mato, um bicho desesperado por ajuda no meio daquele mato, passei por um riacho. Nesse riacho, molhei minhas pernas, vi que tinha uma ponte à cerca de trinta metros. Na hora em que saí do riacho, subi em cima de uma pedra, me destransformei. Pois estava muito cansado, quando ia passar para o outro lado, me escorreguei e caí desmaiado no chão de tanto cansaço. Não queria mais me levantar, pois não tinha mais forças para correr e nem mais forças para querer viver. Tive pesadelos horríveis enquanto dormia, como se tudo tivesse voltado ao acampamento e como se visse tudo pelos olhos da fera, pelos olhos de uma onça. Acordo perturbado com tudo isso num hospital militar que me parecia se localizar na floresta, sem saber se o que me aconteceu foi real ou sonho.

P.S: Esse conto é d minha autoria.

Apócrifos q Garimpei na net Part.5


Primeira Carta de São Clemente aos Coríntios
INTRODUÇÃO
A Igreja de Deus estabelecida transitóriamente em Roma à Igreja de Deus estabelecida transitóriamente em Corinto, aos eleitos santificados na vontade de Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo: que a graça e a paz vos sejam dadas em plenitude da parte de Deus todo-poderoso, por Jesus Cristo.

CAPÍTULO I
1Por causa das desgraças e calamidades que repentina e continuamente se abateram sobre nós, talvez estejamos a tratar tardiamente dos acontecimentos que se deram entre vós, meus caros, e daquele motim, não conveniente a eleitos de Deus, iniciado por algumas pessoas irrefletidas e audaciosas, de uma forma sórdida e ímpia, surgido de tal ponto de loucura, que o vosso nome, dantes estimado, acatado e celebrado por todos, fosse seriamente denigrido.
2Ora, quem é que esteve entre vós e não elogiou vossa fé extraordinária e firme? Quem não admirou vossa piedade consciente e suave em Cristo? Quem não louvou a tradição da vossa hospitalidade generosa? Ou quem não vos felicitou por vossa doutrina perfeita e segura?
3Fazíeis tudo sem distiguir as pessoas e andáveis dentro dos preceitos de Deus, sujeitando-vos aos vossos guias e respeitando devidamente os vossos anciãos. Aos jovens, transmitíeis conceitos prudentes e honrosos; às mulheres, recomendáveis para que cumprissem todos os seus deveres com consciência irrepreensível, de forma santa e pura, amando convenientemente seus maridos; e ainda as ensináveis a administrar a vida doméstica dentro das normas de obediência e da mais absoluta discrição.

CAPÍTULO II
1Vós todos ainda possuíeis sentimentos de humildade, isentos de qualquer vaidade, mais dispostos a submeter-vos do que a submeter, dando com mais gosto do que esperando receber. Contentando-vos com o que Cristo vos dava como alimento e meditando sobre suas palavras, vós as guardáveis com tanto cuidado no coração mesmo enquanto tínheis sofrimentos pairando diante dos vossos olhos.
2Assim, uma paz profunda e abençoada comunicava-se a todos, e um desejo insaciável de praticar o bem, assim como a plena efusão do Espírito Santo, eram produzidos em todos.
3Repletos de uma santa vontade, em bom zelo, levantáveis as vossas mãos piedosamente para o Deus onipotente, suplicando-lhe sua misericórdia quando cometíeis involuntariamente alguma falta.
4Dia e noite, travava-se entre vós uma luta em favor da total fraternidade, para conseguir, pela misericórdia e conscienciosidade, a salvação de todos os seus eleitos.
5Autênticos e incorruptos vós éreis, não possuíeis malícia uns para com os outros.
6Toda revolta e todo cisma vos causavam horror. Ficáveis entristecidos ao ver as faltas dos outros; o que os outros cometiam, tínheis como vossas próprias faltas.
7Não havia por que vos arrepender de qualquer omissão de bondade, já que estáveis dispostos a toda boa ação.
8Ornados por uma conduta virtuosa e honrosa, cumpríeis todas as vossas ações em seu temor. Os mandamentos e as justas normas do Senhor estavam escritos sobre as fibras dos vossos corações.

CAPÍTULO III
1Plena reputação e prosperidade vos foi concedida, cumprindo-se a palavra da Escritura: "O bem amado comeu e bebeu, engordou e encheu-se de comida, e tornou-se desobediente".
2Daí nasceram o ciúme e a inveja, a discórdia e a revolta, a perseguição e a desordem, a guerra e o cativeiro.
3Desta forma, os desonrados levantaram-se contra os honrados, os desrespeitados contra os respeitados, os insensatos contra os sensatos, os jovens contra os anciãos.
4Por isso, afastou-se para longe a justiça e a paz no exato momento em que cada um abandonou o temor de Deus e obscureceu o olhar em sua fé, não andando conforme o que prescreve os seus mandamentos, não se conduzindo da maneira digna de Cristo. Ao invés, cada qual anda segundo os desejos de seu coração perverso, admitindo em si um ciúme injusto e ímpio, ciúme este que gerou a morte para o mundo.

CAPÍTULO IV
1Porque assim está escrito: "E aconteceu, após alguns dias, que Caim oferecesse a Deus um sacrifício com os frutos da terra e também, por sua vez, Abel oferecesse das primícias dos rebanhos e de suas gorduras.
2E Deus olhou para Abel e seus dons, não reparando, porém, em Caim e seus sacrifícios.
3Então Caim se entristeceu muito e seu rosto se abateu.
4Então o Senhor falou a Caim: 'Por que te tornaste sombrio e por que teu rosto anda abatido? Acaso não pecaste? Ora, embora tua oferenda seja correta, tua escolha não o foi.
5Acalma-te, pois a oferenda voltará a ti e poderás dispor dela'.
6Então Caim falou a Abel, seu irmão: 'Vamos para a planície'. E ocorreu que, enquanto estavam na planície, Caim se levantou contra Abel, seu irmão, e o matou".
7Vide, irmãos: foram o ciúme e a inveja que produziram o fratricídio.
8Por causa do ciúme, nosso pai Jacó teve que fugir da presença de Esaú, seu irmão.
9O ciúme fez com que José fosse perseguido à morte e acabasse preso.
10Foi o ciúme que obrigou Moisés a fugir da presença do faraó, rei do Egito, na hora de ouvir um de seus compatriotas: quem é que te constituiu árbitro e juiz sobre nós? Não queres matar-me, da mesma forma como ontem mataste o egípcio?
11Por causa do ciúme, Aarão e Maria foram expulsos do acampamento.
12O ciúme conduziu Datã e Abirão vivos para o Mundo dos Mortos, por se revoltarem contra Moisés, servo de Deus.
13Por ciúme, Davi não apenas obteve inveja da parte dos estrangeiros, como também foi perseguido por Saul, rei de Israel.

CAPÍTULO V
1Agora, para colocarmos fim aos exemplos antigos, passemos aos atletas que nos tocam de perto; verifiquemos os nobres exemplos da nossa geração.
2Por ciúme e inveja foram perseguidos e lutaram até à morte as nossas colunas mais elevadas e retas.
3Fixemos nossos olhos sobre os valorosos apóstolos:
4Pedro, que por ciúme injusto não suportou apenas uma ou duas, mas numerosas provas e, depois de assim render testemunho, chegou ao merecido lugar da glória.
5Por ciúme e discórdia, Paulo ostentou o preço da paciência.
6Sete vezes acorrentado, exilado, apedrejado, missionário no Oriente e no Ocidente, recebeu a ilustre glória por sua fé.
7Ensinou a justiça no mundo todo e chegou até os confins do Ocidente, dando testemunho diante das autoridades. Assim, deixou o mundo e foi buscar o lugar santo, ele, que se tornou o mais ilustre exemplo da paciência.

CAPÍTULO VI
1A esses homens de conduta santa, ajuntou-se grande multidão de eleitos que, por ciúme, suportaram muitos insultos e torturas, transformando-se no mais belo exemplo entre nós.
2Por ciúmes, mulheres foram perseguidas, como Danaídes e Dircês, e sofreram afrontas cruéis e sacrílegas, percorrendo a segura trajetória da fé e obtendo o nobre prêmio, elas, que eram fracas de corpo.
3Foi o ciúme que separou esposas e maridos, afrontando a palavra de nosso pai Adão: "Ela é osso dos meus ossos e carne da minha carne".
4Ciúme e intriga destruíram grandes cidades e eliminaram nações poderosas.

CAPÍTULO VII
1Caríssimos, ao vos escrever tais coisas, não apenas vos levamos à refletir, mas também advertimos a nós mesmos, já que nos encontramos no mesmo campo de batalha, nos esperando a mesma luta.
2Abandonemos, assim, as opiniões vazias e tolas, voltando-nos para a gloriosa e santa regra da tradição.
3Vejamos o que é belo, agradável e aceito aos olhos daquele que nos criou.
4Fixemos a vista no sangue de Cristo e compreendamos o quanto é precioso aos olhos do Pai pois, derramando-o por nossa salvação, ofereceu-o ao mundo inteiro pela conversão.
5Percorramos todas as gerações e aprendamos que de geração em geração o Senhor deu possibilidade de conversão àqueles que a Ele quiseram retornar.
6Noé anunciou a conversão e os que a aceitaram se salvaram.
7Jonas anunciou a ruína aos ninivitas; os que fizeram penitência de seus pecados, por suas súplicas, reconciliaram-se com Deus e alcançaram a salvação, ainda que fossem estranhos a Deus.

CAPÍTULO VIII
1Sobre a conversão falaram os ministros da graça de Deus, sob inspiração do Espírito Santo.
2Sobre a conversão também falou o próprio Senhor de tudo, ao jurar: "Tão certo como vivo - diz o Senhor - não quero a morte do pecador, mas sua conversão". E acrescentou:
3"Convertei-vos de vosso erro, casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: 'ainda que os vossos pecados se amontoassem da terra até o céu, ainda que estes fossem mais vermelhos que a púrpura e mais negros que o saco, se vos voltardes para mim de todo coração e disserdes: 'Pai!', eu vos atenderei como se fosses um povo santo'".
4Em outra parte, ainda fala: "Lavai e purificai-vos. Afastai dos meus olhos as maldades de vossas almas. Deixai vossas maldades e aprendei a praticar o bem; procurai a justiça, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a viúva, e então vinde para colocarmos as coisas em ordem - diz o Senhor. E se os vossos pecados forem como a púrpura, os tornarei brancos como a neve; se forem escarlate como a lã, os farei alvos. Se vos dispuserdes a me escutar, comereis os bens desta terra; porém, se não quiserdes me ouvir, a espada vos devorará - assim fala a boca do Senhor".
5No desejo de levar a todos os seus amados a participarem da conversão, fortaleceu-vos por sua vontade toda-poderosa.

CAPÍTULO IX
1Por isso, obedeçamos sua vontade excelsa e gloriosa. Supliquemos, prostrados, pela piedade e bondade. Recorramos à sua misericórdia. Abandonemos a vaidade, a discórdia e o ciúme que conduz à morte.
2Fixemos o olhar naqueles que serviram com perfeição a sua magnífica glória.
3Tomemos, por exemplo, Henoc, que, encontrado justo em sua submissão, foi arrebatado e não se encontrou indício de sua morte.
4Noé, reconhecido fiel, recebeu o encargo de anunciar o renascimento do mundo e o Senhor salvou, por ele, os seres que entraram em harmonia na sua arca.

CAPÍTULO X
1Abraão, proclamado "o amigo", se revelou fiel em sua submissão à palavra de Deus.
2Por obediência, ele saiu de sua terra, deixou seus parentes e a casa do pai, saindo de uma terra pequenina, parentes sem importância, uma casa modesta, para herdar as promessas de Deus. Pois é Ele quem lhe diz:
3"Deixa tua terra, teus parentes e a casa de teu pai, para te dirigires à terra que te mostrarei. Farei de ti um povo grande. Abençoar-te-ei e engrandecerei teu nome; serás abençoado. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti, todas as tribos da terra serão benditas".
4Outra vez, ao se separar de Lot, falou-lhe Deus: "Levanta teus olhos e mede o espaço existente entre ti, entre o norte e o sul, leste e mar: pois toda essa terra vos darei e à tua descendência para sempre.
5Farei tua descendência como o pó da terra: se alguém conseguir contar o pó da terra então saberá também contar a tua descendência".
6E ainda diz: "Conduziu Deus a Abraão para fora e lhe falou: 'Levanta os olhos para o céu e conta os astros, se é que consegues contá-los. Assim será a tua descendência'. Abraão acreditou em Deus e isso lhe foi imputado como justificação".
7Por causa da fé e da hospitalidade, foi-lhe dado um filho na velhice e, por obediência, ele o ofereceu como sacrifício a Deus sobre um dos montes que Ele lhe mostrou.

CAPÍTULO XI
1Por causa da hospitalidade e piedade, Lot salvou-se de Sodoma, quando a terra em redor foi castigada com fogo e enxofre. Desta forma, Deus deixou claro que não abandona aqueles que esperam nele, mas que entrega os ímpios ao castigo e ao suplício.
2Sua mulher acompanhava-o na saída, no entanto, não compartilhava sua fé e crença, transformando-se num sinal disso, a ponto de reduzir-se a mera estátua de sal até os dias de hoje, para que todos, assim, possam se inteirar que Deus pune os desconfiados e os de alma dupla para escárnio de todas as gerações.

CAPÍTULO XII
1Por causa da fé e hospitalidade, Raabe, a prostituta, se salvou.
2Pois quando Jesus, filho de Navé, mandou espiões para Jericó, o rei daquela nação ficou sabendo que haviam chegado homens para explorar a terra; então mandou homens para os prenderem e, após presos, matarem-nos.
3Raabe, a hospitaleira, recebeu-os e os ocultou sob a palha do linho no andar superior.
4Quando os emissários do rei se apresentaram e lhe falaram: "Aqui entraram os espiões que vieram reconhecer nosso território. O rei manda que os entregueis", ela respondeu-lhes: "De fato, os homens que procurais entraram em minha casa, porém já se retiraram e continuam seu caminho". E ela apontou-lhes em direção oposta.
5Então ela falou aos espiões: "Disto sei e me convenci: o Senhor vos entregou esta terra porque o medo e pânico se apossaram de seus habitantes. Quando a conquistardes, salvai a mim e a casa de meu pai".
6Os espiões responderam: "Será como falaste! Quando nos vires aproximar, reúnam-se todos os teus parentes sob o teto da tua morada e todos serão salvos; porém, aqueles que estiverem do lado de fora perecerão".
7Como outro sinal, propuseram-lhe ainda que dependurasse algo vermelho na casa, tornando evidente que, pelo sangue do Senhor, viria a redenção para todos aqueles que cressem e esperassem em Deus.
8Vede, amados: nesta mulher não houve apenas fé, mas também o dom da profecia.

CAPÍTULO XIII
1Portanto, tornemo-nos humildes, irmãos, deixando de lado toda a ostentação, o orgulho, o excesso e a ira, e cumpramos o que está escrito. Pois assim diz o Espírito Santo: "Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte em sua força, nem o rico em sua riqueza, mas aquele que se gloriar, glorie no Senhor, procurando-O e praticando o direito e a justiça". Antes de mais nada, recordemos as palavras ditas por Jesus, mestre da equidade e grandiosidade.
2Pois foi ele que disse isto: "Sede misericordiosos para obterdes misericórdia. Perdoai para que sejais perdoados. Assim como fizerdes, assim vos será feito. Da forma como derdes, assim vos será dado. Do modo como julgardes, assim sereis julgados. Como fizerdes o bem, assim vos será feito. Com a medida que medirdes, também vos será medido em troca".
3Com este mandamento e estes preceitos, fortaleçamo-nos, para que possamos andar humildes e submissos às suas santas palavras. Pois a sagrada palavra assim reza:
4"Para quem hei de olhar senão para o manso e pacífico e para aquele que respeita os meus oráculos?".

CAPÍTULO XIV
1É justo e santo, irmãos, tornarmo-nos submissos a Deus do que seguirmos aqueles que se deixam guiar pela arrogância e orgulho, aos promotores do ciúme.
2Estaremos nos expondo não a um prejuízo qualquer, mas a um grande perigo, se nos entregarmos aos caprichos dos homens, que buscam a discórdia e a revolta para nos separar da boa conduta.
3Sejamos bondosos uns para com os outros, seguindo a misericórdia e doçura do nosso Criador.
4Pois assim está escrito: "Os mansos habitarão a terra, os inocentes serão deixados sobre ela enquanto os pecadores serão exterminados dela".
5E em outro ponto: "Vi o ímpio gabar-se orgulhoso como os cedros do Líbano; passei e ele não mais existia; então procurei seu lugar e não encontrei. Guarda a inocência e observa a justiça pois se consagra a memória do homem que guarda a paz".

CAPÍTULO XV
1Unamo-nos, pois, àqueles que mantêm a paz na santidade e não aos que defendem a paz por pura hipocrisia.
2Pois é dito em algum lugar: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim".
3E novamente: "Abençoavam com a boca, mas amaldiçoavam com o coração".
4E novamente: "Amavam-no com os lábios, mas mentiam-lhe com a língua; o coração não era sincero para com Ele, nem se mantinham fiéis à sua aliança.
5Por isso, tornem-se mudos os lábios ímpios que proferem maldades contra os justos". E ainda: "Que o Senhor extermine todos os lábios ímpios, a língua arrogante e todos os que dizem: 'Engrandecemos a nossa língua, em nossos lábios estão o poder! Quem é o nosso Senhor?'.
6Por causa da miséria dos pobres e dos gemidos dos desamparados, levantar-me-ei agora - diz o Senhor - e os colocarei a salvo.
7Julgarei seu caso com isenção".

CAPÍTULO XVI
1Porque Cristo pertence aos humildes e não aos se elevam acima da comunidade.
2O cetro da majestade de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, não veio com ares de arrogância e orgulho, muito embora assim pudesse ter feito, mas com humildade, como, sobre ele, o Espírito Santo anunciou. Pois disse:
3"Senhor, quem deu crédito à nossa palavra? A quem se revelou o braço do Senhor? Nós anunciamos na presença Dele: Ele é como o escravo, como a raiz numa terra sedenta! Não possui beleza, nem brilho. Nós o vimos: não tinha beleza, nem aparência agradável. Ao invés, sua beleza era desprezível e perdia para a beleza dos homens. Um homem açoitado, trabalhado e acostumado a sofrer fraquezas; menosprezado, afastou o rosto e não contou para nada.
4Ele carrega nossos pecados e sofre por nós. Vimos nele um homem atormentado, açoitado e humilhado.
5Foi coberto de chagas por causa de nossos pecados; tornou-se debilitado por causa de nossos crimes; o castigo que nos educa para a paz caiu sobre ele e nós fomos curados, graças às suas chagas.
6Todos, como ovelhas, andávamos desviados; o homem havia se desviado de sua rota.
7O Senhor o entregou em resgate por nossos pecados e ele não abriu a boca diante dos maus tratos. Como cordeiro, foi conduzido ao matadouro e, como ovelha, na frente do tosquiador permaneceu calado, sem abrir a boca. Na humilhação foi levantada sua condenação.
8Quem pregava sua geração já que sua vida será tirada da terra?
9Por causa das iniquidades do meu povo, ele será levado à morte.
10E Eu entregarei os ímpios como reféns de sua sepultura e os ricos em troca da sua morte, pois não cometeu mal algum, nem culpa foi encontrada em sua boca. Mas o Senhor quer purificá-lo de suas feridas.
11Se oferecerdes um sacrifício por vosso pecado, vossa alma verá descêndência pela longa vida.
12O Senhor quer arrancar o tormento de sua alma, mostrar-lhe a luz e formá-lo na consciência, justificando o justo que bem serviu a muitos; ele próprio tomará sobre si os pecados deles.
13Por isso terá multidões como herança e distribuirá os troféus dos poderosos pelo fato de sua alma ser entregue à morte e ele ter sido contado entre os ímpios.
14E ele próprio suportou os pecados de muitos e se entregou pelos pecados deles".
15Ele próprio ainda diz: "Eu, porém, não sou mais que um verme, não sou homem, mas último entre os homens e escória do povo.
16Todos os que me viram, zombaram de mim, murmuraram com os lábios e moveram a cabeça em sinal de negação. Confiou no Senhor, que o livre; se o quiser bem, que o salve".
17Vede, amados, que exemplo nos foi dado! Se o Senhor assim se humilhou, o que faremos nós que chegamos, por Ele, ao jugo de sua graça?

CAPÍTULO XVII
1Tornemo-nos imitadores daqueles que em peles de carneiros e ovelhas percorriam a terra, anunciando a chegada de Cristo: pensemos em Elias e Eliseu, também em Ezequiel, nos profetas e, além destes, naqueles que receberam testemunho favorável.
2Abraão recebeu magnífico testemunho, sendo proclamado 'amigo de Deus'. Mesmo assim, contemplando a glória de Deus, confessou em sua humildade: "Eu, por mim, sou terra e cinza".
3Também sobre Jó se escreveu desta forma: "Jó, porém, era justo e irrepreensível; verdadeiro, temente a Deus e afastado de todo o mal".
4Apesar disso, ele próprio se acusa, dizendo: "Ninguém é isento de impureza, mesmo que sua vida se resumisse a um só dia".
5Moisés foi chamado de 'fiel servidor em toda a casa de Deus' e através de seu ministério, Deus castigou o Egito com pragas e sofrimentos. Contudo, mesmo sendo tão magnificamente exaltado, não se excedeu em palavras grandiloquentes, mas, ao revelar-lhe o oráculo da sarça, falou apenas: "Quem sou eu para me enviares? Tenho a voz fraca e dificuldade para falar".
6E novamente assim fala: "Não passo de vapor que sai da panela quente".

CAPÍTULO XVIII
1O que dizer de Davi e seu testemunho? A ele, Deus falou: "Descobri um homem segundo o meu coração: Davi, filho de Jessé. Em eterna misericórdia eu o ungi".
2Mas também ele falou para Deus: "Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande piedade e, segundo a tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
3Lava-me sempre mais de minha iniquidade e purifica-me do meu pecado, pois reconheço a minha injustiça e o meu pecado está sempre diante de mim.
4Pequei somente contra ti e pratiquei o que é mau perante os Vossos olhos; para que estejas justificado em tuas palavras e venças, se te julgarem.
5Eis que fui concebido na iniquidade e no pecado minha mãe me carregou em seu seio.
6Eis que amaste a verdade e me revelaste os obscuros mistérios da tua sabedoria.
7Hás de me aspergir com hissopo e serei purificado; hás de me lavar e tornar-me-ei mais branco do que a neve.
8Hás de fazer-me ouvir o som da alegria e da festa e os ossos humilhados se rejubilarão.
9Afasta o rosto de meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades.
10Cria um coração puro em mim, ó Deus, e forma um espírito firme em meu peito.
11Não me afastes de tua presença e não retires de mim teu santo espírito.
12Restitui-me a alegria da tua salvação e confirma-me com um espírito magnâmico.
13Ensinarei teu caminho aos pecadores e os ímpios hão de converter-se para ti.
14Livra-me de ações sanguinárias, ó Deus, Deus de minha salvação.
15Minha língua exaltará a tua justiça. Senhor, hás de me abrir a boca e meus lábios proclamarão o teu louvor.
16Se tivesses desejado um sacrifício, te-lo-ia oferecido, porém, não te agradas com holocaustos.
17Para Deus, sacrifício é o espírito arrependido. Deus não desprezará um coração contrito e humilhado".

CAPÍTULO XIX
1A humildade e a modéstia de homens tão grandes e santos foram aprovados pela sua obediência. Os que receberam as palavras Dele em temor e verdade não só nos tornaram melhores como também as gerações que nos precederam.
2Assim, após participarmos de muitas grandes e gloriosas ações, corramos para a meta de paz que nos foi proposta desde o início. Fixemos o nosso olhar sobre o Pai e Criador de todo o mundo e agarremo-nos aos seus magníficos e excelsos dons de paz e benefícios.
3Olhemos para Ele em espírito e consideremos com os olhos da alma sua generosa vontade. Reconheçamos o quanto é indulgente para com toda a sua criação.

CAPÍTULO XX
1Os céus movem-se por Sua disposição e lhe submetem na paz.
2O dia e a noite percorrem o caminho por Ele demarcado, sem jamais se impedirem mutuamente.
3Sol, lua e demais astros giram conforme Sua determinação, em harmonia e sem desvio algum pelas órbitas prescritas a cada um deles.
4A terra, submissa à Sua vontade, fecunda nas estações próprias e provém sustento aos homens, animais e todos os seres vivos, sem se rebelar nem se afastar da ordem por Ele desejada.
5As profundezas insondáveis dos abismos e os subterrâneos inexplorados se mantêm conforme as Suas leis.
6O mar imenso, encerrado dentro da bacia que o contém, não ultrapassa os limites a ele imposto mas, assim como lhe foi ordenado, o obedece.
7Pois foi Ele quem disse: "Até aqui chegarás e tuas ondas se quebrarão em ti mesmo".
8O oceano, intransponível aos homens, bem como os mundos atrás dele, ordenam-se pelas mesmas leis do Senhor.
9As estações da primavera, verão, outono e inverno se sucedem umas às outras em paz.
10A força dos ventos cumpre, por sua vez, o serviço dele sem se desfalecer; as fontes perenes, criadas para gôzo e saúde, oferecem os peitos - sem interrupção - para dar vida aos homens. Até os animais mais pequeninos fazem suas reuniões dentro da paz e harmonia.
11O grande Criador e Senhor de tudo ordenou todas essas coisas para que existissem em paz e concórdia, já que deseja o bem de todas as criaturas, mostrando-se generoso demais em relação a nós que nos refugiamos em sua misericórdia por nosso Senhor Jesus Cristo.
12A Ele glória e majestade pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XXI
1Amados, cuidai para que vossos benefícios tão numerosos não se transformem em condenação para nós, o que acontecerá se não formos dignos Dele e não realizarmos em concórdia o que é bom e agradável a Seus olhos,
2pois está dito em alguma parte: "O Espírito do Senhor é uma lanterna que penetra até o fundo do coração".
3Consideremos o quanto está próximo, de forma que nada do que pensamos, nada do que calculamos permanece-Lhe oculto.
4Assim, é justo que não nos afastemos da Sua vontade.
5Devemos preferir chocar homens tolos e insensatos, exaltados e cheios da arrogância de seus discursos, do que a Deus.
6Reverenciemos o Senhor Jesus, cujo sangue foi derramado por nós. Respeitemos nossos chefes. Honremos os anciãos. Eduquemos os jovens a temerem a Deus. Guiemos nossas mulheres para o bem.
7Que elas manifestem o desejo da pureza, a pura intenção na suavidade. Que, pelo silêncio, demonstrem a moderação de sua linguagem. Que o amor não fique dependente das inclinações, mas que seja praticado de modo santo e igual entre todos aqueles que temem a Deus.
8Que nossos filhos participem da educação em Cristo, aprendendo o quanto pode a humildade perante Deus, o quanto o amor consegue perante Deus, o quanto o temor Dele é bom e excelso, salvando a todos os que nele vivem santamente em pura intenção.
9É Ele que investiga nossos pensamentos e desejos. É o sopro Dele que está presente em nós e que pode ser retirado por Ele quando quiser.

CAPÍTULO XXII
1A fé em Cristo garante todas essas coisas, pois é Ele mesmo que assim nos convida, pelo Espírito Santo: "Filhos, vinde e escutai-me: hei de ensinar-vos a temer a Deus.
2Quem é o homem que quer vida e aprecia ver dias bons?
3Guarda tua língua do mal e teus lábios da traição.
4Afasta-te do mal e faze o bem.
5Procura e persegue a paz.
6Os olhos do Senhor estão voltados para os justos e seus ouvidos para as suas súplicas. Mas a face do Senhor se volta contra os que praticam o mal, destruindo a memória deles sobre a terra.
7O justo clama e o Senhor o atende, livrando-o de todas as tribulações.
8Muitos são os flagelos do pecador, já a misericórdia cerca os que esperam no Senhor.

CAPÍTULO XXIII
1O Pai todo-poderoso e misericordioso tem entranhas para os que O temem e, assim, distribui de forma bondosa e amorosa Suas graças àqueles que se aproximam Dele com o coração simples.
2Não hesitemos por causa disso, nem se orgulhe nossa alma por causa dos Seus dons ricos e magníficos.
3Que nunca se aplique a nós a passagem da Escritura que diz: "Infelizes os que hesitam no coração e desconfiam na alma; aqueles que dizem: 'Tais promessas já escutamos na época de nossos pais e eis que envelhecemos e nada disso aconteceu'.
4Ó insensatos, comparai-vos à uma árvore; reparai na videira que, primeiro perde as folhas e então brota, a seguir vêm a folha, então a flor e, depois disso, a uva verde é seguida da uva madura". Considerai como, em pouco tempo, o fruto da árvore se torna maduro.
5É bem assim que a vontade de Deus se cumpre, em ritmo veloz e inesperado, como a própria Escritura nos atesta: "Virá logo e não tardará. Subitamente o Senhor entrará no seu santuário, o Santo a quem esperais".

CAPÍTULO XXIV
1Amados, observemos como o Senhor não cessa de dar-nos provas de que, no futuro, a ressurreição se concretizará. Deu-nos prova dela primeiramente ressuscitando Jesus Cristo dos mortos.
2Amados, vejamos como se dá a ressurreição a seu tempo.
3O dia e a noite nos manifestam a ressurreição: dorme a noite, ressuscita o dia; o dia se retira, chega a noite.
4Exemplifiquemos com os frutos da terra: como e de que modo faz-se a semeadura?
5O semeador sai e espalha, semente por semente, pela terra lavrada, que caem secas e nuas sobre a terra e aí se desfazem; desta decomposição, a grandiosa providência do Senhor as ressuscita, de forma que, de uma, aumentam para muitas e produzem fruto.

CAPÍTULO XXV
1Consideremos o sinal prodigioso que ocorre na região oriental, isto é, nas terras próximas da Arábia.
2Aí existe um pássaro chamado fênix, único na espécie e que vive quinhentos anos. Quando está para morrer, ergue seu próprio sepulcro usando incenso, mirra e outras plantas aromáticas e, ao completar seu tempo, aí se introduz e morre.
3De sua carne em decomposição nasce uma larva que se alimenta da matéria putrefata do animal morto e cria asas; quando se torna forte, levanta o sepulcro onde se encontram os restos de seu ancestral e carrega-o, voando da terra da Arábia até a cidade do Egito chamada Heliópolis.
4E, em plena luz do dia, aos olhos de todos, transporta e depõe aqueles restos sobre o altar do sol; a seguir, retoma o vôo de volta.
6Então os sacerdotes examinam os calendários e percebem que ele chegou ao se completarem quinhentos anos.

CAPÍTULO XXVI
1Devemos, então, considerar grandioso e estranho o fato de o Criador operar a ressurreição de todos aqueles que lhe serviram santamente na confiança de uma boa fé, se ele ilustra até por um pássaro a grandeza de sua promessa?
2Lê-se em alguma parte: "Hás de me ressuscitar e eu te louvarei". E: "Deitei-me e adormeci; levantei-me porque tu estás comigo".
3E Jó adverte novamente: "Ressuscitarás minha carne que suportou todo esse sofrimento".

CAPÍTULO XXVII
1Que nossas almas se apeguem por uma esperança assim Àquele que é fiel em Suas promessas e justo em Seus juízos.
2Aquele que proibiu a mentira, tampouco haverá de mentir, pois nada junto a Deus é impossível, exceto a mentira.
3Portanto, que se acenda novamente dentro de nós a fé Nele e reconheçamos que todas as coisas estão próximas Dele.
4Com apenas uma palavra de sua grandeza, estabeleceu tudo e, com uma só palavra, pode destruir tudo.
5Quem diria a Ele: "O que fizeste?", e quem resistiria à força do seu poder? Fará tudo quando e como quiser. Nada das coisas que ordenou haverá de passar.
6Tudo está diante de Seus olhos, nada escapa de Sua determinação.
7Os céus anunciam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de Suas mãos. O dia comunica a façanha ao dia, a noite transmite seu conhecimento à noite. Não há palavras nem discursos em que suas vozes não são ouvidas.

CAPÍTULO XXVIII
1Já que vê tudo e ouve tudo, temamos a Ele e abandonemos os maus desejos das ações desonestas, para nos pouparmos por Sua piedade dos futuros juízos.
2Para onde poderia algum de nós fugir de Sua mão forte? Qual mundo receberia alguém que desertou Dele? Pois, em algum lugar, diz a Escritura:
3Para onde fugirei e onde me esconderei de Tua face? Se subir ao céu, lá estás. Se me retiro para as extremidades da terra, lá está a tua direita. Se me atiro nos abismos, lá está o Teu Espírito.
4Portanto, para onde poderia alguém ir para escapar Daquele que tudo envolve?.

CAPÍTULO XXIX
1Logo, aproximemo-nos Dele com alma santa, levantando mãos puras e imaculadas para Ele, amando nosso Pai bondoso e misericordioso, que nos admitiu como herdeiros.
2Porque assim está escrito: "Quando o Altíssimo distribuiu a herança aos povos, na hora de disseminar os filhos de Adão, definiu territórios para os povos conforme a multidão dos anjos de Deus. Tornou-se herança do Senhor o povo de Jacó e sua partilha foi Israel".
3E em outra parte se diz: "Eis que o Senhor toma para si um povo no meio dos povos, assim como um homem toma as primícias de sua eira, e deste povo há de proceder o Santo dos santos".

CAPÍTULO XXX
1Uma vez que formamos a porção santa, façamos tudo o que leva à santificação. Fujamos da maledicência, abraços impuros e impúdicos, bebedeiras, modismos temporários, cobiças abomináveis, adultério detestável e soberba hedionda.
2Pois Deus, como se lê, resiste aos soberbos, porém, concede graça aos humildes.
3Portanto, unamo-nos àqueles a quem Deus concede a graça. Revistamo-nos de concórdia, sejamos continentes humildes, mantendo-nos afastados de toda murmuração e calúnia, justificando-nos mais pelas obras do que pelas palavras.
4Pois assim se diz: "Quem muito fala, terá resposta. Qual homem eloqüênte imaginaria que isso fosse justo?"
5Bem-aventurado o homem, nascido de mulher, que vive pouco. Não te tornes pródigo em palavras.
6Venha nosso louvor de Deus e não de nós. Deus odeia aquele que louva a si próprio.
7O testemunho de nossas boas ações seja dado pelos outros, como assim também aconteceu com nossos pais, que foram justos.
8A arrogância, a presunção e a audácia se assentam sobre aqueles que foram malditos por Deus. A discrição, a humildade e a mansidão habitam junto daqueles que foram abençoados por Deus.

CAPÍTULO XXXI
1Dessa forma, desejemos a bênção Dele e vejamos quais são os caminhos que levam à bênção. Voltemos aos acontecimentos desde o princípio.
2Por que nosso pai Abraão foi abençoado? Não seria porque ele praticou a justiça e a verdade pela fé?
3Isaac, conhecendo o porvir e cheio de confiança, deixou-se levar alegremente ao sacrifício.
4Jacó, humildemente, abandonou a terra por causa de seu irmão e foi para junto de Labão, vivendo ali como seu servo, recebendo os doze cetros de Israel.

CAPÍTULO XXXII
1Se alguém refletir com sinceridade sobre cada uma dessas coisas, reconhecerá a magnificência dos dons de Deus a Jacó.
2É dele que procederão todos os sacerdotes e levitas que servirão ao altar de Deus. Dele [procede] o Senhor Jesus, segundo a carne. Dele [procede], através de Judas, os reis, príncipes e chefes. Por sua vez, os outros cetros de Jacó também gozarão de não pouca honra, uma vez que Deus anunciou: "Tua descendência será numerosa como as estrelas do céu".
3Assim, todos atingiram à glória e à grandeza, não por si mesmos, nem por suas obras ou pela justiça praticada, mas por vontade Dele.
4Também igualmente entre nós, que fomos chamados por Sua vontade em Cristo Jesus, já que não nos justificamos a nós mesmos, nem por nossa sabedoria ou inteligência, ou pela piedade ou obras que tenhamos praticado na santidade do coração, mas através da fé, pela qual o Deus todo-poderoso justificou a todos desde sempre: a Ele, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XXXIII
1Então, o que faremos, irmãos? Deveríamos renunciar à prática do bem e desertar de Seu amor? Jamais permita o Senhor que isso aconteça conosco. Ao contrário, devemos nos esforçar para cumprir toda a obra boa com disponibilidade entusiástica,
2já que o próprio Criador e Senhor de tudo se regozija de suas obras.
3Foi Ele que firmou os céus com poder soberano e os ornamentou com inesgotável sabedoria. Separou, também, a terra da água que a cerca, assentando-a sobre a firmeza de Sua própria vontade. Aos animais que povoam [a terra], chamou-os à existência por sua ordem. Ele fez o mar e os seres que nele habitam, encerrando-os aí com seu poder.
4Além disso tudo, com Suas mãos santas e puras, Ele modelou a mais excelente, a maior de Suas obras: o homem. E imprimiu nele os traços de Sua própria imagem,
5pois assim falou Deus: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. E Deus criou o homem; varão e mulher os criou".
6E, enfim, quando terminou todas essas obras, achou-as boas, abençoou-as e lhes disse: "Crescei e multiplicai-vos".
7Reparemos que todos os justos ornamentaram-se de boas obras e também o próprio Senhor teve prazer em ornar-se com boas obras.
8Já que temos tal exemplo, submetemo-nos sem demora à sua vontade e, com todas as forças, pratiquemos as obras da justiça.

CAPÍTULO XXXIV
1O bom trabalhador aceita, desinibidamente, o pão que ganhou com seu trabalho. Já o preguiçoso e negligente foge do olhar de seu senhor.
2Portanto, é necessário que estejamos dispostos a executar as boas obras, já que elas derivam Dele.
3E foi assim que nos preveniu: "Eis o Senhor! Sua recompensa está diante Dele, para retribuir a cada um conforme suas obras".
4Assim nos exorta a confiarmos Nele de todo o coração, para que não sejamos preguiçosos nem indolentes para nenhuma boa obra.
5Nossa glória e segurança estão Nele! Submetamo-nos à sua vontade! Pensemos no grande número de anjos que estão prontos para servirem à Sua vontade.
6Assim diz a Escritura: "Milhares e milhares estavam diante dele e centenas de milhares o serviam e clamavam: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos. Toda a criação está cheia de sua glória'".
7Também nós, reunidos harmoniosamente com a mesma finalidade, conscientes de nosso dever, clamamos a ele sem nos cansarmos, numa só voz, para nos tornarmos participantes das Suas grandiosas e magníficas promessas,
8pois é Ele quem diz: "Nenhum olho viu, nenhum ouvido escutou e nenhum coração humano penetrou o que Deus de grande preparou para os que Nele confiam."

CAPÍTULO XXXV
1Meus amados, como são ricos e admiráveis os presentes de Deus!
2Vida em imortalidade, esplendor em justiça, verdade em liberdade, fé em confiança, continência em santidade... e tudo isso chegou ao nosso conhecimento.
3Então, o que não há de estar preparado para os que nele aguardam? O Criador e Pai dos séculos, o próprio Santíssimo conhece a grandeza e a beleza de seus dons.
4Lutemos, assim, para sermos contados no número dos que Nele esperam, para nos tornarmos participantes de Seus dons prometidos.
5Porém, como dar-se-á isso, amados? Fixando nossa mente com confiança em Deus, procurando o que Lhe é agradável e aceito, cumprindo o que convém à Sua santa vontade, seguindo o caminho da verdade, afastando de nós toda injustiça, maldade, ambição, dissensões, malignidade, dolos, murmurações, difamações, recusas de Deus, soberba, jactância, vaidade e falta de hospitalidade.
6Os praticantes de tais obras são réus do ódio de Deus, [mas] não apenas os que as praticam, como também quem as aprovam.
7Assim diz a Escritura: "Porém Deus disse ao pecador: 'Para que explicas os meus mandamentos e pronuncias sobre a minha aliança?
8Detestaste a disciplina e abandonaste minhas palavras. Quando vias um ladrão, corrias com ele; combináveis com os adúlteros. Tua boca estava cheia de malícia e tua língua provocava enganos. Tranqüilamente difamavas teu irmão e entregavas ao escândalo o filho de tua mãe.
9Era o que fazias enquanto Eu me calava. Impiamente supunhas que Sou semelhante a ti.
10Hei de confundir e obrigar-te a ver-te de frente.
11Compreendei, afinal, estas coisas, vós que esqueceis de Deus, para que não vos arrebate como um leão e já não se encontre quem vos liberte.
12Um sacrifício de louvor há de Me glorificar e aí está o caminho no qual lhe mostrarei a salvação de Deus'".

CAPÍTULO XXXVI
1Amados irmãos, este é o caminho no qual encontramos a nossa salvação: Jesus Cristo, o sumo-sacerdote de nossas oferendas, o protetor e auxílio em nossa fraqueza.
2Por ele, olhamos para o alto dos céus. Através dele, descobrimos a face imaculada e soberana de Deus. Através dele, abriram-se os olhos do nosso coração. Através dele, nossa inteligência obtusa e obscura se abre ao encontro da luz. Através dele, o Senhor quis que saboreássemos do conhecimento imortal. Sendo Ele o esplendor de Sua grandeza, é tanto maior que os anjos, tendo recebido em herança um nome superior ao deles.
3Pois assim está escrito: "Aquele que fez os ventos serem seus anjos e as chamas do fogo serem seus servos".
4Assim falou o Senhor a respeito de seu Filho: "Meu Filho és tu. Hoje Eu te gerei: pede-Me e Eu te darei as nações como herança e os confins da terra como possessão".
5E outra vez Lhe diz: "Senta-te à minha direita, até que ponha teus inimigos como escabelo de teus pés".
6Quem seriam estes inimigos? [Certamente,] os maus e os que se opõem à Sua vontade.

CAPÍTULO XXXVII
1Irmãos, militemos com todo entusiasmo sob Suas ordens indiscutíveis.
2Observemos nos soldados que servem sob as bandeiras dos nossos imperadores, como cumprem as ordens com disciplina, prontidão e submissão.
3Nem todos são comandantes, nem todos são chefes de mil, nem chefes de cem, nem chefes de cinqüenta e assim por diante, mas cada qual cumpre, em seu próprio posto, as ordens emanadas pelo chefe supremo e demais autoridades.
4Os grandes nada podem sem os pequenos e os pequenos nada podem sem os grandes. Em tudo existe alguma mistura e aí está a vantagem.
5Exemplifiquemos com o nosso corpo: a cabeça sem os pés nada é; nem, tampouco, os pés sem a cabeça. Até os menores membros do corpo são úteis e necessários ao resto do corpo. Todos convivem e atuam em submissão unânime para salvarem todo o corpo.

CAPÍTULO XXXVIII
1Que se conserve, portanto, por inteiro o corpo que formamos em Jesus Cristo e cada um se submeta a seu próximo, conforme o carisma que lhe foi dado.
2O forte cuide do fraco e o fraco, por sua vez, respeite o forte. O rico preste serviço ao pobre e o pobre, por sua vez, renda graças a Deus, que lhe deu o suficiente para suprir sua falta. O sábio manifeste sua sabedoria não por palavras, mas por obras. O humilde não dê testemunho de si mesmo, mas permita que o outro o dê a seu favor. O casto em sua carne não se envaideça pois sabe que é Outro quem lhe dá a continência.
3Afinal, irmãos, analisemos de que matéria fomos feitos, como e quem fomos ao entrarmos no mundo, de que sepulcro e escuridão nosso oleiro e criador nos tirou para nos introduzir em Seu mundo, Ele que preparou para nós todos os Seus dons antes mesmo que nascêssemos.
4Já que temos tudo isso Dele, devemos render-Lhe graças por tudo. A Ele, a glória pelos séculos. Amém.

CAPÍTULO XXXIX
1Ignorantes e insensatos, loucos e incultos zombam e escarnecem de nós, querendo dar importância às suas idéias.
2O quanto pode um mortal, qual a força de alguém que nasceu da terra?
3Está escrito: "Não havia forma aos meus olhos, mas percebi um hálito e uma voz que dizia:
4'Como haveria de ser puro um mortal diante do Senhor ou irrepreensível um homem por causa de suas obras? Se nem Deus pode confiar em seus servos e se junto a seus anjos encontrou algo de errado?'
5Nem o céu é puro diante Dele, como, então, poderiam ser [puros] os hóspedes dos ranchos de barro, aos quais pertencemos, sendo nós do mesmo barro? Esmagou-os como vermes e entre a manhã e a noite deixaram de existir. Pereceram porque não podem se ajudar por si próprios.
6Soprou sobre eles e morreram por não terem sabedoria.
7Grita! Talvez alguém te escute ou vejas algum dos santos anjos. Realmente a cólera consome o tolo e o ciúme mata aquele que se desviou.
8Tenho visto alguns tolos deitando raízes, mas logo são consumidos como alimento.
9Que seus filhos sejam mantidos longe da salvação, que sejam desprezados ao baterem à porta dos humildes e não se encontre quem os liberte. Aquilo que para eles estava preparado seja alimento dos justos, não encontrando eles saídas para seus males".

CAPÍTULO XL
1Sendo óbvias todas essas coisas e tendo nós sondado as profundezas do conhecimento de Deus, devemos fazer com ordem tudo aquilo que o Senhor nos mandou cumprir nos tempos determinados:
2Mandou-nos oferecer os sacrifícios e celebrar o culto, não ao acaso ou desordenadamente, mas com tempos e horas marcadas.
3Foi Ele quem fixou, por sua decisão altíssima, onde e quais ministros deverão fazê-los, para que tudo fosse feito de forma santa, sendo aceito por sua vontade.
4Aqueles que fazem suas oferendas dentro dos tempos determinados, são-Lhe agradáveis e abençoados, já que seguem as determinações do Senhor e não pecam.
5Pois ao sumo-sacerdote foram confiadas tarefas particulares, aos sacerdotes um lugar próprio, aos levitas certos serviços e o leigo liga-se pelas ordenações exclusivas dos leigos.

CAPÍTULO XLI
1Irmãos, cada qual de nós agrade o Senhor em sua função, vivendo em boa consciência, não transgredindo as regras de seu ofício e exercendo-o com toda a dignidade.
2Irmãos, nem por toda parte são oferecidos sacrifícios perpétuos ou votivos, de expiação e remissão, mas apenas em Jerusalém. E lá mesmo não se oferece em qualquer parte, mas apenas na frente do santuário, sobre o altar, e só depois que o sumo-sacerdote e os seus auxiliares, acima mencionados, examinarem atenciosamente a oferenda.
3Aqueles que praticam algo contra aquilo que agrada Sua vontade recebem a morte como castigo.
4Irmãos, vede que, quanto maior o conhecimento com que somos distingüidos, maior o perigo a que nos expomos.

CAPÍTULO XLII
1Os apóstolos receberam em nosso favor a boa-nova da parte do Senhor Jesus Cristo. E Jesus Cristo foi enviado por Deus.
2Portanto, Cristo vem de Deus e os apóstolos [vêm] de Cristo. Esta dupla missão realizou-se em perfeita ordem por vontade de Deus.
3Munidos de instruções e plenamente assegurados pela ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, confiantes na Palavra de Deus, saíram a evangelizar a próxima vinda do Reino de Deus na plenitude do Espírito Santo.
4Assim, proclamando a palavra nos campos e nas cidades, estabeleceram suas primícias, como bispos e diáconos, dos futuros fiéis, após prová-los pelo Espírito.
5E não se trata de inovação... há séculos que as Escrituras falam de bispos e diáconos, pois assim se lê em algum lugar: "Quero estabelecer os bispos deles na justiça e os seus diáconos na fé".

CAPÍTULO XLIII
1Por que estranhar que os apóstolos, a quem Cristo confiou, da parte de Deus, tal obra, tenham instituído os acima mencionados? Ora, até o bem-aventurado e servo fiel em toda casa, Moisés, assinalou tudo o que lhe fôra ordenado nos santos livros. Seguiram-no os demais profetas, juntando os seus testemunhos às leis por ele instituídas.
2No momento de irromper o ciúme a respeito do sacerdócio e de se disputarem as tribos, isto é, qual delas deveria ostentar esse título glorioso, ordenou ele aos doze chefes de tribo que lhe trouxessem bastões com o nome de cada tribo gravado. Tomando tais bastões, amarrou-os, assinalou-os com os anéis dos chefes e os depositou sobre a mesa de Deus na tenda do testemunho.
3Então fechou a tenda, selando as chaves da mesma forma que os bastões.
4Disse-lhes, então: "Irmãos, a tribo cujo bastão brotar será a escolhida por Deus para exercer o sacerdócio e ministrar seu culto".
5Ao amanhecer, reuniu todo Israel, os seiscentos mil homens, mostrou os selos aos chefes, abriu a tenda do testemunho e retirou os bastões. E ocorreu que o bastão de Aarão não só germinara como também produzira fruto.
8Então, o que lhes parece, irmãos? Acaso Moisés não sabia, previamente, que era isso o que ocorreria? Sem dúvida sabia-o. Mas, para que não irrompesse uma revolta em Israel, agiu dessa maneira, para que fosse glorificado o nome do verdadeiro e único Deus. A Ele, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XLIV
1Também os apóstolos sabiam, por Nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contestações a respeito da dignidade episcopal.
2Por tal motivo e como tivessem pleno conhecimento do porvir, estabeleceram os acima mencionados e deram, além disso, instruções no sentido de que, após a morte deles, outros homens comprovados lhes sucedessem em seu ministério.
3Os que assim foram instituídos por eles ou, mais tarde, por outros eminentes homens com a aprovação de toda a Igreja, servindo de modo irrepreensível ao rebanho de Cristo, com humildade, pacífica e abnegadamente, recebendo o testemunho favorável por longo tempo e da parte de todos, não é justo, em nossa opinão, serem depostos de seus ministérios.
4E não será pequena a nossa falta se depusermos do episcopado aqueles que ofereceram, de maneira santa e irrepreensível, os sacrifícios.
5Bem-aventurados os presbíteros que nos precederam na caminhada e terminaram sua jornada carregados de frutos e perfeição. Não têm a temer que alguém os remova do lugar para eles preparado.
6Vemos que vós afastastes a alguns de boa índole de um ministério que eles honraram de forma digna.

CAPÍTULO XLV
1Irmãos, cheios de zelo, disputai pelas coisas que levam à salvação.
2Vós vos aprofundastes nas verdadeiras Escrituras Sagradas, que nos vêm do Espírito Santo.
3Sabeis que elas não são injustas, nem contêm falsificação. Lá não encontrareis que homens justos foram depostos por homens santos.
4Ao contrário, os justos foram perseguidos por pecadores, foram encarcerados por ímpios, foram apedrejados por trasgressores da lei, foram assassinados por homens cheios de ciúmes abomináveis e criminosos.
5Tais sofrimentos eles suportam com glória.
6O que diríamos então, irmãos? Acaso Daniel foi lançado à cova por homens tementes a Deus?
7E quanto a Ananias, Azarias e Misael: foram eles lançados à fornalha ardente por homens que praticavam o culto excelso e glorioso do Altíssimo? De modo algum! Então, quem praticou tais coisas? Foram indivíduos odiosos, cheios de maldade e que nutriam tal fúria que mandavam à tortura todos aqueles que serviam a Deus com santa e irrepreensível intenção, esquecendo-se que o Altíssimo é defensor e escudo daqueles que servem a seu Santíssimo Nome com consciência pura. A Ele, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
8Os que perseveraram na paciência, receberam glória e honra como herança, foram exaltados e inscritos no livro da memória de Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XLVI
1Irmãos, temos que nos apegar a tais exemplos,
2pois está escrito: "Apegai-vos aos santos porque os que a eles se apegam serão santificados".
3E, de novo, em outra parte, se diz: "Junto ao homem puro serás puro. Junto ao eleito serás eleito. Junto ao perverso serás perverso".
4Apeguemo-nos, pois, aos puros e justos porque são esses os eleitos de Deus.
5Por que entre vós existem disputas, ódios, contendas, cismas e guerras?
6Acaso não temos um só Deus, um só Cristo e um só Espírito da graça derramado sobre nós e uma só vocação em Cristo?
7Por que insistimos em separar e despedaçar os membros de Cristo, nos revoltando contra o próprio corpo, chegando a uma loucura tal que nos esquecemos que somos membros uns dos outros? Lembrai-vos das palavras de Nosso Senhor Jesus,
8porque foi Ele quem disse: "Ai daquele homem! Melhor seria que não tivesse nascido do que escandalizar um dos meus eleitos. Mais lhe valeria amarrar uma pedra em seu pescoço e afundar no mar do que perverter um dos meus eleitos".
9Vosso cisma perverteu a muitos, atirou muitos no desânimo, colocou muitos na dúvida, entristeceu-nos a todos. E vossa revolta se prolonga...

CAPÍTULO XLVII
1Tornai a ler a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo.
2O que vos escreveu primeiro, no início do evangelho?
3Na verdade, estava ele inspirado pelo Espírito quando vos comunicou normas sobre si próprio, sobre Cefas e Apolo, pois já então formáveis partidos.
4Mas o partidarismo daquele tempo importou num pecado muito menor para vós já que vos agrupáveis em torno dos apóstolos e de um homem aprovado por eles.
5Refleti, porém: quem são os que vos pervertem neste momento e como enfraqueceram o renome da vossa caridade tão celebrada por todos.
6Uma vergonha, meus caros, uma vergonha muito grande e indigna de uma conduta em Cristo ouvir-se que a Igreja dos coríntios, tão inabalável e antiga, se rebele contra os presbíteros por causa de uma ou duas pessoas.
7E tal rumor não chegou apenas até nós, mas atingiu também a outros que possuem as mesmas convicções que nós, a ponto de se proferirem blasfêmias ao nome do Senhor por causa da vossa insensatez, por armar perigo para vós próprios.

CAPÍTULO XLVIII
1Arranquemos esse mal o mais rápido possível. Lancemo-nos aos pés do Senhor e peçamos-lhe, entre lágrimas, que se compadeça de nós, reconciliando-se conosco, trazendo-nos de volta a uma prática santa e pura de nossa fraternidade.
2Porque é esta a porta da justiça aberta para a vida, conforme está escrito: "Abri-me as portas da justiça: por elas quero entrar e louvar o Senhor.
3É esta a porta do Senhor: por ela entrarão os justos".
4Entre as muitas portas abertas, a porta da justiça é a porta de Cristo. Bem-aventurados todos aqueles que entram por ela e guiam seus passos na santidade e justiça, cumprindo todas as coisas impertubavelmente.
5Que alguém tenha fé, que seja capaz de expor o conhecimento, que seja sábio em discernir os discursos, que seja santo em suas ações.
6Quanto maior parecer, mais se deve ser humilde, procurando o proveito de todos e não o próprio.

CAPÍTULO XLIX
1Quem possui a caridade em Cristo, cumpra os mandamentos de Cristo.
2Quem poderia descrever o vínculo da caridade de Deus?
3Quem seria capaz de exprimir a magnificência de sua beleza?
4É indescritível a altura a que nos leva o amor.
5O amor nos une a Deus, o amor cobre os pecados, o amor suporta tudo, o amor é grandioso em tudo. Nada há de mesquinho e soberbo na caridade. A caridade não conhece cisma, a caridade não se revolta, a caridade realiza tudo com harmonia, na caridade todos os eleitos de Deus atingiram a perfeição. Sem caridade, não há nada que agrade a Deus.
6Na caridade o Senhor nos acolheu. Pela caridade que teve conosco, Nosso Senhor Jesus Cristo deu Seu sangue por nós, segundo a vontade de Deus; sua carne por nossa carne, sua alma por nossas almas.

CAPÍTULO L
1Amigos, vede como a caridade é grande e admirável e como não há como descrevê-la de forma perfeita.
2Quem seria capaz de chegar até ela a não ser aqueles a quem Deus os torna dignos. Peçamos e supliquemos por Sua misericórdia, para vivermos irrepreensíveis na caridade sem a parcialidade humana.
3Desde Adão, passaram todas as gerações até o dia de hoje. Mas os que foram perfeitos no amor segundo a graça de Deus tomaram posse da terra dos santos e hão de manifestar-se quando o Reino de Cristo estiver à vista.
4Pois está escrito: "Entrai nos aposentos por um instante, até que passe minha ira e meu furor. Então me lembrarei do dia favorável e hei de ressuscitar-vos de vossos túmulos".
5Amigos, somos felizes quando cumprimos os mandamentos de Deus na harmonia da caridade, para que nossos pecados sejam perdoados pela caridade.
6Porque a Escritura diz: "Bem-aventurados aqueles que tiveram perdoadas suas iniqüidades e encobertos seus pecados. Bem-aventurado o homem a quem Deus não imputa pecado e em cuja boca não se encontra a fraude".
7Estas bem-aventuranças dizem respeito aos que foram escolhidos por Deus, através de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem se dê a glória pelos séculos dos séculos. Amém

CAPÍTULO LI
1Peçamos perdão de nossas quedas e faltas ocorridas pela sugestão do inimigo. Mas também devem considerar nossa comum esperança aqueles que se tornaram os líderes dessa revolta e cisão.
2Pois os que vivem no temor e na caridade preferem ver-se a si mesmos atormentados do que os seus irmãos. Preferem ser censurados do que ver censurada a concórdia que nos foi transmitida por tão bela e santa tradição.
3Mais vale ao homem confessar publicamente suas faltas do que endurecer o coração, da mesma forma como endureceu o coração daqueles que se revoltaram contra Moisés, servo de Deus, e que foram castigados mais tarde,
4pois desceram vivos para o inferno, onde a morte os apascentará.
5O faraó, seu exército, todos os chefes do Egito, os carros e os que neles estavam não foram lançados ao Mar Vermelho por outro motivo. Aí pereceram porque endureceram seus corações insensatos, após os sinais e milagres realizados por Moisés, servo de Deus, no Egito.

CAPÍTULO LII
1Irmãos, o Senhor não necessita de absolutamente nada. Não precisa de nada de ninguém, exceto que o confessem.
2Pois assim diz Davi, Seu eleito: "Hei de exaltar o Senhor e isso Lhe agradará mais do que um novilho que possua chifres e patas. Que O vejam os pobres e se rejubilem".
3E novamente: "Oferece a Deus um sacrifício de louvor. Cumpre teus votos ao Altíssimo. 'Invoca-Me no dia da tua tribulação: Eu te livrarei e me renderás glórias'.
4Porque, para Deus, sacrifício é o espírito humilhado."

CAPÍTULO LIII
1Caríssimos, conheceis - e como conheceis bem - as Sagradas Escrituras: vos aprofundastes nos oráculos de Deus. Escrevemos isto para simplesmente vos recordar das coisas.
2Quando Moisés subiu a montanha e aí passou, humildemente, quarenta dias e quarenta noites fazendo jejum, Deus lhe falou: "Desce depressa porque teu povo pecou. Aqueles que conduziste para fora da terra do Egito pecaram e afastaram-se do caminho que prescreveste pois fizeram para si ídolos de metal".
3E o Senhor ainda acrescentou: "'Eu já te disse e volto a repetir: vi este povo e quão dura é sua cabeça. Deixa-me exterminá-lo, apagarei seu nome sob os céus e farei de ti uma nação grandiosa e admirável, muito mais numerosa do que esta'.
4Mas Moisés respondeu-lhe: 'Senhor, não faças isso! Perdoa o pecado deste povo ou tira de mim o livro dos vivos'".
5Ó grande caridade! Ó perfeição insuperável! O servo fala com liberdade com o seu Senhor: exige perdão para o povo ou implora que seja destruído junto com ele.

CAPÍTULO LIV
1Quem, dentre vós, for nobre, compassivo e cheio de caridade,
2diga: "se é por minha causa que há revolta, discórdia e cisma, eu me retiro, parto para onde quiserdes e faço o que for pedido pela comunidade, desde que apenas o rebanho de Cristo viva em paz com os presbíteros constituídos".
3Quem agir dessa maneira obterá grande glória em Cristo e será recebido em toda a parte, "pois do Senhor é a terra e sua plenitude".
4É isso o que fizeram e ainda fazem os que trilham, sem remorsos, o caminho de Deus.

CAPÍTULO LV
1Porém, tomemos também exemplos dentre os gentios: quando surge uma peste, muitos reis e príncipes se entregam à morte por inspiração de algum oráculo, para salvar o sangue de seus cidadãos. Muitos outros se retiram de suas cidades, para que a revolta não se estenda.
2Conhecemos muitos dentre os nossos que se entregaram à prisão para resgatarem outros. Muitos se entregaram à escravidão para sustentar os demais com o dinheiro pago.
3Muitas mulheres, fortalecidas pela graça de Deus, realizaram difíceis tarefas.
4A bem-aventurada Judite, durante o cêrco da cidade, pediu aos presbíteros a permissão para se ausentar do acampamento dos estrangeiros.
5Expondo-se ao perigo, saiu por amor à pátria e ao povo em cêrco. E o Senhor entregou Holofernes na mão de uma mulher.
6Perfeita na fé, Ester expôs a si mesma num perigo não menor, para salvar da proximidade da morte as doze tribos de Israel. Pelo jejum e humilhação, suplicou ao Senhor que tudo vê, o Deus dos séculos. E este, vendo a humildade de sua alma, salvou o povo em favor daquela que se expusera ao perigo.

CAPÍTULO LVI
1Supliquemos também nós pelos que vivem no pecado, para que recebam doçura e humildade, para não cederem a nós, mas à vontade de Deus. Assim se tornará frutífera e perfeita a lembrança misericordiosa que deles tivemos diante de Deus e dos santos.
2Aceitemos a correção fraterna, a qual, amados, ninguém deve julgar mal. A exortação que damos uns aos outros é boa e muito útil, pois nos une à vontade de Deus.
3É isso que testemunha a santa Escritura: "Castigou e tornou a me castigar o Senhor, mas não me entregou à morte.
4A quem o Senhor ama, castiga e açoita como a seu filho."
5O texto continua: "Há de me castigar, como justo em misericórdia, e há de me corrigir. E enquanto isso, que nenhum óleo dos pecadores unja a minha cabeça."
6E novamente diz: "Bem-aventurado o homem que o Senhor corrigiu. Não recuses a repreensão do todo-poderoso, pois Ele faz sofrer e novamente restabelece.
7Bateu e suas mãos curaram.
8Seis vezes arrancar-te-á as dificuldades; na sétima, o mal não te atingirá.
9Na fome, preservar-te-á da morte. Na guerra, [preservar-te-á] do fio da espada.
10Proteger-te-á do açoite da língua, não temerás males vindouros.
11Rirás dos injustos e maus, e não temerás os animais selvagens.
12Até os animais selvagens viverão em paz contigo.
13Verás que tua casa gozará de paz e não faltará comida na tua tenda.
14Verás que tua descendência será grande e os teus filhos como a erva miúda do campo.
15Descerás ao túmulo como o trigo amadurecido, colhido no tempo certo, ou como feixe da eira, recolhido na hora exata"
16Caríssimos, vede quão grande é a proteção para aqueles que aceitam a correção do Senhor, pois Ele nos corrige como bom Pai, para encontrarmos misericórdia por sua santa correção.

CAPÍTULO LVII
1Portanto, vós que originastes a revolta, submetei-vos aos presbíteros e deixai-vos corrigir até vos converterdes, dobrando os joelhos de vossos corações.
2Aprendei a submeter-vos, depondo a arrogante e orgulhosa jactância da vossa língua, pois é muito melhor para vós encontrar-vos no rebanho de Cristo, como pequenos e escolhidos, do que serdes super-estimados, mas excluídos da Sua esperança,
3pois é assim que se exprime a santíssima sabedoria: "Eis que anunciar-vos-ei a palavra do meu Espírito. Dar-vos-ei a conhecer o meu discurso.
4Já que chamei e não escutastes, me estendi e não destes atenção, ao contrário, negligenciastes os meus conselhos e fizestes pouco caso das minhas advertências, por isso também rirei da vossa perda, zombarei na hora em que chegar a tua ruína e quando o tumulto se abater sobre vós, catástrofe repentina como uma tempestade, ou quando vos visitar a tribulação e a angústia.
5Então me invocarás, porém, não vos escutarei. Pecadores me procurarão, mas não me encontrarão, pois detestaram a sabedoria e não estimaram, acima de tudo, o temor do Senhor, não deram atenção aos meus conselhos, zombaram das minhas advertências.
6Por isso, comerão os frutos dos seus erros e saciar-se-ão da sua própria impiedade.
7Serão mortos em troca do mal que provocaram aos humildes e o julgamento aniquilará os ímpios. Porém, aquele que Me escuta, habitará sua tenda e, confiando na esperança, viverá em paz sem temer qualquer mal."

CAPÍTULO LVIII
1Assim, obedeçamos a seu Nome, todo santo e glorioso. Fujamos das ameaças que a sabedoria incute contra os insubmissos, para que possamos fixar nossa tenda confiantes no Nome santíssimo de Sua Majestade.
2Acatai ao nosso conselho e não vos arrependereis, pois Deus é vivo, assim como vivo também são Jesus Cristo e o Espírito Santo, e vivas também são a fé e a esperança dos eleitos no sentido daqueles que praticam os mandamentos e preceitos de Deus com humildade, mansidão perseverante e sem hesitação, para serem relacionados e se enfileirarem no número dos que serão salvos por Jesus Cristo, pelo qual rendemos glória pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO LIX
1Se, porém, alguns não obedecerem ao que foi dito por nós, saibam que se envolverão em pecado e perigo não pequeno.
2Contudo, nós seremos inocentes deste pecado e pediremos em súplica e oração constante para que o Criador de tudo conserve intacto o número dos que foram contados entre Seus escolhidos em todo o mundo, por seu Filho mui amado, Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual nos chamou das trevas para a luz, da ignorância para o conhecimento da glória de seu nome.
3Ele nos ensinou a esperar em Teu Nome, princípio de toda criatura. Tu que nos abriste os olhos do coração para Te conhecermos, ao único Altíssimo nas alturas, Santo que repousa entre os santos:
Tu que rebaixas o orgulho dos soberbos, que desfazes as estratégias das nações, que exaltas os humildes e humilhas os que se exaltam, que distribuis a riqueza e a pobreza, que fazes morrer e levas à vida, que és o único benfeitor dos espíritos e Deus de toda carne, que vigias os abismos e controlas as obras dos homens, que és socorro nos perigos e Salvador no desespero, Criador e Bispo de todo espírito, tu que multiplicas as raças sobre a terra e, dentre todas, escolhes os que te amam, por Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual nos ensinaste, santificaste e glorificaste.
4Mestre, nós te pedimos: torna-te nosso socorro e nosso protetor; salva os oprimidos entre nós; levanta os caídos; mostra-te aos que oram; cura os fracos; leva ao bom caminho aqueles do teu povo que erram; sacia os que têm fome; liberta nossos presos; consola os fracos; conheçam-Te todos os povos, porque Tu és o Deus único, e Jesus Cristo é Teu Filho, e nós o Teu povo e ovelhas do Teu rebanho.

CAPÍTULO LX
1Pois Tu fizeste aparecer a harmonia eterna do universo através das forças que nele operam. Tu, Senhor, criaste a terra habitada. Tu te manténs fiel por todas as gerações, justo nos julgamentos, admirável no poder e na majestade, sábio ao criar e providente ao sustentar a criação, bom nos dons visíveis, benigno para com os que em Ti confiam. Misericordioso e compassivo, perdoas nossas iniqüidades, pecados, faltas e negligências.
2Não leves em conta todo pecado de teus servos e servas, purifica-nos, ao invés, com a purificação da tua verdade. Dirige nossos passos para andarmos na santidade do coração e para realizarmos o que é bom e agradável aos Teus olhos e aos olhos dos que nos governam.
3Sim, Mestre, mostra-nos a tua face para o bem na paz, para nos protegeres com Tua mão forte e nos preservares de todo pecado por teu braço excelso e nos livrares de todos quanto nos odeiam sem motivo
4Concede-nos harmonia e paz, a nós e a todos os habitantes da terra, assim como as concedestes a nossos pais quando Te invocaram santamente na fé e na verdade. Torna-nos submissos a Teu Nome todo-poderoso e todo santo, e aos que nos governam e dirigem sobre a terra.

CAPÍTULO LXI
1Tu, Senhor, lhes deste o poder da autoridade por tua força magnífica e inefável, para que soubéssemos que por Ti lhes foi dada a glória e a honra, e a ele nos submetêssemos em nada contrariando a Tua vontade. Dai-lhes, portanto, Senhor, saúde, paz, concórdia e estabilidade a fim de que possam exercer sem obstáculos a soberania que lhes confiaste.
2Pois Tu, Senhor dos céus, Rei dos séculos, dás aos filhos do homem honra, glória e poder sobre o que existe na terra. Tu, Senhor, dirige sua vontade no sentido do que é bom e agradável a Teus olhos, em Tua presença, a fim de que exerçam a autoridade que lhes deste na paz e mansidão, e obtenham Tua graça!
3Só Tu podes realizar esses bens e outros maiores ainda entre nós. A Ti exaltamos pelo Sumo-Sacerdote e protetor de nossas almas, Jesus Cristo. Por Ele Te seja dada glória e magnificência, agora e de geração em geração, pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO LXII
1Amados irmãos, escrevemo-vos o suficiente a respeito das decisões mais acertadas para nossa religião, como também a respeito da atitude mais favorável para as pessoas que querem levar uma vida santa na piedade e justiça.
2Citamos todos os aspectos que dizem respeito à fé, penitência, verdadeira caridade, continência, prudência e paciência, recordando que vos é necessário agradar santamente ao Deus poderoso em justiça, verdade e generosidade, mantendo a concórdia pelo esquecimento da injúria, no amor e na paz, com constante modéstia, como também nossos pais que, como mencionamos, Lhe agradaram, mantendo-se humildes na conduta para com o Pai, Deus e Criador, e para com todos os homens.
3Tivemos tanto mais gosto em recordá-lo quanto mais sabíamos estar escrevendo a homens de fé e consideração, que se aprofundaram nas máximas do ensinamento de Deus.

CAPÍTULO LXIII
1É certo, assim, nos orientarmos por tais e tão grandes exemplos. Curvemos nossa cabeça e ocupemos o lugar da obediência, para acalmarmos a vã revolta e atingirmos com lisura a meta proposta dentro da verdade.
2Haveis de nos proporcionar alegria e prazer se vos submeterdes ao que escrevemos pelo Espírito Santo, cortando pela raiz a ira nascida do ciúme, conforme o pedido de paz e concórdia que vos fazemos por esta carta.
3Enviamo-vos homens de confiança e prudentes que, desde a juventude até a idade mais avançada, tiveram uma conduta irrepreensível entre nós, e que servirão de testemunhas entre vós e nós.
4Assim fizemos para que saibais que toda a nossa preocupação ia e continua indo no sentido de que se restabeleça imediatamente a paz entre vós.

CAPÍTULO LXIV
1No restante, que Deus, que tudo enxerga, Senhor dos espíritos, Dono de toda carne e que escolheu o Senhor Jesus Cristo e a nós por Ele, conceda a toda alma que tiver invocado o Seu Nome magnífico e santo, fé, temor, paz, paciência, generosidade, continência, pureza e prudência para agradar ao Seu Nome pelo Sumo-Sacerdote e nosso chefe, Jesus Cristo, pelo qual Lhe seja rendida glória, majestade, poder e honra, agora e por todos os séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO LXV
1Aos nossos enviados, Cláudio Efebo e Valério Bito, junto com Fortunato, enviai-os rapidamente de volta na paz e com alegria, para que logo nos tragam notícias sobre a harmonia e paz, pela qual tanto rezamos e suplicamos e assim, mais depressa, nos alegremos da boa ordem entre vós.
2A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco e com todos os eleitos de Deus, através Dele por toda a parte. Por Jesus, seja dada a Deus glória, honra, poder e majestade, o trono eterno, desde todos os séculos e para todos os séculos dos séculos. Amém.

Relatório de Pilatos enviado a Tibério César sobre o novo personagem que surgiu em Jerusalém:
- Excelência: O relatório que lhe farei procede do fato de sentir-me coibido pelo temor e pelo tremor. Pois já sabeis que nesta província que governo, única entre as cidades quanto ao nome de Jerusalém, o povo judeu em massa entregou-me um homem chamado Jesus, acusando-o de muitos crimes que não puderam demonstrar com suficientes razões. Havia entre eles uma facção sua inimiga porque Jesus dizia-lhes que o Sabbath não era dia de descanso nem de festa para ser guardado. Ele, efetivamente, operou muitas curas nesse dia: devolveu a visão a cegos e a faculdade de andar a coxos; ressucitou os mortos; limpou os leprosos; curou os paralíticos, incapazes de ter impulsos corporais ou ereção de nervos, mas somente voz e articulações, dando-lhes forças para andar e correr. E extirpava qualquer enfermidade somente com o
uso de sua palavra.
Outra nova ação mais assombrosa, desconhecida entre nossos deuses: ressucitou um morto de quatro dias somente dirigindo-lhe a palavra; e é de se notar que o morto já tinha o sangue coagulado e estava putrefato por causa dos vermes que saíam de seu corpo e exalava um mal cheiro de cão. Vendo-o, então, imóvel como estava no sepulcro, ordenou que se levantasse e corresse; e ele, como se nao tivesse um mínimo de cadáver, mas fosse como um esposo que sai do quarto nupcial, assim saiu do sepulcro, transbordante de perfune. E a alguns estrangeiros, totalmente endemoniados, que moravam nos desertos e comiam suas próprias carnes, conduzindo-se como bestas e répteis, também a eles tornou-os honrados cidadãos, fê-los prudente com a sua palavra e preparou-os para serem sábios, poderosos e gloriosos e para confraternizarem com todos os que odiavam os espíritos imundos e perniciosos que habitavam neles anteriormente, os quais arremessou nas profundezas do mar.
Além disso, havia outro que tinha a mão seca. Melhor dizendo, não somente a mão, mas toda a metade do seu corpo estava petrificada, de maneira que não tinha nem a figura de um homem nem dilatação de músculos. Também este foi curado com somente uma palavra e ficou sadio.
Havia uma outra mulher com problemas hemorrágicos, cujas articulações e veias estavam esgotadas pelo fluxo de sangue, a tal ponto que já nem sequer se podia dizer que tinha um corpo humano. mais se assemelhava a um cadáver.
Havia ficado até sem voz. Tal era a gravidade de seu estado que nenhum médico do território encontrou uma forma de curá-la ou sequer de lhe dar uma esperança de vida. Certa vez Jesus passava por ali em segrêdo e a mulher, retirando forças da sombra dele, tocou, por detrás, a fímbria de sua túnica.
Imediatamente sentiu uma força que preenchia seus vazios e, como se nunca tivesse estado doente, começou a correr agilmente em direção à sua cidade, Cafarnaum, caminhando de tal forma que quase igualava qualquer pessoa que percorrese de uma só vez seis jornadas.
Isto que acabo de relatar com toda a ponderação, Jesus fez num Sabbath. Além disso, operou outros milagres maiores do que estes, de maneira que chego a pensar que suas façanhas são superiores àquelas que fazem os deuses venerados por nós.
Este, pois, é aquele a quem Herodes, e Arquelao, e Filipo, Anás e Caifás, entregaram-me para que eu o julgasse. E assim, embora sem haver constatado de sua parte nenhum tipo de delito ou má ação, mandei que o crucificassem depois de submetê-lo à flagelação..
E enquanto o crucificavam sobrevieram algumas trevas que cobriam toda a terra, deixando o sol obscurecido em pleno meio-dia e fazendo aparecer as estrelas, as quais não resplandeciam; a luz parou de brilhar, como se tudo estivesse tingido de sangue, e o mundo dos infernos foi absorvido; e, com a queda dos infernos, até mesmo o que era chamado santuário desapareceu da vista dos próprios judeus. Finalmente, pelo eco repetido dos trovões, produziu-se uma fenda na terra.
E quando ainda o pânico se fazia sentir apareceram alguns mortos que haviam ressucitado, como testemunharam os próprios judeus, e disseram ser Abraão, Isaac, Jacó, os doze patriarcas, Moisés e Job, e, como eles diziam, os primeiros dos que haviam falecido tres mil e quinhentos anos antes. E muitíssimos deles, que eu também pude ver que apareceram fisicamente, lamentavam-se por sua vez, por causa dos judeus, pela prevaricação que estavam cometendo, pela sua perdição e pela perdição de sua lei. O medo do terremoto durou desde a sexta até à nona hora da sexta-feira. E, ao chegar a tarde do primeiro dia da semana, ouviu-se um eco vindo do céu, que por sua vez adquirira um resplendor sete vezes mais vivo que todos os dias. Na terceira hora da noite chegou a aparecer o sol, brilhando mais que nunca e embelezando todo o firmamento. E da mesma forma que no inverno os relâmpagos sobrevêm de repente, assim também apareceram, subitamente alguns varões, excelsos pelas suas vestes e pela sua glória, que tinham vozes
semelhantes ao soar de um enorme trovão, dizendo: "Jesus, o que foi crucificado acaba de ressucitar.
Levantai do abismo aqueles que estão presos nas profundezas do inferno". E a fenda da terra era tamanha que parecia não ter fundo, já que deixava ver os próprios fundamentos da terra, entre os gritos daqueles que estavam no céu e passeavam fisicamente no meio dos mortos que acabavam de ressuscitar. aquele que deu vida aos mortos e acorrentou o inferno dizia: "Dai este aviso aos meus discípulos: Ele segue à
vossa frente até a Galiléia. ali poderão vê-lo".
Durante toda aquela noite a luz não deixou de brilhar. E muitos dos judeus pereceram absorvidos pela fenda da terra, de maneira que no dia seguinte grande parte dos que haviam estado contra Jesus já não estavam ali. Outros viram aparições de ressucitados que nenhum de nós havia visto. E em Jerusalém não ficou nem uma só sinagoga dos judeus, pois todos desapareceram naquele terremoto. Assim, estando fora de mim devido àquele pânico e tolido ao extremo por um horrível tremor, fiz para vossa excelência o relatório escrito do que meus olhos viram naqueles momentos. E, além disso, rememorando o que os judeus fizeram contra Jesus, remeto este relatório à vossa divindade, oh Senhor!".
Fonte: Texto enviado pelo colaborador

Salmo 151 + Carta a Jesus + Oração de Manasses
Salmo 151
Este Salmo apócrifo encontra-se na antiga versão grega, bem como, com algumas variações, na versão siríaca. É possível que seu texto seja resultante da combinação de dois salmos apócrifos redigidos em hebraico reencontrados em Qumran. Nesta tradução, as variantes siríaca e de Qumran seguem indicadas em "itálico".
1aSalmo de Davi. Ação de graças de Davi após combater Golias:
1bEu era o menor entre meus irmãos,
o mais novo da casa de meu pai.
Ao conduzir o rebanho de meu pai para o pasto,
encontrei um leão e um urso: matei-os e despedacei-os.
2aPor minhas mãos construí uma flauta,
meus dedos fizeram uma harpa.
2bOs montes nada testemunharam,
as colinas nada proclamaram;
entretanto, as árvores exaltaram as minhas palavras
e o rebanho [exaltou] os meus feitos.
3aQuem anunciará a meu Senhor?
3bQuem proclamará, quem divulgará, quem anunciará os feitos do Senhor de todas as coisas?
Deus viu, escutou e ouviu a tudo.
4Ele enviou seu mensageiro para ungir-me,
enviou Samuel para tornar-me grande.
Ele me tirou do meio do rebanho de meu pai
e ungiu-me com o seu óleo.
5aMeus irmãos eram belos e altos,
mas o Senhor não os preferiu.
5bEle me retirou de trás do rebanho,
ungiu-me com o santo óleo,
fez de mim o condutor de seu Povo,
o rei dos filhos da sua aliança.
6Enfrentei o filisteu, que amaldiçoou-me por seus ídolos.
7Arranquei-lhe a espada, cortei-lhe a cabeça,
e lavei a afronta aos filhos de Israel.
CARTA DO REI ABGARO A JESUS
Abgaro Ukkama [V] foi rei da cidade de Edessa (Síria) entre 4 aC e 7 dC, quando foi destronado por seu irmão Mahanu IV. Diz a lenda, que, por volta do ano 32 dC, sofrendo de terrível lepra, Abgaro teria escrito uma carta a Jesus pedindo para que Ele fosse até Edessa para curá-lo. Segundo alguns relatos, Jesus mandaria, mais tarde, o apóstolo Tadeu para efetivar a cura do rei.O texto, entretando, foi composto por volta do ano IV dC e logo traduzido para outros idiomas: siríaco, grego, armênio, copta, latim, árabe e eslavo.
Abgaro Ukkama a Jesus, o Bom Médico que apareceu na terra de Jerusalem, saudações:
Escutei falar de Ti e de Tuas curas: que Tu não fazes uso de remédios nem raízes; que, por Tua palavra, abriste [os olhos] de um cego, fizeste o aleijado andar, limpaste o leproso, fizeste o surdo ouvir; que por Tua palavra tu [também] expulsaste espíritos daqueles que eram atormentados por demônios imundos; que, outra vez, Tu ressussitaste o morto [trazendo-o] para a vida.
E, conhecendo as maravilhas que Tu fazes, concluí que [das duas uma]: ou Tu desceste do céu, ou mais: Tu és o Filho de Deus e por isso fizeste todas essas coisas. Por esse motivo escrevo para Ti, e rezo para que venhas até mim, que Te adoro, e cure toda a doença que carrego, de acordo com a fé que tenho em Ti.
Também soube que os judeus murmuram contra Ti e Te perseguem; que buscam crucificar-Te e destruir-Te. Eu não possuo mais que uma pequena cidade, mas é bela e grande o suficiente para que nós dois vivamos em paz.
RESPOSTA DE JESUS AO REI ABGARO
Segundo a lenda, a carta escrita por Abgaro teria sido levada a Jesus por seu emissário, Hannan. Os relatos discordam se a resposta de Jesus teria sido passada verbalmente a Hannan ou se Ele próprio teria escrito. Seja como for, a carta resposta pertence à mesma época da redação da Carta de Abgaro, isto é, séc. IV dC. Tal como esta, a pretensa resposta de Jesus foi fartamente difundida, chegando a ser usada como escapulário por "cristãos" supersticiosos.
Feliz és tu que acreditaste em Mim não tendo Me visto, porque está escrito sobre Mim que 'aqueles que me verão não acreditarão em Mim, e aqueles que não me verão acreditarão em Mim'. Quanto ao que escreveste, que eu deveria ir até ti, devo cumprir todas as coisas para as quais fui enviado aqui; quando eu ascender outra vez para o Meu Pai que me enviou, e quando eu tiver ido ter com Ele, Eu te enviarei um dos meus discípulos, que curará todos os teus sofrimentos, e eu te darei saúde outra vez, e converterei todos os que estão contigo para a vida eterna. E tua cidade será abençoada para sempre, e os teus inimigos nunca a dominarão.

ORAÇÃO DE MANASSÉS
Esta oração encontra-se nas Bíblias gregas e eslavas, mas não faz parte do cânon católico, razão porque foi colocada - tardiamente - em separado, em apêndice, na Vulgata latina.
A oração é certamente de origem judaica e imita os salmos penitenciais. O autor, desconhecido, utilizou-se do grego e escreveu a oração provavelmente entre os séculos II ou I aC, possivelmente no Egito. Existem antigas traduções também em siríaco, armênio e árabe.
Tal oração teria sido pronunciada por ocasião da conversão do ímpio Manassés, o mesmo que é enfocado pelo segundo livro das Crônicas. Talvez por isso, a parte introdutória segue de perto 2Cron. 23,11-14.
Alocução
1Ó Senhor onipotente, Deus de nossos pais, de Abraão, Isaac e Jacó, e de toda a sua descendência de justos;
2Tu que criaste os céus e a terra, com tudo o que neles existe;
3que acorrentaste o mar com a tua palavra forte, que confinaste o abismo, selando-o com teu Nome terrível e glorioso;
4pelo qual se abalam todas as coisas, tremendo perante teu poder;
5ninguém pode sustentar o esplendor da tua glória, e a tua ira contra os pecadores é insuportável,
6embora sem medidas e sem limites é a tua misericórdia prometida;
7Tu és o Senhor das Alturas, de imensa compaixão, grande tolerância e gigantesca misericórdia; demonstras piedade com o sofrimento humano! Ó Senhor, conforme tua imensa bondade, prometeste penitência e perdão àqueles que pecaram contra Ti, e na clemência sem conta apontaste a penitência aos pecadores para que pudessem ser salvos.
Confissão dos Pecados
8Assim, Senhor, Deus dos justos, não apontaste penitência para os justos, para Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra Ti, mas apontaste penitência para mim, que sou pecador.
9Os pecados que cometi são superiores aos grãos de areia do mar; minhas transgressões são múltiplas, ó Senhor: elas se multiplicaram! Não sou digno de levantar os olhos para os céus em razão da multidão de minhas iniqüidades.
10Estou sobrecarregado com pesadas correntes de ferro; fui rejeitado em razão dos meus pecados, e não recebo consolo por ter provocado a tua ira e ter feito aquilo que é mau perante os teus olhos, realizando coisas abomináveis e multiplicando as ofensas.
Pedido de Perdão
11Agora eu dobro os joelhos do meu coração e imploro a tua amizade.
12Eu pequei, Senhor! Eu pequei, e reconheço as minhas transgressões.
13aArdentemente eu te imploro: perdoe-me, Senhor! Perdoe-me! Não destrua-me com as minhas transgressões! Não te zangues comigo para sempre, nem guardes o mal para mim! Não me condenes às profundezas da terra!
Agradecimento
13bTu és, Senhor, o Deus daqueles que se arrependem,
14e em mim manifestarás a tua bondade; pois, miserável como sou, tu me salvarás por tua grande misericórdia,
15e eu irei orar a Ti incessantemente por todos os dias da minha vida. Pois toda a milícia celeste proclamam a tua honra e tua é a glória para sempre. Amém.

Sentença de Pôncio Pilatos a Jesus
Esse documento foi achado na cidade de Áquila, em Nápoles. Estava dentro de uma belíssima pedra, a qual continha continha duas caixinhas, uma de ferro e por dentro desta uma outra de finíssmo marfim, onde estava o valiosíssimo documento escrito em letras hebraicas em um pergaminho. Ei - lo na íntegra:
No ano XVIII(Sic)de Tibério César, imperador romado e de todo o mundo, Monarqua invencível na Olimpíada c.xxi, na Clíade xxiv e na Criação do Mundo, segundo os números e cálculos dos Hebreus, quatro vezes m.c.1xxxvii, e da propagação do Império Romano L.xxiii, da libertação da escravidão da Babilônia m.cc.xi, sendo Cônsules do Povo Romano Lúcio Pisano e Maurício
Pisarico; Procônsules Lúcio Balesna, público Governador da Judéia, e Quinto Flávio, sob o regimento e Governo de Jerusalém, Governador Gratíssimo Pôncio Pilatos, regente da baixa Galiléia, e Herodes Antipas, Pontífices do Sumo Sacerdote Anás, Caifás, Alit Almael o Magr. do templo, Roboan Ancabel, Franchino Centurião, e Cônsules Romanos e da Cidade de Jerusalém Quinto
Cornélio Sublima e Sexto Pontílio Rufo; no dia XXV do mês de Março. "Eu, Pôncio Pilatos, aqui Presidente Romano dentro do Palácio da Arquipresidência, julgo, condeno e sentencio à morte a Jesus chamado pela plebe Cristo Nazareno, e de pátria Galiléia, homem sedicioso da Lei Mosaica, contrário ao grande Imperador Tibério César; e determino, e pronuncio, pela presente, que
sua morte seja na Cruz, e pregado com cravos como se usa com os réus, porque aqui congregando e juntando muitos homens ricos e pobres não parou de causar tumultos por toda a Judéia, fazendo - se filho de Deus e Rei de Jerusalém, ameaçando trazer a ruína para esta Cidade , e para seu Sagrado Templo, negando o tributo a César, e tendo ainda tido o atrevimento de entrar com
palmas, em triúnfo, e com parte da plebe, na Cidade de Jerusalém e no Sagrado templo. E ordeno que meu primeiro Centurião Quinto Cornélio leve publicamente Jesus Cristo pela Cidade, amarrado e açoitado, e que seja vestido de púrpura e coroado com alguns espinhos, com a própria Cruz nos ombros para que seja exemplo a todos os malfeitores; e com ele que sejam levados dois ladrões homicidas, e sairão pela Porta Sagrada, agora Antoniana, e que leve Jesus ao monte público da Justiça chamado Calvário, onde cruficifado e morto fique o corpo na Cruz, como espetáculo para todos os malvados; e que sobre a Cruz seja colocado o título em três idiomas, e em todos três (Hebraico, Grego e Latim) diga: IESUS NAZAR. REX IUDAEORUM. "Da mesma maneira, ordenamos que ninguém de qualquer estado ou qualificação atreva-se temerariamente a impedir tal Justiça por mim ordenada,
administrada e executada com todo o rigor segundo os decretos e Leis Romanas e Hebréias, sob pena de rebelião ao Imperador Romano. Testemunhos da Sentença: pelas 12 tribos de Israel, Rabain Daniel, Rabain seg.12, Joanin Bonicar, Barbasu, Sabi Potuculam. Pelos Fariseus, Búlio, Simeão, Ronol, Rabani, Mondagul, Boncurfosu. Pelo Sumo Sacerdócio, Rabban, Nidos, Boncasado, Notarios desta publicação; pelos Hebreus, Nitanbarta; pelo julgamento, e pelo Presidente de Roma Lúcio Sextilio, Amásio Chlio."

Apócrifos q Garimpei na net Part.4


O Evangelho Segundo Felipe
Apresentamos, numa versão modernizada, textos considerados apócrifos e que trazem importantes informações a respeito da vida de Cristo, preenchendo lacunas até então criadas pelos Evangelhos constantes da Bíblia.
O Evangelho de Feilipe provavelmente foi escrito originalmente em grego, ainda que não seja possível precisar se no primeiro, segundo ou terceiro século. O exemplar encontrado entre os textos da biblioteca de Nag Hammadi é uma tradução para o copto, a língua do alto Egito no início de nossa era, provavelmente efetuada no quarto século.
Ao contrário dos evangelhos canônicos, o Evangelho de Felipe não contém uma narrativa sistemática da vida e ministério de Jesus em ordem cronológica. Ele segue a linha da tradição oral de relatar, independente do contexto histórico, ensinamentos atribuídos a Jesus e interpretações de aforismos e práticas espirituais, presente em outros textos apócrifos, como o Evangelho de Tomé e o assim chamado Evangelho "Q" (inicial de Quelle, alemão para 'Fonte', que é tido como a fonte das logia do Senhor apresentadas nos evangelhos segundo Mateus e Lucas).
Dentre os ditados de Jesus em Felipe, nove são encontrados também, com algumas variações, nos evangelhos canônicos e oito são originais. A linguagem destes ditados é geralmente breve e enigmática. Sua interpretação requer o conhecimento da simbologia usada pelos grupos gnósticos daquela época.
O que torna o Evangelho de Felipe especialmente importante são as inúmeras passagens sobre os sacramentos que teriam sido instituídos por Jesus em sua forma original, antes de terem sido adaptados e ampliados pela Igreja para uso geral dos fiéis. Segundo a tradição esotérica, aqueles sacramentos eram ministrados somente aos discípulos do círculo interno, "os poucos", em circunstâncias que lembram os rituais dos Mistérios Maiores da antigüidade. Assim, as referências aos cinco sacramentos: o batismo, a crisma, a eucaristia, a redenção e a câmara nupcial, são feitas numa linguagem ainda mais velada do que a utilizada em outras partes do texto. Apesar do caráter oculto dessas passagens, elas oferecem ao estudioso uma clara indicação dos paralelos que existem entre as cinco grande Iniciações, as etapas da vida dos místicos e os sacramentos.
(pg 141) Um hebreu faz outro hebreu, e tal pessoa chama-se prosélito. Mas, um prosélito não faz outro prosélito ( ... ) assim como eles ( ... ) e fazem outros como a si mesmos, enquanto (outros) simplesmente existem.
O escravo só quer ser livre e não ambiciona adquirir os bens de seu senhor. Porém o filho não é somente um filho, pois reclama a herança do pai. Os que herdam dos mortos estão eles mesmos mortos e herdam os mortos. Os herdeiros do que é vivo estão vivos e são herdeiros tanto do que está vivo como do morto. Os mortos não são herdeiros de nada. Pois como pode aquele que está morto herdar? Se aquele que está morto herda o que é vivo ele não morrerá, mas o que está morto viverá ainda mais.
(pg 142) O pagão não morre, pois ele nunca viveu para que possa morrer. Aquele que acreditou na verdade encontrou a vida e corre o perigo de morrer, pois está vivo. A partir da vinda de Cristo, o mundo foi criado, as cidades embelezadas e os mortos levados embora. Quando éramos hebreus, éramos órfãos e só tinhamos a nossa mãe, mas, quando nos tornamos cristãos, tivemos tanto pai como mãe.
Os que semeiam no inverno colhem no verão. O inverno é o mundo, o verão é o outro reino eterno (eon). Semeemos no mundo para que possamos colher no verão. Por esta razão é apropriado que não oremos no inverno. O verão sucede o inverno. Porém, se algum homem colher no inverno ele, na verdade, não estará colhendo mas simplesmente arrancando, pois o inverno não oferecerá uma colheita para tal pessoa. Não só ( ... ) que não ( ... ) aparecerá, mas também no Sábado ( ... ) é estéril.
Cristo veio para resgatar alguns, salvar outros para redimir ainda outros. Ele resgatou os forasteiros e fê-los seus. E colocou os seus separados, aqueles que havia dado como garantia segundo seu plano. Não foi só quando apareceu que Cristo ofereceu voluntariamente sua vida, mas ofereceu-a voluntariamente desde o dia em que o mundo surgiu. Então, ele veio primeiro para tomá-la, pois ela havia sido dada como garantia. Ela havia caído em mãos de ladrões e foi feita prisioneira. Mas Ele a libertou, resgatando as pessoas boas do mundo assim como as más.
Luz e treva, vida e morte, direita e esquerda são irmãos entre si. São inseparáveis. Por isto, nem os bons são bons, nem os maus são maus, nem a vida é vida, mem a morte é morte. Assim é que cada um se dissolverá em sua origem primordial. Mas os que estão exaltados acima do mundo são indissolúveis, eternos.
Os nomes dados às coisas do mundo são muito enganadores, pois desviam nossos pensamentos do que é correto para o incorreto. Assim, quem ouve a palavra "Deus" não percebe o que é correto, mas sim o incorreto. O mesmo ocorre com "Pai", "Filho" e "Espírito Santo", "Vida", "Luz", "Ressurreição", "Igreja" e tudo o mais. As pessoas não percebem o que é correto mas sim o incorreto, (a menos) que tenham aprendido o que é correto. Os (nomes que se ouvem) estão no mundo ( ... enganam. Se) estivessem no reino eterno (eon), não seriam jamais usados como nomes no mundo. Tampouco foram colocados entre as coisas do mundo. Eles têm um propósito no reino eterno.
Só há um nome que não se pronuncia no mundo, o nome que o Pai deu ao Filho, (pg 143) e que está acima de todas as coisas: o nome do Pai. Pois o Filho não se tornaria Pai, a não ser que usasse o nome do Pai. Aqueles que têm este nome conhecem-no, mas não o pronunciam. Mas, aqueles que não têm este nome não o conhecem.
A verdade fez com que os nomes surgissem no mundo por nossa causa, pois não é possível aprendê-la sem estes nomes. A verdade é uma única coisa; é muitas coisas por nossa causa, para nos ensinar com amor sobre esta coisa una por meio de muitas coisas. Os regentes (arcontes) queriam enganar o homem, porque viram que ele tinha parentesco com aqueles que são verdadeiramente bons. Eles tomaram o nome daqueles que são bons e deram-no aos que não são bons, para que, por meio dos nomes, pudessem enganá-los e vinculá-lo aos que não são bons. E, depois, que favor os nomes lhes prestam! Fazem com que sejam tirados daqueles que não são bons e colocados entre os que são bons. Eles sabiam estas coisas, porque queriam apoderar-se do homem livre e torná-lo seu escravo para sempre.
Há poderes que ( ... ) o homem, não querendo que ele seja (salvo), para que eles possam ( ... ). Porque se o homem for (salvo, não haverá) nenhum sacrifício ( ... ) e não serão oferecidos animais aos poderes. Na verdade, eram aos animais que eles ofereciam sacrifícios. Eles eram realmente oferecidos vivos, mas quando os ofertavam eles morriam. Quanto ao homem, ofereceram-no morto a Deus, e ele viveu.
Antes da vinda do Cristo não havia pão no mundo. Também no Paraiso, o lugar onde estava Adão, havia muitas árvores para alimentar os animais, mas não havia trigo para sustentar o homem. O homem costumava alimentar-se como os animais, mas quando veio Cristo, o homem perfeito, ele trouxe pão dos céus para que o homem pudesse ser nutrido com o alimento de homem. Os regentes pensavam que era por seu próprio poder e vontade que faziam o que estavam fazendo. Mas o Espírito Santo, em segredo, estava realizando tudo através deles, segundo sua vontade. A Verdade, que existia desde o princípio, está semeada por toda parte. E muitos vêem-na sendo semeada, mas são poucos os que a vêem sendo colhida.
Alguns dizem que Maria concebeu por obra do Espírito Santo. Mas eles estão enganados. Não sabem o que dizem. Quando uma mulher alguma vez concebeu por obra de outra mulher? Maria é a virgem que nenhum poder conspurcou. Ela é uma grande anátema para os hebreus, que são os apóstolos e (os) seus seguidores. Esta virgem que nenhum poder violou ( ... ) os poderes violaram a si mesmos. O Senhor não (teria) dito "Meu (Pai que está nos) céus" (Mt 16:17) se não tivesse outro pai. Neste caso, teria dito simplesmente "(Meu Pai)".
(pg 144) O Senhor disse aos discípulos, ( ... ) de cada casa. Tragam para a casa do Pai. Mas não tomem nem carreguem (nada) da casa do Pai.
"Jesus" é um nome oculto, "Cristo" é um nome revelado. Por esta razão, "Jesus" não está particularmente ligado a nenhuma lingua; seu nome é sempre "Jesus". "Cristo", porém, em siríaco é "Messias" e em grego, "Cristo". Certamente todas as outras línguas referem-se a ele com suas próprias palavras. "O nazareno" é aquele que revela o que está oculto. Cristo tem tudo em si mesmo, seja homem, anjo ou mistério, e no Pai.
Os que dizem que o Senhor morreu primeiro e (então) se levantou estão enganados, pois ele primeiro se levantou e (então) morreu. Se alguém não alcança primeiro a ressurreição ele não morrerá. Assim como Deus vive, ele iria ...
Ninguém esconde um grande objeto de valor num lugar de destaque, mas muitas vezes se atiram milhares de tais objetos em algo que não vale um centavo. Vejam a alma: ela é uma coisa preciosa que se encontra num corpo desprezível.
Há os que têm medo de ressurgir nus. Por isto querem ressurgir na carne. Não sabem que são aqueles que vestem a (carne) que estão nus. (São) aqueles que ( ... ) despir-se que não estão nus. "Nem a carne (nem o sangue) herdarão o Reino de (Deus)." (1 Co 15:50). O que é que não herdará? Aquilo que usamos. Mas também o que é isto que herdará? É aquilo que pertence a Jesus e a seu sangue. Por isto Ele disse: "Aquele que não come a minha carne e bebe o meu sangue não tem vida em si" (Jo 6:53). O que quer dizer isto? Sua carne é a Palavra (o Verbo), e seu sangue é o Espírito Santo. Quem recebe tais coisas tem alimento, bebida e vestimenta. Recrimino os outros que dizem que (a carne) não ressuscitará, pois uns e outros estão errados. Tu dizes que a carne não ressurgirá. Dize-me, então, o que ressuscitará para que possamos te aplaudir. Falas do Espírito na carne, que é também esta luz na carne. (Porém) isto também é matéria que se encontra na carne, pois tudo o que disseres, não estará fora da carne. É preciso ressurgir nesta carne, já que tudo existe nela. Neste mundo, aqueles que usam roupas valem mais do que as vestes. No Reino dos Céus, as vestes valem mais do que os que as usam.
É por meio da água e do fogo que tudo é purificado -- o visível pelo visível, o oculto pelo oculto. Existem algumas coisas ocultas por meio das visíveis. Existe água na água e fogo na crisma.
(pg 145) Jesus pegou-os todos de surpresa, porque Ele não apareceu como era, mas da maneira como (seriam) capazes de vê-lo. Apareceu aos grandes como grande, aos pequenos como pequeno, aos anjos como anjo, e aos homens como homem. Por isto sua palavra ocultou-se de todos. Alguns realmente o viram, pensando que estavam vendo a si mesmos. Mas quando apareceu gloriosamente aos discípulos sobre a montanha não era pequenino. Ele se tornou grande, mas fez com que os discípulos ficassem grandes, para que pudessem percebê-lo em sua grandeza.
Disse naquele dia na ação de graças, "Vós que unistes a luz perfeita com o Espírito Santo, incorporai os anjos também a nós, como sendo as imagens". Não desprezeis o cordeiro, pois sem ele não é possível ver o Rei. Ninguém será capaz de ir ao Rei se estiver nu.
O homem celestial tem muito mais filhos do que o homem terreno. Se os filhos de Adão são muitos, apesar de morrerem, quanto mais os filhos do homem perfeito que não morrem e são continuamente gerados. O pai faz um filho, mas o filho não tem poder para fazer um filho. Pois aquele que foi gerado não tem o poder para gerar; o filho obtém irmãos para si, e não filhos. Todos os que são gerados no mundo, são gerados de maneira natural, enquanto os outros (são nutridos) do (lugar) do qual nasceram. Por ter sido destinado ao lugar celestial o homem (recebe) nutrição. ( ... ) dele da boca. (E se) a palavra tivesse saído daquele lugar, ela receberia a nutrição da boca e se tornaria perfeita. Por isto a palavra perfeita concebe e dá nascimento por meio de um beijo. Por esta razão nós também nos beijamos uns aos outros. Somos concebidos da graça que nos é comum.
Havia três que sempre caminhavam com o Senhor: sua mãe, Mria, sua irmã e Madalena, que era chamada sua companheira. Sua irmã, sua mãe e sua companheira todas chamavam-se Maria.
"O Pai" e "o Filho" são nomes simples; "Espírito Santo" é um nome composto. Eles estão em toda parte: acima e abaixo, no oculto e no revelado. O Espírito Santo está no revelado: está abaixo, e está no oculto: está acima.
Os santos são servidos por poderes malignos, pois estes ficam cegos, por obra do Espírito Santo, pensando que estão servindo um homem (comum), todas vezes que o fazem aos santos. Por isto um discípulo pediu um dia algo deste mundo ao Senhor. Ele lhe respondeu: "Pede a tua mãe, e ela te dará as coisas que pertencem a outrem".
(pg 146) Os apóstolos disseram aos discípulos: "Que toda nossa oferenda adquira sal". Eles chamavam (Sophia) de "sal". Sem sal nenhuma oferenda (é) aceitável. Mas Sophia é estéril, (sem) filhos. Por esta razão é chamada de "um traço de sal". Sempre que eles quiserem ( ... ) do seu jeito, o Espírito Santo ( ... ) seus filhos são muitos.
O que o Pai possui pertence ao filho. Enquanto este é pequeno, não se lhe confia o que é seu. Mas quando se faz homem, seu pai lhe dá tudo o que possui.
Aqueles que se desencaminharam, os que o próprio Espírito engendrou, geralmente se desencaminham também por causa do Espírito. Assim, com o mesmo sopro o fogo é atiçado e apagado.
Echamoth é uma coisa e Echmoth outra. Echamoth é simplesmente Sabedoria, enquanto Echmoth é a Sabedoria da morte, aquela que conhece a morte, sendo chamada "a pequena Sabedoria".
Existem animais domésticos, como o boi, o burro e outros deste tipo. Outros são selvagens e vivem isolados nas regiões ermas. O homem ara o campo com animais domésticos e, com isto, sustenta-se e alimenta os animais, sejam mansos ou selvagens. Compare com o homem perfeito. Ele cultiva por meio de poderes que lhe são submissos, preparando o surgimento de todas as coisas. É por causa disto que todo o mundo se mantém, seja bom ou mal, da direita ou da esquerda. O Espírito Santo apacenta a todos e governa (todos) os poderes, os "mansos" e os "selvagens", bem como os que são únicos. Pois, na verdade ele ( ... ) os mantêm presos, para que (se ... ) desejarem, eles não possam (escapar).
(Aquele que) foi criado é (lindo, mas) tu (não) acharias que os filhos dele são criações nobres. Se ele não fosse criado mas engendrado, tua acharias que os descendentes dele são nobres. Agora, porém, ele foi criado e gerou. O que há de nobre nisto? Primeiramente surgiu o adultério, em seguida assassinatos. E ele foi gerado no adultério, pois era o filho da serpente. Assim, tornou-se um assassino, como seu pai, e matou seu irmão. Na verdade, todo ato sexual que ocorra entre seres que não são semelhantes entre si é adultério.
Deus é um tintureiro. Assim como os bons corantes chamados de "autênticos" dissolvem-se nas coisas que são tingidas por eles, também o mesmo ocorre com aqueles a quem Deus tingiu. Como seus corantes são imortais, eles tornam-se imortais por meio de suas cores. Pois bem, Deus mergulha o que Ele mergulha na água.
Ninguém pode ver algo das coisas que realmente existem a menos que se torne como elas. Não é assim que se passa com o homem no mundo: ele vê o sol sem ser o sol; vê o céu, a terra e todas as outras coisas, mas ele não é estas coisas. Isto está de acordo (pg 147) com a verdade. Mas, tu viste algo daquele lugar e te converteste naquelas coisas. Viste o Espírito e te tornaste Espírito. Viste o Cristo e te tornaste Cristo. Viste o Pai e te tornarás o Pai. Assim, (neste lugar) vês todas as coisas e não (vês) a ti próprio, mas (naquele lugar) realmente vês a ti mesmo, e te tornarás o que vires.
A fé recebe, o amor dá. (Ninguém poderá receber) se não tiver fé. Ninguém será capaz de dar sem amor. Por esta razão, para que realmente possamos receber, cremos, e para que possamos amar, damos, pois se alguém dá sem amor não recebe benefício pelo que deu. Aquele que recebeu alguma outra coisa que não seja o Senhor ainda é um hebreu.
Os apóstolos que nos precederam chamavam-no assim: "Jesus, o Nazareno, Messias", isto é, "Jesus, o Nazareno, o Cristo". O último nome é "Cristo", o primeiro é "Jesus", o do meio é "o Nazareno". "Messias" tem dois significados, "o Cristo" e "o medido". "Jesus" em hebraico é "a redenção". "Nazara" é "a verdade". "O Nazareno", então, é "a verdade". "Cristo" ... foi medido. Foram "o Nazareno" e "Jesus" que foram medidos.
Quando a pérola é atirada na lama ela (não) passa a ser desprezada; tampouco se for banhada em óleo de bálsamo se tornará mais preciosa. Ela sempre manterá o seu valor aos olhos de seu dono. O mesmo ocorre com os filhos de Deus onde quer que estejam. Eles sempre têm valor aos olhos de seu pai.
Se disseres, "sou judeu", ninguém se inquietará; se disseres, "sou romano", ninguém se perturbará. Se disseres, "sou grego, bárbaro, escravo ou livre", ninguém se incomodará. Se disseres, "sou cristão", os ( ... ) tremerão. Quisera que eu pudesse ( ... ) desta forma, a pessoa cujo nome ( ... ) não será capaz de resistir (ouvindo).
Deus é antropófago. Por isto os homens são sacrificados a ele. Antes dos homens serem sacrificados, sacrificavam-se animais, pois aqueles a quem eram sacrificados não eram deuses.
Tanto as vasilhas de vidro como as de argila são feitas com o uso do fogo. Mas, se as de vidro quebram, elas são refeitas, pois surgiram por meio de um sopro. As de argila, no entanto, são destruídas, pois foram feitas sem sopro.
Um burro, girando uma pedra de moinho, caminhou cem milhas. Quando ele foi solto percebeu que ainda estava no mesmo lugar. Existem homens que fazem muitas (pg 148) jornadas, mas sem fazer nenhum progresso em qualquer direção. Quando o crepúsculo os surpreende, não encontraram nenhuma cidade nem vilarejo, nenhum produto humano nem fenômeno natural, poder nem anjo. Labutaram em vão, os coitados!
A eucaristia é Jesus, pois ele se chama "Pharisatha" em siríaco, que é "aquele que está estendido", pois Jesus veio para crucificar o mundo.
O Senhor entrou na loja de corantes de Levi, tomou setenta e duas cores diferentes e jogou-as na tina. Ao retirá-las estavam todas brancas. E ele disse: "Da mesma forma, o filho do homem veio (como) tintureiro".
A Sophia, que é chamada de "a estéril," é a mão (dos) anjos. E a companheira do ( ... ) Maria Madalena. ( ... amava-a) mais do que (todos) os discípulos (e costumava) beijá-la (frequentemente) em seus ( ... ). Os demais (discípulos ... ). Eles lhe disseram: "Por que a amas mais do que a todos nós?" O Salvador respondeu dizendo: "Por que não os amo como a ela? Quando um cego e uma pessoa normal estão juntos na escuridão, não são diferentes um do outro. Quando chega a luz, então, aquele que vê verá a luz, e o cego permanecerá na escuridão".
O Senhor disse: "Bem aventurado aquele que é antes de chegar a existir. Pois, aquele que é foi e será."
A superioridade do homem não é óbvia à visão, mas encontra-se no que está escondido da vista. Por isto ele domina os animais que são mais fortes do que ele, grandes em termos do óbvio e do oculto. Isto os capacitam a sobreviver. Mas quando o homem se separa deles, mordem e matam uns aos outros. Devoram-se porque não encontram nenhum alimento. Porém, agora encontraram comida porque o homem preparou o solo.
Se alguém entra nágua e sai dela sem nada haver recebido e diz, "sou cristão," simplesmente tomou o nome emprestado a juros. Porém, se recebeu o Espírito Santo, recebe o nome de presente. Aquele que recebe um presente não precisa devolvê-lo. Mas, daquele que tomou empretado a juros, o pagamento é exigido. É assim que (acontece com) quem experimenta um mistério.
Grande é o mistério do casamento! Pois (sem) ele o mundo (não existiria). Agora a existência do (mundo ... ), e a existência ( ... casamento). Pense sobre o ( ... relacionamento), pois ele possui ( ... ) poder. Sua imagem consiste numa (corrupção).
As formas dos espíritos malévolos abrangem machos e fêmeas. Os machos são os que se unem com as almas que habitam uma forma feminina, enquanto as fêmeas são as (pg 149) que se misturam com os que se encontram em forma masculina, porém que são desobedientes. E não se consegue escapar deles, pois detêm a pessoa se ela não receber um poder masculino ou feminino, o noivo e a noiva. Eles são recebidos na câmara nupcial espelhada. Quando as mulheres devassas vêem um homem sozinho, lançam-se sobre ele, entretendo-o e maculando-o. Igualmente, os homens voluptuosos, quando vêm uma mulher bonita sozinha, procuram persuadi-la e possuí-la, desejando corrompê-la. Porém, se vêem um homem com sua esposa juntos, a fêmea não pode se aproximar do homem, nem o macho da mulher. Assim, se a imagem e o anjo estão unidos um ao outro, não pode haver nenhum risco ao homem ou à mulher.
Aquele que sai do mundo e portanto não pode mais ser detido pelo fato de ter estado no mundo, evidentemente, está acima do desejo do ( ... ) e medo. Ele domina ( ... ). É superior à inveja. Se ( ... ) vem, eles o apanham e sufocam-no. E como (este) será capaz de escapar dos (grandes ... ) poderes? Como será capaz de ( ... ). Alguns (dizem), "Temos fé", para que ( ... os espíritos imundos) e os demônios. Pois, se tivessem o Espírito Santo, nenhum espírito imundo teria se agarrado a eles. Não tenha medo da carne nem a ame. Se a temeres, ela te dominará. Se a amares, ela te devorará e paralizará.
Ou se está neste mundo, na ressurreição ou no local intermediário. Deus me livre de encontrar-me lá! Neste mundo existe o bem e o mal. As coisas boas do mundo não são boas, e as coisas más não são más. Porém, depois deste mundo, existe mal que realmente é mal - o que é chamado de "o meio," o lugar intermediário. É a morte. Enquanto se está neste mundo é apropriado buscar-se a ressurreição, para que, quando venhamos a despir-nos da carne possamos encontrar o descanso e não caminhar no meio. Porque muitos se perdem no caminho. É melhor sair do mundo antes de pecar.
Alguns nem querem nem podem; outros não tiram proveito mesmo querendo: pois eles não agiram de acordo, (eles acreditam,) ( ... ) torna-os pecadores. E se não querem, a justiça vai se esquivar deles em ambos os casos: e será sempre uma questão da vontade e não da ação.
Um apostólico, numa visão, percebeu algumas pessoas fechadas numa casa em fogo, presos com ( ... ) flamejantes, deitados ( ... ) em chamas ( ... ) eles em ( ... ) fé ( ... ). E eles disseram, "( ... ) poderão ser salvos?" ( ... ) "Eles não desejam isto. Receberam ( ... ) castigo, que é chamado "a escuridão ( ... ), porque ( ... )"
(pg 150) A alma e o espírito vieram à existência a partir da água e do fogo. É da água, do fogo e da luz que o filho da câmara nupcial (veio a existir). O fogo é a crisma, a luz é o fogo. Não estou me referindo ao fogo que não tem forma, mas ao outro fogo cuja forma é branca, que é brilhante e belo e que irradia beleza.
A verdade não veio nua ao mundo, mas veio em modelos e imagens. O mundo não receberá a verdade de qualquer outra forma. Há um renascimento e uma imagem do renascimento. Certamente é necessário nascer outra vez por meio da imagem. Qual delas? A ressurreição. A imagem deve levantar-se outra vez por meio da imagem. A câmara nupcial e a imagem devem entrar na verdade através da imagem: isto é a restauração. Não só aqueles que produzem o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo devem fazê-lo, mas (aqueles) que os produziram para ti. Se a pessoa não os adquire, o nome (cirstão) também lhe será retirado. Porém a pessoa recebe a unção do ( ... ) do poder da cruz. Este poder os apóstolos chamaram "a direita e a esquerda". Pois esta pessoa não é mais um cristão, mas Cristo.
O Senhor fez tudo num mistério, um batismo, uma crisma, uma eucaristia, uma redenção e uma câmara nupcial.
( ... ) ele disse, "Vim fazer (as coisas abaixo) como as coisas (acima, e as coisas) fora como aquelas (dentro. Vim para uni-las) no lugar". ( ... ) aqui por meio de (modelos ... ). Aqueles que dizem, "(Existe um homem celestial e) existe outro acima (dele", estão enganados. Porque é o primeiro destes dois (homens) celestiais, aquele que se manifesta, que é chamado "aquele que está abaixo"; e aquele a quem pertence o oculto é (supostamente) o que está acima dele. Portanto, seria melhor dizerem, "O interior e o exterior, e o que está fora de exterior". Por causa disto o Senhor chamou a destruição "a escuridão exterior"; não existe nada além dela. Ele disse: "Meu Pai que está em segredo". Ele disse, "Entra em teu aposento, fecha a porta e ora a teu Pai que está em segredo" (Mt 6:6), aquele que está no interior de tudo. Mas o que está no interior de tudo é a plenitude. Mais interior do que ela não existe nada. É sobre isto que dizem, "O que está acima deles".
Antes do Cristo alguns saíram de um lugar no qual não conseguiam mais entrar e foram para onde não mais conseguiam sair. Então veio o Cristo. Ele retirou aqueles que entraram e pôs para dentro os que sairam.
Quando Eva ainda estava em Adão a morte não existia. Quando ela se separou dele a morte passou a existir. Se ele entrar outra vez e alcançar o seu ser primordial, a morte deixará de existir.
(pg 151) "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste, ó Senhor?" (Mc 15:34 e outras). Foi na cruz que ele disse estas palavras, porque havia deixado aquele lugar.
( ... ) que foi gerado através dele que ( ... ) de Deus.
O ( ... ) dos mortos. ( ... ) para ser, mas agora ( ... ) perfeito. ( ... ) carne, mas isto ( ... ) é a verdadeira carne. ( ... ) não é verdade, mas ( ... ) só uma imagem do verdadeiro.
Uma câmara nupcial não é para os animais, nem para os escravos, nem para as mulheres violadas; mas é para os homens livres e virgens.
Somos realmente engendrados outra vez pelo Espírito Santo, mas somos engendrados pelo Cristo nos dois. Somos ungidos por meio do Espírito. Quando somos engendrados somos unidos. Ninguém pode ver-se na água ou num espelho sem luz. Tampouco podes ver-te na luz sem água ou espelho. Por esta razão, é apropriado batizar nos dois, na luz e na água. Pois bem, a luz é a crisma.
Havia três lugares específicos para sacrifício em Jerusalém. O que estava voltado para o poente era chamado de "o sagrado." Outro, voltado para o sul, era chamado de "o santo do santo." O terceiro, voltado para o nascente, era chamado "o santo dos santos," o lugar onde só o Sumo Sacerdote podia entrar. O Batismo é o edifício "sagrado." A Redenção é "o santo do santo," e a Câmara Nupcial "o santo dos santos." O Batismo inclui a Ressurreição (e a) Redenção; a Redenção (ocorre) na câmara nupcial. Mas a Câmara Nupcial ocorre naquele lugar que é superior ao ( ... ) tu não encontrarás ( ... ) são aqueles que oram ( ... ) Jerusalém. ( ... ) Jerusalém, ( ... ) aqueles chamados "o santo dos santos" ( ... o) véu foi rasgado ( ... ) câmara nupcial exceto a imagem ( ... ) acima. Por esta razão seu véu rasgou-se de alto a baixo. Pois era apropriado que alguns de baixo fossem para cima.
Os poderes não vêem aqueles que estão vestidos com a luz perfeita e, por isto, não podem detê-los. A pessoa pode vestir-se sacramentalmente com esta luz na união.
Se a mulher não tivesse se separado do homem, ela não morreria com o homem. Sua separação tornou-se o começo da morte. Por isto o Cristo veio, para reparar a separação que houve no princípio e unir os dois outra vez e para dar vida àqueles que morreram devido à separação, unindo-os de novo. Mas a mulher uni-se a seu marido na câmara nupcial. Na verdade, aqueles que foram unidos na câmara nupcial não mais serão (pg 152) separados. Portanto, Eva separou-se de Adão porque não foi na câmara nupcial que ela se uniu a ele.
A alma de Adão chegou à existência por meio de um sopro. O companheiro de sua alma é o Espírito. Sua mãe é a coisa que lhe foi dada. Sua alma foi-lhe tomada e substituída por um (espírito). Quando ele estava unido (ao Espírito), (pronunciou) palavras incompreensíveis aos poderes. Eles o invejaram ( ... ) parceiro espiritual ( ... ) escondido ( ... ) oportunidade ( ... ) somente para eles ( ... ) câmara nupcial para que ( ...)
Jesus apareceu ( ... ) Jordão, a (plenitude do reino) dos céus. Ele que (foi engendrado) antes de todas as coisas foi engendrado novamente. Ele (que foi ungido) outrora foi ungido novamente. Ele que tinha sido redimido, redimiu (outros) por sua vez.
Realmente, um mistério deve ser dito. O pai de todas as coisas uniu-se com a virgem que havia descido, e o fogo brilhou para ele naquele dia. Ele apareceu na grande câmara nupcial. Portanto, seu corpo passou a existir naquele dia. Deixou a câmara nupcial como alguém que veio à existência por meio do noivo e da noiva. Desta forma, Jesus estabeleceu todas as coisas nela por meio deles. É conveniente que cada um dos discípulos entre em seu repouso.
Adão veio a ser por meio de duas virgens, do Espírito e da Terra virgem. O Cristo, portanto, nasceu de uma virgem para retificar a queda que houve no princípio.
Existem duas árvores crescendo no Paraíso. Uma sustenta (animais) e a outra sustenta homens. Adão (comeu) da árvore que nutria animais. (Ele) tornou-se um animal e produziu animais. Por esta razão os filhos de Adão adoram (animais). A árvore ( ... ) fruto é ( ... ) aumentado. ( ... ) comeu o ( ... ) fruto da ( ... ) nutre homens, ( ... ) homem. ( ... ) Deus criou o homem. ( ... os homens) criaram Deus. É desta maneira que são as coisas no mundo, os homens criam deuses e adoram a sua criação. Seria apropriado que os deuses adorassem os homens!
Certamente a realização de um homem depende de sua habilidade. Por isto referimo-nos as suas realizações como suas "habilidades." Entre suas realizações encontram-se seus filhos. Eles têm sua origem num momente de repouso. Portanto, suas habilidades determinam o que ele pode realizar, mas este repouso mostra-se evidente nos filhos. Isto se aplica diretamente à imagem. Aqui está o homem feito de acordo com a imagem realizando coisas com sua força física, mas produzindo seus filhos com facilidade.
Neste mundo, os escravos servem os livres. No Reino dos Céus, os livres vão (pg 153) cuidar dos escravos: os filhos da câmara nupcial vão cuidar dos filhos do casamento. Os filhos da câmara nupcial têm (um só) nome: repouso. (De modo geral) eles não precisam tomar (nenhuma) outra forma (porque têm) a contemplação, ( ... ). São numerosos ( ... ) nas coisas ( ... ) as glórias ( ... ).
Aqueles ( ... ) descem à água. ( ... ) saem (da água), vão consagrar ( ... ) aqueles que têm ( ... ) em seu nome. Pois ele disse, "(Assim) devemos cumprir toda a justiça" (Mt 3:15).
Aqueles que dizem que devem morrer primeiro para depois ressuscitar estão enganados. Se eles não receberem primeiro a ressurreição enquanto estiverem vivos, quando morrerem não receberão nada. Assim também, quando falam sobre o batismo dizem, "O batismo é uma grande coisa," pois se as pessoas o receberem viverão.
Felipe, o apóstolo, disse: "José, o carpinteiro, plantou um jardim porque precisava de madeira para seu ofício. Foi ele que fez a cruz das árvores que plantou. Sua própria descedência ficou pendurada naquilo que ele plantou. Sua descendência foi Jesus, e o plantio foi a cruz." Mas a árvore da vida está no meio do jardim. Porém é da oliveira que recebemos a crisma, e da crisma a ressurreição.
Este mundo é um devorador de cadáveres. Todas as coisas que se comem nele também morrem. A verdade alimenta-se da vida. Portanto, ninguém nutrido pela (verdade) morrerá. Foi daquele lugar que Jesus veio e trouxe alimento. Aos que desejavam ele deu (vida para que) eles não morressem.
Deus ( ... ) um jardim. O homem ( ... ) jardim. Existem ( ... ) e ( ... ) de Deus. ( ... ) As coisas que estão no ( ... ) eu desejo. Este jardim (é o lugar em que) me dirão, "( ... coma) isto ou não coma (aquilo, da maneira que) desejares." No lugar em que comerei todas as coisas está a árvore do conhecimento. Aquela matou Adão, mas aqui a árvore do conhecimento faz com que o homem viva. A lei era a árvore. Ela tem o poder para outorgar o conhecimento do bem e do mal. Ela nem o removeu do mal, nem o colocou no bem, mas criou a morte para aqueles que comiam dela. Pois quando ele disse, "Come isto, não coma aquilo," isto foi o começo da morte.
A crisma é superior ao batismo, pois foi a partir da palavra "crisma" que fomos chamados de "cristãos," e certamente não por causa da palavra "batismo." E é por causa da crisma que "o Cristo" recebeu seu nome. Porque o Pai ungiu o Filho, o Filho ungiu os apóstolos, e os apóstolos nos ungiram. Aquele que foi ungido tem tudo. Ele tem a ressurreição, a luz, a cruz e o Espírito Santo. O Pai deu-lhe isto na câmara nupcial; ele (pg 154) meramente aceitou (a dádiva). O Pai estava no Filho e o Filho no Pai. Isto é o Reino dos Céus.
O Senhor falou bem: "Alguns entraram no reino dos céus rindo, e sairam ( ... ) porque ( ... ) um cristão, ( ... ). E logo que ( ... desceu) à água ele veio ( ... ) tudo (deste mundo), ( ... ) porque ( ... ) um pouco, mas ( ... cheio de) menosprezo por este ( ... ) reino dos (céus ... ). Se ele despreza ( ... ) e o desdenha um pouco ( ... ) sairá rindo. Assim é também com o pão e o cálice de óleo, apesar de haver outro superior a estes.
O mundo foi criado por engano. Porque aquele que o criou queria fazê-lo imperecível e imortal. Ele não conseguiu realizar o seu desejo, pois o mundo nunca foi imperecível, e tampouco aquele que fez o mundo. Porque as coisas não são eternas, mas os filhos são. Nada será capaz de tornar-se eterno se não se tornar primeiramente um filho. Mas, ele que não tem a habilidade de receber, não será muito mais incapaz de dar?
O cálice da oração contém vinho e água, já que foi indicado para o tipo de sangue com o qual se realiza a ação de graça. Ele está pleno do Espírito Santo e pertence ao homem inteiramente perfeito. Quando bebermos deste cálice, receberemos o homem perfeito. A água viva é um corpo. Precisamos vestir-nos com o homem vivo. Portanto, quando ele está prestes a descer à água, despe-se para vestir-se com o homem vivo.
Um cavalo procria um cavalo, um homem gera um homem, um deus faz surgir um deus. Compare (o) noivo e a (noiva). Eles vieram do ( ... ). Nenhum judeu ( ... ) ( ... ) existiu. E ( ... ) dos judeus. ( ... ) cristãos, ( ... ) estes ( ... ) são referidos como "o povo escolhido de ( ... )," "o verdadeiro homem," "o filho do homem" e "a semente do filho do homem." Esta raça verdadeira é renomada no mundo ... em que os filhos da câmara nupcial moram.
Enquanto neste mundo a união é entre marido e mulher, um exemplo de força complementada pela fraqueza (?), no reino (eon) eterno, a forma de união é diferente, apesar de nos referirmos às duas pelo mesmo nome. Porém, existem outros nomes. Eles são superiores a todos os nomes indicados e são mais fortes do que o forte. Pois, quando ocorre uma demonstração de força, aparecem aqueles que se distinguem pela força. Estas coisas não são separadas, sendo ambas esta única coisa. Isto é aquilo que não será capaz de se elevar acima do coração de carne.
(pg 155) Não é preciso que aqueles que têm tudo conheçam a si mesmos? Alguns, de fato, que não conhecem a si mesmos, não serão capazes de gozar do que possuem.
Não só serão incapazes de deter o homem perfeito, mas não serão capazes de vê-lo, pois, se o virem, irão detê-lo. Não há outro meio para uma pessoa adquirir esta qualidade, exceto vestindo a luz perfeita (e) tornando-se também luz perfeita. Aquele que (a tiver vestido) entrará (... ). Quem recebe tudo ( ... ) deste lado ( ... ) será capaz ( ... ) aquele lugar, mas vai ( ... o meio) como imperfeito. Somente Jesus sabe o fim desta pessoa.
O sacerdote é inteiramente santo, até mesmo o seu corpo. Pois, se tomar o pão, o consagrará. Ele consagrará o cálice e tudo o mais que receber. Assim, como não vai consagrar o corpo também?
Ao aperfeiçoar a água do batismo, Jesus a esvaziou da morte. Assim descemos à água, mas não baixamos à morte para que não sejamos vertidos no espírito do mundo. Quando aquele espírito sopra, ele traz o inverno. Quando o Espírito Santo sopra, chega o verão.
Aquele que tem o conhecimento da verdade é um homem livre, porém o homem livre não peca, pois "aquele que peca é escravo do pecado" (Jo 8:34). A verdade é a mãe, o conhecimento o pai. Aqueles que pensam que o pecado não se aplica a eles são chamados de "livres" pelo mundo. "Conhecimento" da verdade "torna estas pessoas meramente arrogantes," que é o que as palavras "os tornam livres" significam. Isto lhes dá um sentimento de superioridade sobre todo o mundo. Mas "o amor constrói" (1 Co 8:1). Na verdade, aquele que, por meio do conhecimento, é realmente livre, torna-se um escravo, devido ao amor por aqueles que não foram ainda capazes de alcançar a liberdade do conhecimento. O conhecimento torna-os capazes de serem-se livres. O amor (nunca chama) algo de seu, ( ... ) ele ( ... ) possui ( ... ). Ele nunca (diz, "Isto é seu") ou "Isto é meu," (mas, "Tudo isto) é seu." O amor espiritual é vinho e fragrância. Todos que com ele se ungem se deleitam nisto. Enquanto aqueles que foram ungidos estiverem presentes, os que estão por perto também se aproveitam (da fragrância). Porém, quando os que foram ungidos com o ungüento se retirarem, deixando-os, então aqueles que não foram ungidos, mas estavam meramente por perto, permanecerão em meio a seu mau odor. O samaritano não deu ao homem ferido nada mais do que vinho e óleo. Isto nada mais é do que o ungüento, que cura as feridas, pois "o amor cobre inúmeros pecados" (1 Pe 4:8).
(pg 156) As crianças que uma mulher dá a luz se parecem com o homem que a ama. Se o seu marido a ama, então eles se parecem com seu marido. Se este for um adúltero, então elas se parecerão com o adúltero. Com freqüência, se uma mulher (adúltera) se deita com seu marido por conveniência, enquanto seu coração está com o amante, com quem ela geralmente tem relações, a criança que ela terá nascerá parecendo-se com o adúltero. Portanto, vós que viveis com o Filho de Deus, não ameis o mundo, mas sim o Senhor, para que os filhos que vierdes a engendrar não se parecem com o mundo, mas com o Senhor.
O ser humano tem relação sexual com um ser humano. O cavalo com um cavalo, um jumento com um jumento. Membros de uma raça geralmente se associam (com) pessoas da mesma raça. Assim o Espírito se mistura com o Espírito, o pensamento se relaciona com o pensamento, e a (luz) compartilha (com a luz. Se) nasceres como um ser humano, será (um ser humano) que te amará. Se te tornares (um espírito), será o Espírito que se unirá a ti. Se te tornares pensamento, será o pensamento que se associará contigo. Se te tornares luz, é a luz que compartilhará contigo. Se te tornares um daqueles que pertencem ao alto, são aqueles que pertencem ao alto que repousarão em ti. Se te tornares um cavalo, um jumento, um touro, um cão, uma ovelha ou qualquer outro animal que estão fora ou embaixo, então, nenhum ser humano, espírito, pensamento ou luz será capaz de amar-te. Nem os que pertencem ao alto nem os que pertencem ao interior serão capazes de repousar em ti, e não terás parte deles.
Aquele que é escravo contra o seu desejo será capaz de tornar-se livre. Aquele que se tornou livre devido ao favor de seu mestre, e depois vendeu-se como escravo novamente, não será mais capaz de ser livre.
A agricultura no mundo requer a cooperação de quatro elementos essenciais. A colheita será reunida no celeiro somente se houver a ação natural da água, da terra, do vento e da luz. A agricultura de Deus, da mesma forma, é baseada em quatro elementos: fé, esperança, amor e conhecimento. A fé é a terra em que fincamos raiz. A esperança é a água por meio da qual somos nutridos. Amor é o vento por meio do qual crescemos. O conhecimento, então, é a luz, por meio da qual (amadurecemos). A graça existe de (quatro maneiras: ela é) nascida da terra, é (celestial, ... ) do mais alto céu, ( ... ) no ( ... ).
Bem aventurado é aquele que em nenhuma ocasião causou a uma alma ( ... ). Esta pessoa é Jesus Cristo. Ele foi a toda parte e não prejudicou ninguém. Portanto, bem aventurado é aquele que age desta forma, porque é um homem perfeito. Pois a palavra (pg 157) nos diz que este tipo de homem é dificil de encontrar. Como seremos capazes de realizar uma coisa tão nobre? Como esta pessoa dará consolo a todos? Acima de tudo, não é apropriado causar tristeza a ninguém - seja importante ou modesto, crente ou sem crença - dando, então, consolo somente àqueles que se comprazem em boas ações. Alguns acham vantajoso proporcionar auxílio aos que fazem o bem. Aquele que faz boas ações não pode auxiliar tais pessoas, pois não se apega ao que gosta. Porém, é incapaz de causar tristeza, já que não aflige a ninguém. Na verdade, aquele que faz o bem, às vezes, causa tristeza aos outros -- não que seja sua intenção fazer isto -- ao contrário, é a própria maldade dos outros que é responsável pela tristeza que sentem. Aquele que tem as qualidades (do homem perfeito) confere alegria aos bons. Algumas pessoas, no entanto, sentem-se terrivelmente aflitas com tudo isto.
Havia um chefe de família que tinha todas as coisas imagináveis: filhos, escravos, gado, cachorros, porcos, milho, cevada, palha, pastagens, ( ... ), carne e bolotas . (Ele era, porém,) uma pessoa sensata e conhecia o alimento de cada um. Servia pão às crianças ( ... ). Servia farinha aos escravos ( e ... ). Lançava cevada, palha e capim ao gado. Dispensava ossos aos cachorros e bolotas e lavagem aos porcos. O mesmo ocorre com o discípulo de Deus: se ele for uma pessoa sensata compreende as necessidades do discipulado. As formas corporais não o enganarão, e ele examinará a condição da alma de cada um falando de acordo. Existem muitos animais no mundo que se apresentam de forma humana. Quando o discípulo os indentifica, lança bolotas aos porcos, cevada, palha e capim ao gado, ossos aos cães. Aos escravos proporcionará somente as lições elementares, às crianças oferecerá a instrução completa.
Existe o Filho do Homem e o filho do Filho do Homem. O Senhor é o Filho do Homem, e o filho do Filho do Homem é aquele que cria por meio do Filho do Homem. O Filho do Homem recebe de Deus a capacidade para criar. Ele também tem a capacidade para gerar. Aquele que recebeu a habilidade para criar é uma criatura. Aquele que recebeu a habilidade para gerar é um descendente. Aquele que cria não pode gerar. Aquele que gera não tem o poder de criar. É dito, no entanto, "Aquele que cria gera." Mas, a sua denominada "prole" é meramente uma criatura. Por causa da ( ... ) do nascimento, eles não são seus descendentes mas ( ... ). Aquele que cria trabalha abertamente e é visível. Aquele que gera o faz (em privacidade), ficando escondido, já (pg 158) que ( ... ) imagem. Da mesma forma, aquele que cria (o faz) abertamente. Mas, o que gera (engendra) os filhos em privacidade. Ninguém (pode) saber quando (o marido) e a esposa têm relações sexuais, a não ser os dois. Realmente, o casamento no mundo é um mistério para os que assumiram uma esposa. Se existe uma qualidade oculta no casamento da corrupção, maior ainda será o verdadeiro mistério do matrimônio não profanado! Ele não é carnal mas puro. Não pertence ao desejo mas à vontade. Não pertence à escuridão nem à noite, mas ao dia e à luz. Quando um casamento está aberto ao público, tornou-se prostituição, e a noiva faz o papel de prostituta não só quando é inseminada por outro homem, mas ainda quando sai de seu quarto e é vista. Ela só deve mostrar-se a seu pai, sua mãe, ao amigo do noivo e aos filhos do noivo. A estes é permitido entrar todos os dias na câmara nupcial. Aos outros resta simplesmente ansiar por ouvir a voz da noiva e deleitar-se com seu bálsamo. Eles que se alimentem das migalhas que caem da mesa, como os cães. O noivo e a noiva pertencem à câmara nupcial. Ninguém poderá ver o noivo e a noiva, a menos que (torne-se) um com eles.
Quando Abraão ( ... ) que ele veria o que devia ver, (ele cortou) a carne do prepúcio, ensinando-nos que é apropriado destruir a carne.
(A maior parte das coisas) no mundo, enquanto suas (partes internas) estão ocultas, ficam de pé e vivem. (Se são reveladas), morrem, como é ilustrado pelo homem visível: (enquanto) os intestinos do homem estão escondidos, o homem está vivo; quando seus intestinos são expostos e saem de dentro dele, o homem morre. O mesmo ocorre com a árvore: enquanto a raiz está escondida ela brota e cresce. Se suas raizes são expostas, a árvore seca. Assim ocorre com todo nascimento no mundo, não só com o revelado, mas (também) com o oculto. Porque enquanto a raiz da maldade está escondida, esta permanece forte. Mas quando é reconhecida ela se dissolve. Quando é revelada ela morre. É por isto que a palavra disse: "O machado já está posto à raiz das árvores" (Mt 3:10). Ele não só cortará -- o que é cortado brota outra vez -- mas o machado penetra profundamente até trazer a raiz para fora. Jesus arrancou inteiramente a raiz de todas as coisas, enquanto outros só o fizeram parcialmente. Quanto a nós, que cada um cave em busca da raiz do mal que está dentro de si, e que ela seja arrancada do coração de cada um pela raiz. Ela será arrancada se nós a reconhecermos. Mas se a ignorarmos, o mal se enraizará em nós e produzirá seus frutos em nosso coração. Ele nos dominará. Seremos seus escravos. Ele nos mantém cativos, para que façamos o que não queremos e não façamos o que queremos. Ele é poderoso porque nós não o reconhecemos. Enquanto (existe) permanece ativo. A ignorância é a mãe de (todos os (pg 159) males). A ignorância resultará na (morte, porque) aqueles que vivem na ignorância não foram, não (são) nem serão. ( ... ) será perfeito quando toda a verdade for revelada. Porque a verdade é como a ignorância: enquanto está escondida repousa em si mesma, mas quando é revelada e reconhecida, passa a ser louvada porque é mais forte do que a ignorância e o erro. Ela dá liberdade. A Palavra disse, "Se conhecerdes a verdade, a verdade vos libertará" (Jo 8:32). A ignorância é uma escrava. Conhecimento é liberdade. Se conhecermos a verdade, encontraremos os frutos da verdade dentro de nós. Se nos unirmos com ela, nos trará a plenitude.
No momento temos as coisas manifestadas da criação. Dizemos, "Os fortes que são tidos em alta estima são grandes indivíduos. E os fracos que são desprezados são os obscuros." Contraste esta situação com as coisas manifestas da verdade: elas são fracas e desprezadas, enquanto as coisas ocultas são fortes e tidas em alta estima. Os mistérios da verdade são revelados, ainda que por meio de modelos e imagens. A câmara nupcial, no entanto, permanece oculta. É o santo do santo. O véu inicialmente ocultava (a forma) como Deus controla a criação, mas quando o véu é rasgado e as coisas interiores são reveladas, esta casa ficará desolada, ou melhor, será (destruída). E toda a deidade (inferior) fugirá daqui, mas não para os santos (dos) santos, porque não será capaz de se misturar com a (luz) pura e com a plenitude (perfeita), mas para baixo das asas da cruz (e debaixo) de seus braços. Esta arca será (sua) salvação quando a enchente das águas surgir sobre eles. Se alguns pertencem a ordem sacerdotal, serão capazes de retirar-se para dentro do véu com o sumo sacerdote. Por esta razão o véu não se rasgou somente no alto, pois neste caso estaria aberto somente para os do alto; nem foi rasgado somente em baixo, pois neste caso teria sido revelado somente para os de baixo. Mas foi rasgado de alto a baixo. Aqueles acima abriram para nós as coisas abaixo, para que pudéssemos penetrar o segredo da verdade. Isto realmente é o que é tido em alta consideração (e) que é forte! E iremos lá por meio de modelos inferiores e formas de fraqueza. Eles são realmente inferiores quando comparados com a glória perfeita. Há uma glória que ultrapassa a glória e um poder que ultrapassa o poder. Portanto, as coisas perfeitas se abriram para nós, juntamente com as coisas ocultas da verdade. O santo dos santos foi revelado, e a câmara nupcial nos convida a entrar.
Enquanto ela estiver escondida, a fraqueza é realmente ineficaz, pois ela não foi removida do âmago da semente do Espírito Santo. Eles são escravos do mal. Mas, quando ela for revelada, então, a luz perfeita vai brilhar sobre todos. E todos os que (pg 160) estiverem em seu bojo (receberão a crisma). Então, os escravos serão libertados, (e) os cativos serão resgatados. "(Toda) planta (que) meu pai que está nos céus (não tiver) plantado será arrancada" (Mt 15:13). Aqueles que estiverem separados se unirão ( ... ) e serão preenchidos. Quem (entrar) na câmara nupcial vai acender a (luz), porque ( ... ) assim como nos casamentos que são ( ... ) acontece a noite. Aquele fogo ( ... ) só de noite e é apagado. Mas, por outro lado, os mistérios daquele casamento são aperfeiçoados de dia e sob a luz. Nem aquele dia nem sua luz jamais terminam. Se alguém tornar-se um filho da câmara nupcial, este receberá a luz. Se alguém não recebê-la enquanto estiver aqui, não será capaz de recebê-la no outro lugar. Quem receber aquela luz não será visto, nem poderá ser detido. E ninguém será capaz de atormentar uma pessoa como aquela, mesmo quando ela estiver vivendo no mundo. E também, quando se retirar do mundo, ela já terá recebido a verdade em imagens. O mundo tornou-se o reino (eon) eterno, porque o reino eterno é a plenitude para ela. E isto ocorre desta forma: é revelado a ela sozinha, não escondido na escuridão e à noite, mas escondido num dia perfeito e sob a luz sagrada.
Fonte: THE NAG HAMMADI LIBRARY
James M. Robinson (ed.)
Harper San Francisco, 1994, pg. 141-160
Tradução: Raul Branco
Revisão: Edilson Pedros

O Evangelho Segundo Maria Madalena
APRESENTAÇÃO
Apresentamos, numa versão modernizada, textos considerados apócrifos e que trazem importantes informações a respeito da vida de Cristo, preenchendo lacunas até então criadas pelos Evangelhos constantes da Bíblia.
Este Evangelho foi escrito provavelmente no século II. Foi através de um fragmento copta, que ele chegou até nós. O destaque fica para a estranha parábola que Jesus conta para Maria Madalena. Esta passagem ocorreu após sua crucificação.
FRAGMENTO DO EVANGELHO SEGUNDO MARIA MADALENA
Salvador disse: "Todas as espécies, todas as formações, todas as criaturas estão unidas, elas dependem umas das outras, e se separarão novamente em sua própria origem. Pois a essência da matéria somente se separará de novo em sua própria essência. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça".
Pedro lhe disse: "Já que nos explicaste tudo, dize-nos isso também: o que é o pecado do mundo?" Jesus disse: "Não há pecado ; sois vós que os criais, quando fazeis coisas da mesma espécie que o adultério, que é chamado 'pecado'. Por isso Deus Pai veio para o meio de vós, para a essência de cada espécie, para conduzi-la a sua origem."
Em seguida disse: "Por isso adoeceis e morreis [...]. Aquele que compreende minhas palavras, que as coloque-as em prática. A matéria produziu uma paixão sem igual, que se originou de algo contrário à Natureza Divina. A partir daí, todo o corpo se desequilibra. Essa é a razão por que vos digo: tende coragem, e se estiverdes desanimados, procurais força das diferentes manifestações da natureza. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça."
Quando o Filho de Deus assim falou, saudou a todos dizendo: "A Paz esteja convosco. Recebei minha paz. Tomai cuidado para ninguém vos afaste do caminho, dizendo: 'Por aqui' ou 'Por lá', Pois o Filho do Homem está dentro de vós. Segui-o. Quem o procurar, o encontrará. Prossegui agora, então, pregai o Evangelho do Reino. Não estabeleçais outras regras, além das que vos mostrei, e não instituais como legislador, senão sereis cerceados por elas".Após dizer tudo isto partiu.
Mas eles estavam profundamente tristes. E falavam: "Como vamos pregar aos gentios o Evangelho ao Reino do Filho do Homem? Se eles não o procuraram, vão poupar a nós?" Maria Madalena se levantou, cumprimentou a todos e disse a seus irmãos: "Não vos lamentais nem sofrais, nem hesiteis, pois sua graça estará inteiramente convosco e vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens". Após Maria ter dito isso, eles entregaram seus corações a Deus e começaram a conversar sobre as palavras do Salvador.
Pedro disse a Maria:"Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos."
Maria Madalena respondeu dizendo: " Esclarecerei a vós o que está oculto". E ela começou a falar essas palavras: "Eu", disse ela, "eu tive uma visão do Senhor e contei a Ele: 'Mestre, apareceste-me hoje numa visão'. Ele respondeu e me disse: 'Bem aventurada sejas, por não teres fraquejado ao me ver. Pois, onde está a mente há um tesouro'. Eu lhe disse: 'Mestre, aquele que tem uma visão vê com a alma ou como espírito?' Jesus respondeu e disse: "Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência, que está entre ambos - assim é que tem a visão [...]".
E o desejo disse à alma: 'Não te vi descer, mas agora te vejo subir. Por que falas mentira, já que pertences a mim?' A alma respondeu e disse:'Eu te vi. Não me viste, nem me reconheceste. Usaste-me como acessório e não me reconheceste.' Depois de dizer isso, a alma foi embora, exultante de alegria. "De novo alcançou a terceira potência , chamada ignorância. A potência, inquiriu a alma dizendo: 'Onde vais? Estás aprisionada à maldade. Estás aprisionada, não julgues!' E a alma disse: ' Por que me julgaste apesar de eu não haver julgado? Eu estava aprisionada; no entanto, não aprisionei. Não fui reconhecida que o Todo se está desfazendo, tanto as coisas terrenas quanto as celestiais.' "Quando a alma venceu a terceira potência, subiu e viu a quarta potência, que assumiu sete formas. A primeira forma, trevas,; a segunda , desejo; a terceira, ignorância,; a quarta, é a comoção da morte; a quinta, é o reino da carne; a sexta, é a vã sabedoria da carne; a sétima, a sabedoria irada. Essas são as sete potências da ira. Elas perguntaram à alma: ´De onde vens, devoradoras de homens, ou onde vais, conquistadora do espaço?' A alma respondeu dizendo: ' O que me subjugava foi eliminado e o que me fazia voltar foi derrotado..., e meu desejo foi consumido e a ignorância morreu. Num mundo fui libertada de outro mundo; num tipo fui libertada de um tipo celestial e também dos grilhões do esquecimento, que são transitórios. Daqui em diante, alcançarei em silêncio o final do tempo propício, do reino eterno'."

Depois de ter dito isso, Maria Madalena se calou, pois até aqui o Salvador lhe tinha falado. Mas André respondeu e disse aos irmãos:"Dizei o que tendes para dizer sobre o que ela falou. Eu, de minha parte, não acredito que o Salvador tenha dito isso. Pois esses ensinamentos carregam idéias estranhas". Pedro respondeu e falou sobre as mesmas coisas. Ele os inquiriu sobre o Salvador:"Será que ele realmente conversou em particular com uma mulher e não abertamente conosco? Devemos mudar de opinião e ouvirmos ela? Ele a preferiu a nós?" Então Maria Madalena se lamentou e disse a Pedro: "Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo isso no mau coração ou que estou mentindo sobre o Salvador?" Levi respondeu a Pedro: "Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece bem. Daí a ter amado mais do que a nós. É antes, o caso de nos envergonharmos e assumirmos o homem perfeito e nos separaremos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma regra ou lei, além das que o Salvador nos legou."
Depois que Levi disse essas palavras, eles começaram a sair para anunciar e pregar.

O Evangelho Segundo Pedro

APRESENTAÇÃO
Apresentamos, numa versão modernizada, textos considerados apócrifos e que trazem importantes informações a respeito da vida de Cristo, preenchendo lacunas até então criadas pelos Evangelhos constantes da Bíblia.
Este é considerado o quinto Evangelho, escrito por Pedro, segundo relatos feitos por Nossa Senhora. Publicado pela primeira vez em 1677, conta com versões e, grego, latim, armênio e árabe.
Muita gente se indaga ainda hoje porque os Evangelhos da Bíblia não falam da infância e juventude de Cristo. Isso tem provocado inúmeras especulações, inclusive algumas que citam que o Mestre exilou-se junto aos monges do Tibete ou conviveu com os essênios, com cujos mestres instruiu-se.


Admitir isso é negar a divindade de Cristo, pois se ele precisou de um mestre, seria mais lógico que, hoje em dia, adorássemos o seu mestre e não ele, o aprendiz. Isso fica bem claro nas passagens XLVIII e XLIX.
Nesta narrativa, há maiores detalhes sobre o encontro de Jesus com os sábios, no templo de Jerusalém, além de suas brincadeiras com as outras crianças e seu trabalho na companhia de José.
Nas notas de rodapé, apresentamos trechos do Evangelho Armênio da Infância, uma versão ampliada do Evangelho da Infância, onde algumas passagens extras esclarecem momentos importantes da vida de Jesus. Esses livros foram considerados apócrifos pela Igreja, isto é, sem a inspiração divina, e excluídos dos textos originais que formaram, ao longo do tempo, a atual Bíblia. Quais foram os critérios utilizados para selecionar os livros inspirados divinamente foi algo que até hoje a Igreja não explicou de modo convincente. O que se sabe é que há relatos sobre a infância de Cristo, sobre a Natividade, sobre São José e outras, que não são aceitas como textos sagrados, muito embora contenham narrativas que completam diversas lacunas nos textos considerados sagrados.
O Evangelho da Infância mostra, de modo sensível e belo, o que foi a infância de Nosso Senhor Jesus Cristo, que desde a mais tenra idade já manifestava sua santidade. É um texto que encanta pela sua beleza, pela singeleza e pelas situações que retratam, onde o Cristo surge como a criança que foi, muito embora sua divindade o levasse a gestos inusitados, mas marcados pela sabedoria precoce e pela coerência de seus atos.
A INFÂNCIA DE CRISTO SEGUNDO PEDRO
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.
Com o auxílio e a ajuda do Deus todo poderoso, começamos a escrever o livro dos milagres de nosso Salvador, Mestre e Senhor Jesus Cristo, que se intitula o Evangelho da Infância, conforme narrado por Maria, sua mãe, na paz do Nosso Senhor e Salvador. Que assim seja.
I. Palavras de Jesus no Berço
Encontramos no livro do grande sacerdote Josefo que viveu no tempo de Jesus Cristo, e que alguns chamam de Caifás, que Jesus falou quando estava no berço e que disse a sua mãe Maria:
- Eu, que nasci de ti, sou Jesus, o filho de Deus, o Verbo, como te anunciou o anjo Gabriel, e meu Pai me enviou para a salvação do mundo.
II. Viagem a Belém
No ano de 309 da era de Alexandre, Augusto ordenara que todos fossem recenseados em sua cidade natal. José partiu, então, conduzindo Maria, sua esposa. Vieram a Jerusalém, de onde se dirigiram a Belém para inscreverem-se no local onde ele havia nascido. Quando estavam próximos a uma caverna, Maria disse a José que sua hora havia chegado e que não poderia ir até a cidade.
- Entremos nesta caverna - disse ela.
O sol estava começando a se pôr. José apressou-se em procurar uma mulher que assistisse Maria no parto e encontrou uma anciã que vinha de Jerusalém.
Saudando-a, disse-lhe:
- Entra na caverna onde encontrarás uma mulher em trabalho de parto.
III. A Parteira de Jerusalém
Após o pôr-do-sol, José chegou com a anciã à caverna e eles entraram. Eis que a caverna estava resplandecendo com uma claridade que superava a de uma infinidade de labaredas e brilhava mais do que o sol do meio-dia. A criança, enrolada em fraldas e deitada numa manjedoura, mamava no seio da mãe. Ambos ficaram surpresos com o aspecto daquela claridade e a anciã disse a Maria:
- És tu a mãe desta criança?
Ao responder afirmativamente Maria, disse-lhe:
- Não és semelhante às filhas de Eva.
Respondeu Maria respondeu:
- Assim como entre as crianças dos homens não há nenhuma que seja semelhante ao meu filho, assim também sua mãe não tem par entre todas as mulheres.
A anciã disse então:
- Senhora e ama, vim para receber uma recompensa que perdurará para todo o sempre.
Maria lhe disse, então:
- Põe tuas mãos sobre a criança.
Quando a anciã o fez, foi purificada. Ao sair, ela disse:
- A partir deste momento, eu serei a serva desta criança e quero consagrar-me a seu serviço, por todos os dias da minha vida.
IV. A Adoração dos Pastores
Em seguida, quando os pastores chegaram e acenderam o fogo, entregando-se à alegria, as cortes celestes apareceram, louvando e celebrando o Senhor, a caverna parecia-se com um templo augusto, onde reis celestiais e terrestres celebravam a glória e os louvores de Deus por causa da natividade do Senhor Jesus Cristo. E esta anciã hebréia, vendo estes milagres resplandecentes, rendia graças a Deus, dizendo:
- Eu te rendo graças, ó Deus, Deus de Israel, porque os meus olhos viram a natividade do Salvador do mundo.
V. A Circuncisão
Quando chegou o tempo da circuncisão, isto é, o oitavo dia, época na qual o recém-nascido deve ser circuncidado segundo a lei, eles o circuncidaram na caverna e a velha anciã recolheu o prepúcio e colocou-o em um vaso de alabastro, cheio de óleo de nardo velho. Como tivesse um filho que comercializava perfumes, Maria deu-lhe o vaso, dizendo:
- Muito cuidado para não vender este vaso cheio de perfume de nardo, mesmo que te ofereçam trezentos dinares.
E este é o vaso que Maria, a pecadora, comprou e derramou sobre a cabeça e sobre os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, enxugando-os com seus cabelos.
Quando dez dias se haviam passado, eles levaram a criança para Jerusalém e, ao término da quarentena, eles o apresentaram no templo do Senhor, oferecendo por ele as oferendas prescritas pela lei de Moisés, que diz:
- Toda criança do sexo masculino que sair de sua mãe será chamada o santo de Deus.
VI. Apresentação no Templo
O velho Simeão viu o menino Jesus resplandecente de claridade como um facho de luz, quando a Virgem Maria, cheia de alegria, entrou com ele em seus braços. Uma multidão de anjos rodeava-o, louvando-o e acompanhando-o, assim como os satélites de honra seguem seu rei. Simeão, pois, aproximando-se rapidamente de Maria e estendendo suas mãos para ela, disse ao Senhor Jesus:
- Agora, Senhor, teu servo pode retirar-se em paz, segundo tua promessa, pois meus olhos viram tua misericórdia e o que preparaste para a salvação de todas as nações, luz de todos os povos e a glória de teu povo de Israel.
A profetisa Ana também estava presente, rendia graças a Deus e celebrava a felicidade de Maria.
VII. A Adoração dos Magos
Aconteceu que, enquanto o Senhor vinha ao mundo em Belém, cidade da Judéia, Magos vieram de países do Oriente a Jerusalém, tal como havia predito Zoroastro, e traziam com eles presentes: ouro, incenso e mirra. Adoraram a criança e renderam-lhe homenagem com seus presentes. Então Maria pegou uma das faixas, nas quais a criança estava envolvida, e deu-a aos magos que receberam-na como uma dádiva de valor inestimável. Nesta mesma hora, apareceu-lhes um anjo sob a forma de uma estrela que já lhes havia servido de guia, e eles partiram, seguindo sua luz, até que estivessem de volta a sua pátria.
VIII. A Chegada Dos Magos à sua Terra
Os reis e os príncipes apressaram-se em se reunir em torno dos magos, perguntando-lhes o que haviam visto e o que havia feito, como haviam ido o como haviam voltado e que companheiros eles haviam tido então durante a viagem. Os magos mostraram-lhes a faixa que Maria lhes havia dado. Em seguida, celebraram uma festa, acenderam o fogo segundo seus costumes, adoraram a faixa e a jogaram nas chamas. As chamas envolveram-na.
Ao apagar-se o fogo, eles retiraram o pano e viram que as chamas não haviam deixado nele nenhum vestígio. Eles se puseram então a beijá-lo e a colocá-lo sobre suas cabeças e sobre seus olhos, dizendo:
- Eis certamente a verdade! Qual é pois o preço deste objeto que o fogo não pode nem consumir nem danificar?
E pegando-o, depositaram-no com grande veneração entre seus tesouros.
IX. A Cólera de Herodes
Herodes, vendo que os magos não retornavam a visitá-lo, reuniu os sacerdotes e os doutores e disse-lhes:
- Mostrai-me onde deve nascer o Cristo.
Quando responderam que era em Belém, cidade da Judéia, Herodes pôs-se a tramar, em seu espírito, o assassinato do Senhor Jesus. Então um anjo apareceu a José, durante o sono, e disse-lhe:
- Levanta-te, pegue a criança e sua mãe e foge para o Egito.
Quando o galo cantou, José levantou-se e partiu.
X. Fuga para o Egito
Enquanto ele refletia sobre o caminho que ele devia seguir, a aurora o surpreendeu. A correia da sela se havia rompido ao se aproximarem de uma grande cidade, onde havia um ídolo, ao qual os outros ídolos e divindades do Egito rendiam homenagem e ofereciam presentes. Sempre que Satã falava pela boca do ídolo, os sacerdotes relatavam o que ele dizia aos habitantes do Egito e de suas margens.
Um sacerdote tinha um filho de trinta anos que estava possuído por um grande número de demônios. Ele profetizava e anunciava muitas coisas. Quando os demônios se apossavam dele, rasgavam suas roupas e ele corria nu pela cidade, jogando pedras nos homens.
A hospedaria dessa cidade ficava perto deste ídolo. Quando José e Maria lá chegaram e se hospedaram, os habitantes ficaram profundamente perturbados e todos os príncipes e sacerdotes dos ídolos se reuniram ao redor desse ídolo, perguntando-lhe:
- De onde vem esta agitação universal e qual é a causa deste pavor que se apoderou de nossos país?
O ídolo respondeu:
- Esse assombro foi trazido por um Deus desconhecido, que é o Deus verdadeiro, e ninguém a não ser ele é digno das honras divinas, pois ele é o verdadeiro Filho de Deus. À sua aproximação, esta região tremeu. Ela se emocionou e se assombrou e nós sentimos um grande temor por causa do seu poder.
Neste momento, esse ídolo caiu e quebrou-se, tal como os outros ídolos que estavam no país. Sua queda fez acorrerem todos os habitantes do Egito.
XI. A Cura do Menino Endemoninhado
O filho do sacerdote, acometido do mal que o afligia, entrou no albergue insultando José e Maria, já que os outros hóspedes haviam fugido. Como Maria havia lavado as fraldas do Senhor Jesus e as estendera sobre umas madeiras, o menino possuído pegou uma das fraldas e colocou-a sobre sua cabeça. Imediatamente os demônios fugiram, saindo pela boca, e foram vistos sob a forma de corvos e serpentes. O menino foi curado instantaneamente pelo poder de Jesus Cristo e se pôs a louvar o Senhor que o havia libertado e rendeu-lhe mil ações de graça.
Quando seu pai viu que ele havia recobrado a saúde, exclamou, admirado:
- Meu filho, mas o que te aconteceu e como foste tu curado?"
O filho respondeu:
- No momento em que me atormentavam, eu entrei na hospedaria e lá encontrei uma mulher de grande beleza, que estava com uma criança. Ela estendia sobre umas madeiras as fraldas que acabara de lavar. Eu peguei uma delas e coloquei-la sobre minha cabeça e os demônios fugiram imediatamente e me abandonaram.
O pai, cheio de alegria, exclamou:
- Meu filho, é possível que essa criança seja o Filho do Deus vivo que criou o céu e a terra e, assim que passou por nós, o ídolo partiu-se, os simulacros de todos os nossos deuses caíram e uma força superior à deles destruiu-os.
XII. Os Temores da Sagrada Família
Assim se cumpriu a profecia que diz:
- Chamei o meu filho do Egito.
Quando José e Maria souberam que esse ídolo se havia quebrado, foram tomados de medo e de espanto e diziam:
- Quando estávamos na terra de Israel, Herodes queria que Jesus morresse e, com esta intenção, ele ordenou o massacre de todas as crianças de Belém e das vizinhanças. É de se temer que os egípcios nos queimem vivos, se eles souberem que esse ídolo caiu.
XIII. Os Salteadores
Eles partiram e passaram nas proximidades do covil de ladrões, que despojavam de suas roupas e pertences os viajantes que por ali passavam e, após tê-los amarrado, os arrastavam pelo deserto. Esses ladrões ouviram um forte ruído, semelhante ao do rei que saiu de sua capital ao som dos instrumentos musicais, escoltado por grande exército e por uma numerosa cavalaria. Apavorados, então, deixaram ali todo o seu saque e apressaram-se em fugir. Os cativos, levantando-se, cortaram as cordas que os prendiam e, tendo retomado sua bagagem, iam retirar-se, quando viram José e Maria que se aproximavam e perguntaram-lhes:
- Onde está este rei cujo cortejo, com seu barulho, assustou os ladrões a ponto de eles terem e nos libertado?
José respondeu:
- Ele nos segue.
XIV. A Endemoninhada
Chegaram em seguida a outra cidade, onde havia uma mulher endemoninhada. Quando ela ia buscar água no poço durante a noite, o espírito rebelde e impuro apossava-se dela. Ela não podia suportar nenhuma roupa, nem morar em uma casa. Todas as vezes que a amarravam com cordas e correntes, ela as partia e fugia nua para locais desertos. Ficava nas estradas e perto de sepulturas, perseguindo e apedrejando aqueles que encontrava no caminho, de forma que ela era, para seus pais, motivo de luto.
Maria viu-a e foi tomada de compaixão. Imediatamente Satã a deixou e fugiu sob a forma de um jovem rapaz, dizendo:
- Infeliz de mim, por tua causa, Maria, e por causa do teu filho!
Quando essa mulher foi libertada da causa de seu tormento, olhou ao seu redor e, corando por sua nudez, procurou seus pais, evitando encontrar as pessoas. Após haver vestido suas roupas, ela contou ao seu pai e aos seus o que lhe havia acontecido. Como eles fizessem parte dos habitantes mais distintos da cidade, hospedaram em sua casa José e Maria, demonstrando por eles um grande respeito.
XV. A Jovem Muda
No dia seguinte, José e Maria prosseguiram sua viagem. À noite chegaram a uma cidade onde estava sendo celebrado um casamento. Mas, em decorrência das ciladas do espírito maligno e dos encantamentos de alguns feiticeiros, a esposa ficara muda, de forma que ela não podia mais falar. Quando Maria entrou na cidade, trazendo nos braços o filho, o Senhor Jesus, aquela que havia perdido o uso da palavra avistou-o e imediatamente pegou-o em seus braços. Abraçou-o, apertando-o junto ao seu seio e cobrindo-o de carinho. Imediatamente o laço que travava sua língua partiu-se e seus ouvidos se abriram. Ela começou a glorificar e a agradecer a Deus que a havia curado. Naquela noite, houve uma grande alegria entre os habitantes dessa cidade, pois acreditavam todos que Deus e seus anjos haviam descido no meio deles.
XVI. Outra Endemoninhada
José e Maria passara três dias nesse lugar, onde foram recebidos com grande veneração e esplendidamente tratados. Munidos de provisões para a viagem, partiram dali e chegaram a uma outra cidade. Como ela era próspera e seus habitantes tinha boa reputação, eles pernoitaram lá. Havia nessa cidade uma boa mulher. Um dia em que ela havia descido até o rio para lavar-se, um espírito maldito, assumindo a forma de uma serpente, havia se jogado sobre e cingido o seu ventre. Todas as noites estendia-se sobre ela. Quando essa mulher viu Maria e o Senhor Jesus que ela trazia contra o seio, rogou à Santa Virgem que lhe permitisse segurar e beijar a criança. Maria consentiu, e assim que a mulher tocou a criança, Satã abandonou-a e fugiu. Desde então ela não mais o viu. Todos os vizinhos louvaram o Senhor e a mulher recompensou-os com grande generosidade.
XVII. Uma Leprosa
No dia seguinte, essa mulher preparou água perfumada para lavar o menino Jesus e após o haver lavado, guardou essa água. Havia lá uma jovem cujo corpo assava, coberto pela lepra branca. Lavou-se ela com essa água e foi imediatamente curada. O povo dizia então:
- Não resta dúvida de que José e Maria e essa criança sejam Deuses, pois eles não podem ser simples mortais.
Quando eles se preparavam para partir, essa jovem, que havia sido curada da lepra, aproximou-se deles e rogou-lhes que lhe permitissem acompanhá-los.
XVIII. Um Menino Leproso
Eles consentiram e ela foi com eles. Chegaram a uma cidade, onde havia o castelo de um poderoso príncipe. Foram até lá e se hospedaram nele. A jovem, aproximando-se da esposa do príncipe, encontrou-a triste e chorando. Perguntou-lhe, então, qual a causa daquele pesar:
- Não te espantes de me ver entregue à aflição. Estou em meio a uma grande calamidade, que não ouso contar a ninguém.
A jovem tornou:
- Se me confessares qual é teu mal, talvez encontres remédio junto a mim.
A esposa do príncipe disse-lhe:
- Não revelarás este segredo a ninguém. Casei-me com um príncipe cujo império, semelhante a um império de um rei, estende-se por vastos estados e, após haver vivido por muito tempo com ele, ele não teve de mim nenhum descendente. Finalmente, eu concebi, mas trouxe ao mundo uma criança leprosa. Após havê-lo visto, ele não quis reconhecê-lo como seu filho e me disse para matar a criança ou entregá-la a uma ama para que a criasse num local tão afastado, para que não mais ouvíssemos sobre ela. Além disso, ele me mandou pegar o que é meu, pois não queria me ver mais. Eis porque me entrego à dor, deplorando a calamidade que sobre mim se abateu. Choro por meu marido e por meu filho.
A jovem respondeu-lhe:
- Pois não te disse que eu tenho para ti o remédio que te havia prometido? Eu também fui atingida pela lepra, mas fui curada por uma graça de Deus, que é Jesus, o filho de Maria.
A mulher perguntou-lhe, então, onde estava esse Deus do qual falava. A jovem respondeu-lhe:
- Ele está bem aqui, nesta casa".
Perguntou a princesa:
- Como pode ser isso, onde está ele?
A jovem respondeu:
- Aqui estão José e Maria. A criança que está com eles é Jesus e foi ele quem me curou dos meus sofrimentos.
- E por que meio pôde ele te curar? Não vais me contar? - quis saber a princesa.
A jovem explicou:
- Recebi de sua mãe a água na qual ele havia sido lavado, espalhei-la então sobre meu corpo e minha lepra desapareceu.
A esposa do príncipe ergueu-se, então, e recebeu José e Maria.
Preparou para José um magnífico festim, para o qual muitas pessoa foram convidadas. No dia seguinte, ela pegou água perfumada a fim de lavar o Senhor Jesus e ela lavou, com essa mesma água, o seu filho, que ela havia trazido consigo, e logo ele se curou da lepra.
Ela se pôs a cantar louvores a Deus e a render-lhe graças, dizendo-lhe:
- Feliz da mãe que te gerou, ó Jesus! A água com a qual o teu corpo foi lavado cura os homens que têm tua natureza.
Ela ofereceu presentes a Maria e dela despediu-se, tratando-a com grande deferência.
XIX. Um Feitiço
Chegaram a outra cidade onde deviam pernoitar. Foram à casa de um homem recém-casado que, atingido por um malefício, não podia desfrutar sua esposa. Após haverem eles passado a noite perto do homem, o encantamento quebrou-se. Quando o dia amanheceu, preparavam-se para prosseguir a viagem, mas o esposo impediu-os de partir e preparou-lhes um grande banquete.
XX. A História de um Mulo
No dia seguinte partiram e, ao se aproximarem de uma outra cidade, viram três mulheres que se afastavam de um túmulo, a verter em lágrimas. Maria, tendo-as visto, disse à jovem que os acompanhava:
- Pergunta-lhes quem são elas e qual a desgraça que se lhes abateu.
Elas não responderam mas puseram-se a interrogá-la, dizendo:
- Quem sois vós, e para onde ides? Pois o dia está terminando e a noite se aproxima.
A moça respondeu:
- Somos viajantes e procuramos uma hospedaria para passar a noite.
As mulheres disseram:
- Acompanhai-nos e passai a noite em nossa casa.
Eles seguiram essas mulheres e foram levados a uma casa nova, ornada e decorada por diversos móveis. Era inverno e a jovem moça, tendo entrado no quarto dessas mulheres, encontrou-as chorando e se lamentando. Ao lado delas, coberta por uma manta de seda, encontrava-se um mulo com forragem à sua frente. Elas davam-lhe de comer e o beijavam.
A jovem disse então:
- Ó, minha senhora, como é belo este mulo!
Elas responderam chorando:
- Este mulo que estás vendo é nosso irmão, que nasceu de nossa mãe. Nosso pai deixou-nos com sua morte grandes riquezas e nós só tínhamos este irmão, para quem tentávamos encontrar um casamento conveniente. Porém, mulheres dominadas pelo espírito da inveja, lançaram sobre ele, sem que soubéssemos, encantamentos. E uma certa noite, um pouco antes do amanhecer, estando fechadas as portas da nossa casa, encontramos nosso irmão transformado em mulo, tal qual o vês hoje. Entregamo-nos à tristeza, visto que não tínhamos mais nosso pai para consolar-nos. Consultamos todos os sábios do mundo, todos os magos e os feiticeiros, tentamos de tudo, mas nenhum deles nada pôde fazer por nós. Eis porque sempre que nosso coração está a ponto de explodir de tristeza. Nós nos levantamos e vamos, junto com a nossa mãe que aqui está, ao túmulo de meu pai e, após haver chorado, retornamos para cá.
XXI. Volta a Ser Homem
Ao ouvir tal coisas, a jovem disse:
- Tende coragem e parai de chorar, pois a cura de vossos males está muito próxima, em vossa morada. Eu era leprosa, mas após haver visto essa mulher e a criança que está com ela e que se chama Jesus, e após haver derramado sobre meu corpo a água com a qual a sua mãe o havia lavado, eu me curei. Eu sei que ele pode pôr um fim à vossa desgraça. Levantai-vos, aproximai-vos de Maria, conduzi-o aos vossos aposentos, revelai-lhe o segredo que acabais de me contar e suplicai-lhe piedade.
Ao ouvirem tais palavras proferidas pela jovem, elas se apressaram em ter com Maria. Levaram o multo até o quarto e lhe disseram, chorando:
- Maria, Nossa Senhora, tem compaixão de tuas servas, pois nossa família está desprovida de seu chefe e não temos um pai ou um irmão que nos proteja. Este mulo que aqui vês é nosso irmão. Algumas mulheres, com seus encantamentos, reduziram-no a este estado. Rogamos-te, pois, que tenhas piedade de nós.
Maria, comovida e chorando como as mulheres, ergueu o menino Jesus e colocou-o sobre o dorso do mulo, dizendo:
- Meu filho, cura este mulo através do teu grande poder e faze com que este homem recobre a razão, da qual foi privado.
Nem bem essas palavras haviam saído dos lábios de Maria e o mulo já havia retomado a forma humana, mostrando-se sob os traços de um belo rapaz. Não lhe restava nenhuma deformidade. Ele, sua mãe e suas irmãs adoraram Maria e, erguendo o menino acima de suas cabeças, beijaram-no, dizendo:
- Feliz de tua mãe, ó Jesus, Salvador do mundo! Felizes os olhos que gozam da felicidade da tua presença.
XXII. As Bodas
As duas irmãs disseram à mãe:
- Nosso irmão retomou a forma primitiva, graças à intervenção do Senhor Jesus e aos bons conselhos dessa jovem, que nos sugeriu recorrer a Maria e ao seu filho. Agora, já que nosso irmão não está casado, pensamos que seria conveniente que ele desposasse essa moça.
Após haverem feito este pedido a Maria e haver ela consentido, fizeram para as bodas preparativos esplêndidos. A dor transformou-se em alegria e o choro cedeu espaço ao riso. Elas só fizeram cantar e regozijar-se, enfeitadas com magníficas vestimentas e jóias preciosas. Ao mesmo tempo, entoavam cânticos de louvor a Deus, dizendo:
- Ó, Jesus, Filho de Deus, que transformaste nossa aflição em contentamento e nossas lamúrias em gritos de alegria!
José e Maria lá permaneceram por dez dias. Ao partirem, receberam demonstrações de veneração de parte de toda a família, que despediu-se deles chorando muito, principalmente a moça que se desfazia em lágrimas.
XXIII. Os Salteadores
Chegaram, em seguida, a um deserto. Como lhes haviam dito que era infestado de ladrões, prepararam-se para atravessá-lo durante a noite. Eis que, de repente, avistaram dois ladrões que dormiam e, perto deles, muitos outros ladrões, seus companheiros, que também estavam entregues ao sono. Esses dois ladrões chamavam-se Titus e Dumachus.
O primeiro disse ao outro:
- Eu te peço que deixes estes viajantes irem em paz, para que nossos companheiros não os vejam.
Tendo Dumachus recusado, Titus disse-lhe:
- Dou-te quarenta dracmas e fica com meu cinto como penhor.
Deu-lhe o cinto e, ao mesmo tempo, pediu que não desse alarme. Maria, vendo esse ladrão tão disposto a serví-los, disse-lhe:
- Que Deus te proteja com sua mão direita e que ele te conceda a remissão de teus pecados".
O Senhor Jesus disse a Maria:
- Daqui a trinta anos, ó minha mãe, os judeus me crucificarão em Jerusalém e estes dois ladrões serão postos na cruz ao meu lado: Titus à minha direita e Dumachus à minha esquerda. Neste dia, Titus me precederá no Paraíso.
Quando ele assim falou, sua mãe respondeu-lhe:
- Que Deus afaste de ti semelhante desgraça, ó meu filho!
Foram dar, em seguida, em uma cidade, cheia de ídolos. Quando eles se aproximavam, ela foi transformada em um monte de areia.
XXIV. A Sagrada Família em Mataréia
Foram ter, em seguida, a um sicômoro, que chamam hoje de Mataréia, e o Senhor Jesus fez surgir neste lugar uma fonte, onde Maria lavou sua túnica. O bálsamo que produz esse país vem do suor que escorreu pelos membros de Jesus.
XXV. A Sagrada Família em Mênfis
Foram então a Mênfis e, tendo visitado o faraó, permaneceram três anos no Egito, onde o Senhor Jesus fez muitos milagres, que não estão consignados nem no Evangelho da Infância, nem no Evangelho Completo.
XXVI. volta para nazaré
Depois de três anos, eles deixaram o Egito e voltaram para a Judéia. Quando já estavam próximos, José teve medo de entrar lá, porque acabara de saber que Herodes estava morto e que seu filho Arquelaus havia lhe sucedido. Um anjo de Deus apareceu-lhe, porém, e disse-lhe:
- José, vai para a cidade de Nazaré e estabelece ali tua residência.
XXVII. A Peste em Belém
Quando chegaram a Belém, havia uma proliferação de doenças graves e difíceis de serem curadas, que atacavam os olhos das crianças e lhes causavam a morte. Uma mulher, que tinha um filho atacado por esse mal, levou-o a Maria e encontrou-a banhando o Senhor Jesus.
A mulher disse-lhe:
- Maria, vê meu filho que sofre cruelmente.
Maria, ouvindo-a, disse-lhe:
- Pegue um pouco desta água com a qual eu lavei meu filho e espalha-a sobre o teu.
A mulher fez como lhe havia recomendado Maria e seu filho, depois de uma forte agitação, adormeceu. Quando acordou, estava completamente curado.
A mulher, cheia de alegria, foi até Maria, que lhe disse:
- Rende graças a Deus por ele haver curado o teu filho.
XXVIII. Outro Menino Agonizante
Essa mulher tinha uma vizinha cujo filho fora atingido pela mesma doença e cujos olhos estavam quase fechados. Ele gritava e chorava noite e dia. Aquela cujo filho havia sido curado disse-lhe:
- Por que não levas teu filho a Maria, como eu fiz, quando o meu estava prestes a morrer e ele foi curado pela água do banho de Jesus?
A mulher foi pegar também daquela água e, assim que ela derramou sobre seu filho, ele foi curado. Levou então seu filho em perfeita saúde para Maria, que lhe recomendou que rendesse graças a Deus e que não contasse a ninguém o que havia acontecido.
XXIX. O Menino no Forno
Havia na mesma cidade duas mulheres casadas com um mesmo homem e cada uma delas tinha um filho doente. Uma se chamava Maria e seu filho, Cleofás. Essa mulher levou seu filho a Maria, mãe de Jesus, e ofereceu uma bela toalha, dizendo-lhe:
- Maria, recebe de mim essa toalha e, em troca, dá-me uma das tuas fraldas.
Maria consentiu e a mãe de Cleofás confeccionou, com essa fralda, uma túnica, com a qual vestiu seu filho. Ele ficou curado e o filho de sua rival morreu no mesmo dia, o que causou profundo ressentimento entre essas duas mulheres.
Elas se encarregavam, em semanas alternadas, dos trabalhos caseiros e, um dia em que era vez de Maria, a mãe de Cleofás, ela estava ocupada aquecendo o forno para assar pão. Precisando de farinha, deixou seu filho perto do forno. Sua rival, vendo que a criança estava sozinha, pegou-a e jogou-a no forno em brasa e fugiu. Maria retornou logo em seguida, mas qual não foi o seu espanto, quando ela viu seu filho no meio do forno, rindo, pois ele havia subitamente esfriado, como se jamais houvesse sido aquecido. Ela suspeitou que sua rival o havia jogado ali. Tirou-o de lá, levou-o até a Virgem Maria e contou-lhe o que havia acontecido.
Maria disse-lhe:
- Cala-te, pois eu receio por ti se divulgares tais coisas!
Em seguida, a rival foi buscar água no poço e, vendo Cleofás brincando e percebendo que não havia ninguém por perto, pegou a criança e jogou-a no poço. Alguns homens que haviam vindo para tirar água viram a criança sentada na água, sem nenhum ferimento, e por meio de cordas tiraram-na de lá. Ficaram tão admirados com essa criança que renderam-lhe as mesmas homenagens devidas a um Deus.
Sua mãe, chorando, carregou-o até Maria e disse-lhe:
- Minha senhora, vê o que minha rival fez ao meu filho, jogando-o no poço. Ah, ela acabará, por certo, causando-lhe a morte!
Maria respondeu-lhe:
- Deus punirá o mal que te foi feito.
Alguns dias depois, a rival foi buscar água no poço e seus pés enroscaram-se na corda e ela caiu nele. Quando acorreram, acharam-na com a cabeça partida. Ela morreu, portanto, de uma forma funesta.
A palavra do sábio se cumpre em si:
- Cavaram um poço e jogaram a terra em cima, mas caíram no poço que eles mesmos haviam preparado.
XXX. Um Futuro Apóstolo
Uma outra mulher da mesma cidade tinha dois filhos, os dois doentes. Um morreu e o outro estava agonizando. Sua mãe tomou-o nos braços e levou-o até Maria.
Aos prantos, disse-lhe:
- Minha senhora, vem em meu auxílio e tem piedade de mim. Eu tinha dois filhos, acabo de perder um e vejo o outro a ponto de morrer. Imploro a misericórdia do Senhor.
E pôs-se a gritar:
- Senhor, tu és pleno em clemência e compaixão! Tu me deste dois filhos, me levaste um deles, pelo menos deixa-me o outro.
Maria, testemunha da sua extrema dor, sentiu pena e disse-lhe:
- Coloca teu filho na cama de meu filho e cobre-o com suas roupas.
Quando a criança foi colocada na cama, ao lado de Jesus, seus olhos já cerrados pela morte abriram-se e, chamando sua mãe em voz alta, pediu-lhe pão. Quando lhe deram, comeu-o.
Então sua mãe disse:
- Maria, eu sei que a virtude de Deus habita em ti, a ponto de teu filho curar as crianças que o tocam.
A criança que assim foi curada é o mesmo Bartolomeu se quem se fala no Evangelho.
XXXI. Uma Leprosa
Havia ainda no mesmo lugar uma leprosa que foi ter com Maria, mãe de Jesus, dizendo-lhe:
- Minha senhora, tem piedade de mim".
Maria quis saber:
- Que ajuda pedes tu? Queres ouro, prata ou queres te curar da lepra?
A mulher respondeu:
- Que podes fazer por mim?"
Maria disse:
- Espera um pouco, até que eu tenha banhado e posto meu filho na cama.
A mulher esperou e Maria, após o haver deitado, estendeu à mulher um vaso cheio de água do banho do seu filho e disse-lhe:
- Pega um pouco desta água e espalha-a sobre o teu corpo.
Assim que a doente obedeceu, curou-se e ela rendeu graças a Deus.
XXXII. Outra Leprosa
Ela partiu em seguida, após haver permanecido três dias junto de Maria, e foi para uma cidade onde morava um príncipe, que havia desposado a filha de um outro príncipe. Quando ele viu sua esposa, porém, percebeu entre seus olhos as marcas da lepra sob a forma de uma estrela e o seu casamento foi declarado nulo e não válido.
Essa mulher, vendo o desespero da princesa, perguntou-lhe a causa dessas lágrimas.
A princesa respondeu-lhe:
- Não me interrogues, pois a minha desgraça é tanta que eu não posso revelá-la a ninguém.
A mulher insistia em saber, dizendo que talvez conhecesse algum remédio.
Ela viu então as marcas da lepra entre os olhos da princesa.
- Eu também fui atingida por essa doença. Fui a Belém para tratar de negócios e lá entrei numa caverna onde vi uma mulher chamada Maria. Ela carregava uma criança que se chamava Jesus. Vendo-me atingida pela lepra, ela teve pena de mim e me deu um pouco da água na qual havia lavado o corpo de seu filho. Eu espalhei essa água sobre meu corpo e fui imediatamente curada.
A princesa disse-lhe então:
- Levanta-te, vem comigo e mostra-me Maria.
Ela foi, levando ricos presentes. Quando Maria a viu, disse:
- Que a misericórdia do Senhor Jesus esteja sobre ti.
Ela lhe deu um pouco da água na qual havia lavado seu filho. Assim que a princesa espalhou-a sobre o próprio corpo, ela se viu curada e rendeu graças ao Senhor, assim como todos os que ali estavam.
O príncipe, ao saber que sua esposa havia sido curada, recebeu-a, celebrou um segundo casamento, e rendeu graças a Deus.
XXXIII. Uma Jovem Endemoninhada
Havia, no mesmo lugar, uma jovem que Satã atormentava. O espírito maldito aparecia-lhe sob a forma de um dragão, que queria devorá-la. Ele já havia sugado todo o sangue, de maneira que ela se parecia com um cadáver. Todas as vezes em que ele se jogava sobre ela, ela gritava e, juntando as mãos sobre a cabeça, dizia:
- Desgraça, desgraça de mim, pois não existe ninguém que possa livrar-me deste horrível dragão. Seu pai, sua mãe e todos aqueles que a cercavam, testemunhas de sua infelicidade, entregavam-se à aflição e derramavam lágrimas, principalmente quando a viam chorar e gritar:
- Irmãos e amigos, não existirá ninguém que possa libertar-me deste monstro?
A princesa, que havia sido curada da lepra, ouvindo a voz dessa infeliz, subiu até o telhado de seu castelo e viu-a com as mãos unidas acima da cabeça, a verter copiosas lágrimas. Todos aqueles que a rodeavam estavam desolados.
Ela perguntou se a mãe dessa possuída vivia ainda. Quando lhe responderam que o seu pai e sua mãe estavam ambos vivos, ela disse:
- Tragam sua mãe até mim.
Quando esta chegou, ela lhe perguntou:
- É tua filha que está assim possuída?
A mãe, tendo respondido que sim, chorou, mas a princesa disse-lhe:
- Não revela o que vou te contar. Eu já fui uma leprosa, mas Maria, a mãe de Jesus Cristo, me curou. Se queres que tua filha tenha a mesma felicidade, leva-a a Belém e implora com fé a ajuda de Maria. Eu creio que voltarás cheia de alegria, trazendo tua filha curada.
Imediatamente a mãe levantou-se e partiu. Foi procurar Maria e expôs-lhe o estado de sua filha. Maria, após tê-la ouvido, deu-lhe um pouco da água, na qual ela havia lavado seu filho Jesus, e disse-lhe para derramá-la sobre o corpo da possuída.
Em seguida deu-lhe uma fralda do menino Jesus, acrescentando:
- Pega isto e mostra-o a teu inimigo, todas as vezes em que o vir.
Dizendo isso, despediu-as com suas bênçãos.
XXXIV. Outra Possessa
Após haver deixado Maria, elas retornaram à sua cidade. Quando veio o tempo no qual Satã costumava atormentá-la, ele lhe apareceu sob a forma de um grande dragão. Ao ver a sua aparência, a jovem foi tomada pelo pavor, mas sua mãe disse-lhe:
- Não temas, minha filha! Deixa que ele se aproxime mais de ti e mostre-lhe esta fralda que nos deu Maria e veremos o que ele poderá fazer.
Quando o espírito maligno, que havia tomado a forma de um dragão, estava bem perto, a doente, tremendo de medo, colocou sobre sua cabeça a fralda e desdobrou-a. De repente, dela saíram chamas que se dirigiam à cabeça e aos olhos do dragão.
Ouviu-se, então, uma voz que gritava:
- Que há entre ti e mim, ó Jesus, filho de Maria? Onde encontrarei um abrigo que me livre de ti?
Satã fugiu apavorado, abandonando essa jovem e nunca mais apareceu. Ela se viu curada e, grata, rendeu graças a Deus, assim como todos os que haviam presenciado esse milagre.
XXXV. Judas Iscariotes
Havia nessa mesma cidade uma outra mulher cujo filho era atormentado por Satã. Ele se chamava Judas e sempre que o espírito maligno apoderava-se dele, ele tentava morder todos os que estavam à sua volta. Se estivesse sozinho, mordia suas próprias mãos e membros. A mãe desse infeliz, ouvindo falar de Maria e de seu filho Jesus, foi com seu filho nos braços até Maria.
Nesse meio tempo, Tiago e José haviam trazido o menino Jesus para fora da casa, para que pudesse brincar com as outras crianças. Eles estavam sentados fora da casa e Jesus com eles. Judas aproximou-se também e sentou-se à direita de Jesus e, quando Satã começou a agitá-lo como sempre o fazia, ele tentou morder Jesus. Como não podia alcançá-lo, dava-lhe socos no lado direito, de forma que Jesus começou a chorar. Nesse momento, entretanto, Satã saiu dessa criança sob a forma de um cão enraivecido.
Essa criança era Judas Iscariotes, que mais tarde trairia Jesus. O lado em que ele havia batido foi o lado que os judeus trespassaram com a lança.
XXXVI. AS Estatuazinhas de Barro
Quando o Senhor Jesus havia completado o seu sétimo ano, ele brincava um dia com outras crianças de sua idade. Para divertir-se, eles faziam com terra molhada diversas imagens de animais, de lobos, de asnos, de pássaros, cada um elogiando seu próprio trabalho e esforçando-se para que fosse melhor que o de seus companheiros. Então o Senhor Jesus disse para as crianças:
- Ordenarei às figuras que eu fiz que andem e elas andarão.
As crianças perguntaram-lhe se ele era o filho do Criador e o Senhor Jesus ordenou às imagens que andassem e elas imediatamente andaram. Quando ele mandava voltar, elas voltavam. Ele havia feito figuras de pássaros que voavam, quando ele ordenava que voassem, e que paravam, quando ele dizia para parar. Quando ele lhes dava bebida e comida, eles comiam e bebiam.
Quando as crianças foram embora e contaram aos seus pais o que haviam visto, eles disseram:
- Fugi, daqui em diante, de sua companhia, pois ele é um feiticeiro! Deixai de brincar com ele!
XXXVII. As Cores do Tintureiro
Certo dia, quando brincava e corria com outras crianças, o Senhor Jesus passou em frente à loja de um tintureiro, que se chamava Salém. Havia nessa loja tecidos que pertenciam a um grande número de habitantes da cidade e que Salém se preparava para tingir de várias cores. Tendo Jesus entrado na loja, pegou todas as fazenda e jogou-as na caldeira. Salém virou-se e, vendo todas as fazendas perdidas, pôs-se a gritar e a repreender Jesus, dizendo:
- Que fizeste tu, ó filho de Maria? Prejudicaste a mim e a meus cidadãos. Cada um pediu uma cor diferente e tu apareceste e puseste tudo a perder.
O Senhor Jesus respondeu:
- Qualquer fazenda que queiras mudar a cor, eu mudo.
Ele se pôs a retirar as fazendas da caldeira e cada uma estava tingida da cor que desejava o tintureiro. Os judeus, testemunhando esse milagre, celebraram o poder de Deus.
XXXVIII. Jesus na Carpintaria
José ia por toda a cidade, levando com ele o Senhor Jesus. Chamavam-no para que fizesse portas, arcas e catres e o Senhor Jesus estava sempre com ele. E sempre que a obra de José precisava ser mais comprida ou mais curta, mais larga ou mais estreita, o Senhor Jesus estendia a mão e ela ficava exatamente do jeito que queria José, de forma que ele não precisava retocar nada com sua própria mão, pois ele não era muito hábil no ofício de marceneiro.
XXXIX. Uma Encomenda do Rei
Um dia, o rei de Jerusalém mandou chamá-lo e disse:
- Eu quero, José, que me faças um trono segundo as dimensões do lugar onde costumo sentar-me. José obedeceu e, pondo mãos à obra, passou dois anos no palácio para elaborar esse trono.
Quando ele foi colocado no lugar onde deveria ficar, perceberam que de cada lado faltavam dois palmos à medida fixada.
Então o rei ficou bravo com José, que temendo a raiva do monarca, não conseguiu comer e deitou-se em jejum.
O Senhor perguntou-lhe qual era a causa do seu receio e ele respondeu:
- É que a obra na qual trabalhei durante dois anos está perdida.
O Senhor Jesus respondeu-lhe:
- Não tenhas medo e não percas a coragem. Pegue este lado do trono e eu o outro, para que possamos dar-lhe a medida exata.
José fez o que havia lhe pedido o Senhor Jesus e cada um puxou para um lado. O trono obedeceu e ficou exatamente com a dimensão desejada.
Os assistentes, vendo esse milagre, ficaram estupefatos e deram graças a Deus.
Esse trono fora feito com uma madeira do tempo de Salomão, filho de Davi, e que era notável por seus nós, que representavam várias formas de figuras.
XL. Os Meninos
Num outro dia, o Senhor Jesus foi até a praça e vendo as crianças que se haviam reunido para brincar, juntou-se a elas. Essas, tendo-o visto, esconderam-se e o Senhor Jesus foi até uma casa e perguntou às mulheres que estavam à porta, onde as crianças haviam ido. Como elas responderam que não havia nenhuma delas na casa, o Senhor Jesus disse-lhes:
- Que vocês estão vendo sob este arco?
Elas responderam que eram carneiros com três anos de idade e o Senhor Jesus gritou:
- Saí, carneiros, e vinde em direção ao vosso pastor.
Imediatamente as crianças saíram, transformadas em carneiros, e saltavam ao seu redor.
As mulheres, tendo visto isso, foram tomadas de pavor e adoraram o Senhor Jesus, dizendo:
- Jesus, filho de Maria, nosso Senhor, tu és verdadeiramente o bom Pastor de Israel. Tem piedade de tuas servas que estão em tua presença e que não duvidam, Senhor, que tu vieste para curar e não para perder.
O Senhor respondeu que as crianças de Israel estavam entre os povos como os Etíopes.
As mulheres disseram:
- Senhor, conheces as coisas e nada escapa à tua infinita sabedoria. Pedimos e esperamos a tua misericórdia. Devolve a essas crianças sua antiga forma.
O Senhor Jesus disse, então:
- Vinde, crianças, para que possamos brincar.
Imediatamente, na presença das mulheres, os carneiros retomaram a aparência de crianças.
XLI. Jesus Rei
No mês do Adar, Jesus reuniu as crianças e colocou-se como o seu rei. Elas haviam estendido suas roupas no chão para fazê-lo sentar-se sobre elas e haviam colocado sobre sua cabeça uma coroa de flores. Como os satélites que acompanham um rei, elas se haviam enfileirado à sua direita e à sua esquerda. Se alguém passava por lá, as crianças faziam parar à força e diziam-lhe:
- Vem e adora o rei, para que obtenhas uma feliz viagem.
XLII. Simão, o Cananeu
Nisso chegaram alguns homens que carregavam uma criança em uma liteira.
Esse menino havia ido até a montanha com seus colegas para apanhar lenha e, tendo encontrado um ninho de perdiz, pôs a mão para retirar os ovos. Uma serpente, escondida no ninho, no entanto, mordeu-o e ele chamou os companheiros para socorrê-lo.
Quando chegaram, eles o encontraram estendido no chão e quase morto. Alguns familiares vieram e levaram-no à cidade. Ao chegaram ao local onde o Senhor Jesus estava sentado em seu trono como um rei, com outras crianças à sua volta, como sua corte, essas foram ao encontro dos que carregavam o moribundo e disseram-lhes:
- Vinde e saudai o rei!
Como eles não queriam aproximar-se por causa da tristeza que sentiam, as crianças traziam-nas à força. Quando estavam na frente do Senhor Jesus, ele perguntou-lhe por que estavam carregando aquela criança.
Responderam que uma serpente a havia mordido e o Senhor Jesus disse às crianças:
- Vamos juntos e matemos a serpente!
Os pais da criança que estava prestes a morrer suplicaram para que os deixassem ficar, mas elas responderam:
- Não ouvistes que o rei disse vamos e matemos a serpente? Devemos seguir suas ordens.
Apesar da sua oposição, eles retornaram à montanha, carregando a liteira. Quando chegaram perto do ninho, o Senhor Jesus disse às crianças:
- Não é aqui que se esconde a serpente?
Eles responderam que sim e a serpente, chamada pelo Senhor Jesus, saiu e submeteu-se a ele.
O Senhor disse-lhe:
- Vai e suga todo o veneno que espalhaste nas veias dessa criança.
A serpente, arrastando-se, sugou todo o veneno que ela havia inoculado e o Senhor, em seguida, amaldiçoou-a e, fulminada, morreu logo em seguida. Depois o Senhor Jesus tocou a criança com sua mão e ela foi curada.
Como ela se pusesse a chorar, o Senhor Jesus disse-lhe:
- Não chores, serás meu discípulo!
Essa criança foi Simão de Cananéia, de quem se faz menção no Evangelho.
XLIII. Jesus e Tiago
Num outro dia, José havia mandado seu filho Tiago para apanhar lenha e o Senhor Jesus se havia juntado a ele para ajudá-lo. Quando chegaram ao lugar onde ficava a lenha, Tiago começou a apanhá-la e eis que uma víbora mordeu-o e ele se pôs a gritar e a chorar. O Senhor Jesus, vendo-o naquele estado, aproximou-se e soprou o local da mordida. Tiago foi imediatamente curado.
XLIV. O Menino que Caiu e Morreu
Um dia, o Senhor Jesus estava brincando com outras crianças em cima de um telhado e uma delas caiu e morreu na hora. As outras fugiram e o Senhor Jesus ficou sozinho em cima do telhado. Então os pais do morto chegaram e disseram ao Senhor Jesus: ` - Foste tu que empurraste nosso filho do alto telhado.
Como ele negasse, eles repetiram mais alto:
- Nosso filho morreu e eis aqui quem o matou.
O Senhor Jesus respondeu:
- Não me acuseis de um crime do qual não tendes nenhuma prova. Perguntemos, porém, à própria criança o que aconteceu.
O Senhor Jesus desceu, colocou-se perto da cabeça do morto e disse-lhe em voz alta:
- Zeinon, Zeinon, quem foi que te empurrou do alto do telhado?
O morto respondeu:
- Senhor, não foste tu a causa da minha queda, mas foi o terror que me fez cair.
O Senhor recomendou aos presentes que prestassem atenção a essas palavras e todos eles louvaram a Deus por este milagre.
XLV. O Cântaro Quebrado
Maria havia mandado, um dia, o Senhor Jesus tirar água do poço. Quando ele havia cumprido a tarefa e colocava sobre a cabeça o cântaro cheio, ele partiu-se. O Senhor Jesus, tendo estendido o seu manto, levou para sua mãe a água recolhida e ela se admirou e guardou em seu coração tudo o que havia visto.
XLVI. Brincando com o Barro
Um dia, o Senhor Jesus estava na beira do rio com outras crianças. Haviam cavado pequenas valas para fazer escorrer a água, formando assim pequenas poças. O Senhor Jesus havia feito doze passarinhos de barro e os havia colocado ao redor da água, três de cada lado. Era um dia de Sabbath e o filho de Hanon, o Judeu, veio e vendo-os assim entretidos, disse-lhes:
- Como podeis, em um dia de Sabbath, fazer figuras com lama?"
Ele se pôs, então, a destruir tudo. Quando o Senhor Jesus estendeu as mãos sobre os pássaros que havia moldado, eles saíram voando e cantando. Em seguida, o filho de Hanon, o Judeu, aproximou-se da poça cavada por Jesus para destruí-la, mas a água desapareceu e o Senhor Jesus disse-lhe:
- Vê como está água secou? Assim será a tua vida.
E a criança secou.
XLVII. Uma Morte Repentina
Certa noite, o Senhor Jesus voltava para casa com José, quando uma criança passou correndo na sua frente e deu-lhe um golpe tão violente que o Senhor Jesus quase caiu. Ele disse a essa criança:
- Assim como tu me empurraste, cai e não levantes mais.
No mesmo instante, a criança caiu no chão e morreu.
XLVIII. Jesus e o Professor
Havia, em Jerusalém, um homem, chamado Zaqueu, que instruía os jovens. Ele disse a José:
- José, por que não me envias Jesus para que ele aprenda as letras?
José concordou e também Maria. Levaram, pois, a criança para o professor e assim que ele o viu, escreveu o alfabeto e pediu-lhe que pronunciasse Aleph. Quando ele o fez, pediu-lhe para dizer Beth. O Senhor Jesus disse-lhe:
- Dize-me primeiro o que significa Aleph e aí então eu pronunciarei Beth.
O professor preparava-se para chicoteá-lo, mas o Senhor Jesus pôs-se a explicar o significado das letras Aleph e Beth, quais as letras de linhas retas, quais as oblíquas, as que tinhas desenho duplo, as que tinham pontos, aquelas que não tinham e porque tal letra vinha antes da outra, enfim, ele disse muitas coisas que o professor jamais ouvira e que não havia lido em livro algum.
O Senhor Jesus disse ao professor:
- Presta atenção ao que vou te dizer!
E pôs-se a recitar clara e distintamente Aleph, Beth, Ghimel, Daleth, até o fim do alfabeto. O mestre ficou admirado e disse:
- Creio que esta criança nasceu antes de Noé.
Virando-se para José, acrescentou:
- Tu o conduziste para que eu o instruísse, mas esta criança sabe mais que todos os doutores.
Depois disse a Maria:
- Teu filho não precisa de ensinamentos.
XLIX. O Professor Castigado
Conduziram-no, em seguida, a um professor mais sábio e assim que o viu. ordenou:
- Dize Aleph!
Quando o Senhor Jesus disse Aleph, o professor pediu-lhe que pronunciasse Beth. O Senhor Jesus respondeu-lhe:
- Dize-me o que significa a letra Aleph e então eu pronunciarei Beth.
O mestre, irritado, levantou a mão para bater nele, mas sua mão secou instantaneamente e ele morreu. Então José disse a Maria:
- Daqui por diante, não devemos mais deixar o menino sair de casa, pois qualquer um que se oponha a ele é fulminado pela morte.
L. Jesus, o Mestre
Quando contava doze anos de idade, levaram Jesus a Jerusalém por ocasião da festa e, quando ele terminou, eles voltaram, mas o Senhor Jesus permaneceu no templo, em meio aos doutores, aos velhos e aos mais sábios dos filhos de Israel, que ele interrogava sobre diferentes pontos da ciência, mas também respondia-lhes as perguntas.
Jesus perguntou-lhes:
- De quem é filho o Messias?"
Eles responderam:
- Este é o filho de Davi.
Jesus respondeu:
- Por que então Davi, movido pelo Espírito Santo, chama-o Senhor, quando diz que o Senhor disse ao meu Senhor: senta-te à minha direita para que coloque teus inimigos aos teus pés'?"
Um importante rabino interrogou-o, dizendo:
- Leste os livros sagrados?
O Senhor Jesus respondeu:
- Eu li os livros e o que eles contêm.
Dito isso, explicou-lhes as Escrituras, a lei, os preceitos, os estatutos, os mistérios que estão contidos nos livros das profecias e que a inteligência de nenhuma criatura pode compreender. E o principal entre os doutores disse:
- Eu jamais vi ou ouvi tamanha instrução. Quem credes que seja essa criança?
LI. Jesus e o Astrônomo
Havia lá um filósofo, astrônomo sábio, que perguntou ao Senhor Jesus se ele havia estudado a ciência dos astros. Jesus, respondendo-lhe, expôs o número de esferas e de corpos celestes, sua natureza e sua oposição, seu aspecto trinário, quaternário e sêxtil, sua progressão e seu movimento de leste para oeste, o cômputo e o prognóstico e outras coisas que a razão de nenhum homem escrutou.
LII. Jesus e o Médico
Havia entre eles um filósofo muito sábio em medicina e ciências naturais e quando ele perguntou ao Senhor Jesus se ele havia estudado a medicina, este expôs-lhe a física, a metafísica, a hiperfísica e a hipofísica, as virtudes do corpo, os humores e seus efeitos, o número de membros e de ossos, de secreções, de artérias e de nervos, as temperaturas, calor e seco, frio e úmido e quais as suas influências, quais as atuações da alma no corpo, suas sensações e suas virtudes, a faculdade da palavra, da raiva, do desejo, sua composição e dissolução e outras coisas que a inteligência de nenhuma criatura jamais alcançou. Então o filósofo ergueu-se e adorou o Senhor Jesus, dizendo:
- Senhor, daqui em diante serei teu discípulo e ter servo.
LIII. Jesus É Encontrado
Enquanto Jesus assim falava, Maria apareceu, junto com José, pois fazia três dias que procuravam por Jesus. Vendo-o sentado entre os doutores, interrogando-os e respondendo-lhe alternadamente, ela lhe disse:
- Meu filho, por que agiste assim conosco? Teu pai e eu te procuramos e tua ausência causou-nos muita aflição.
Ele respondeu:
- Por que me procuráveis? Não sabíeis que convinha que eu permanecesse na casa de meu Pai? Eles não entendiam as palavras que ele lhes dirigia. Então os doutores perguntaram a Maria se ele era seu filho e tendo ela respondido que sim, eles exclamaram:
- Ó feliz Maria, que deste à luz tal criança.
Ele voltou com os pais para Nazaré e ele lhes era submisso em tudo. Sua mãe conservava todas as suas palavras em seu coração e o Senhor Jesus crescia em tamanho, em sabedoria e em graça diante de Deus e diante dos homens.
LIV. Via Oculta
Ele começou desde esse dia a esconder os seus segredos e seus mistérios, até que completou trinta anos, quando seu Pai, revelando publicamente sua missão às margens do Jordão, fez soar, do alto do céu, essas palavras:
- É meu filho bem-amado no qual coloquei toda minha complacência.
Foi quando o Espírito Santo apareceu sob a forma de uma pomba branca.
LV. Doxologia
É a ele que humildemente adoramos, pois ele nos deu a existência e a vida. Ele nos fez sair das entranhas de nossas mães, tomou, por nós, o corpo de homem e nos redimiu, cobrindo-nos com sua misericórdia eterna e concedendo-nos a graça do seu amor e de sua bondade.
A ele, portanto, glória, poder, louvores e domínio por todos os séculos.
Que assim seja!

O Proto-Evangelho de Thiago

INTRODUÇÃO
Apresentamos, numa versão modernizada, textos considerados apócrifos e que trazem importantes informações a respeito da vida de Cristo, preenchendo lacunas até então criadas pelos Evangelhos constantes da Bíblia.
Estes textos retratam os acontecimentos que precederam o nascimento de Cristo, contando a história de Maria e da natividade, além da história da infância do Senhor Jesus, no Evangelho de Tomé. Há também excertos do Livro da Infância do Salvador, onde a vida de Jesus, dos cinco aos doze anos, é retratada.
Vale lembrar que numa outra obra desta coleção, o Evangelho de São Pedro, a Infância de Cristo é apresentada na sua íntegra, mostrando fatos e passagens importantes da vida do Senhor Jesus, nos seus primeiros anos.
Os textos chamados de apócrifos são aqueles não incluídos pela Igreja no Cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas.
Como foi feita essa seleção, até hoje a Igreja não explicou adequadamente. Se inspirados ou não, são relatos dos primeiros tempos do Cristianismo, importantes para quem deseja conhecer a fundo essa religião.
A NATIVIDADE
Este livro, apesar de conhecido como o Evangelho de Tiago ou Proto-Evangelho de Tiago, tem sua autoria desconhecida. Publicado em fins do século XVI, não se sabe exatamente ainda qual a época em que foi escrito, mas os maiores estudiosos dos Livros Apócrifos afirmam que é anterior aos Quatro Evangelhos Canônicos, servindo, em muitos aspectos, como base para estes.
O Proto-Evangelho de Tiago conta a vida de Maria, seu nascimento de Ana e Joaquim, considerados estéreis, de como foi sua educação no Templo até a sua puberdade, como se deu a escolha de seu futuro esposo, José, velho, viúvo e pai de seis filhos: Judas, Josetos, Tiago, Simão, Lígia e Lídia. Continua, narrando a concepção e a virgindade, que se manteve após dar à luz o Salvador, numa caverna. Fala da estrela misteriosa e radiante, que guiou os magos até a caverna e da nuvem de luz que pairou sobre o local, na hora em que o Senhor Jesus nascia.
Narra, também, a participação da parteira que testemunhou a virgindade de Maria, após o nascimento do Senhor E cita o testemunho de uma parteira que constatou a virgindade de Maria após dar à luz.
A INFÂNCIA DE CRISTO SEGUNDO TIAGO
I
Segundo narram as memórias das doze tribos de Israel, havia um homem muito rico, de nome Joaquim, que fazia suas oferendas em quantidade dobrada, dizendo:
- O que sobra, ofereça-o para todo o povoado e o devido na expiação de meus pecados será para o Senhor, a fim de ganhar-lhe as boas graças.
Chegou a grande festa do Senhor, na qual os filhos de Israel devem oferecer seus donativos. Rubem se pôs à frente de Joaquim, dizendo-lhe:
- Não te é lícito oferecer tuas dádivas, enquanto não tiveres gerado um rebento em Israel.
Joaquim mortificou-se tanto que se dirigiu aos arquivos de Israel, com intenção de consultar o censo genealógico e verificar se, porventura, teria sido ele o único que não havia tido prosperidade em seu povoado.
Examinando os pergaminhos, constatou que todos os justos haviam gerado descendentes. Lembrou-se, por exemplo, de como o Senhor deu Isaac ao patriarca Abraão, em seus derradeiros anos de vida.
Joaquim ficou muito atormentado, não procurou sua mulher e se retirou para o deserto. Ali armou sua tenda e jejuou por quarenta dias e quarenta noites, dizendo:
- Não sairei daqui nem sequer para comer ou beber, até que não me visite o Senhor meu Deus. Que minhas preces me sirvam de comida e de bebida.
II
Ana lamentava-se e gemia dolorosamente, dizendo:
- Chorarei minha viuvez e minha esterilidade.
Chegou, porém, a grande festa do Senhor e disse-lhe Judite, sua criada:
- Até quando vais humilhar tua alma? Já é chegada a festa maior e não te é lícito entristecer-te. Toma este lenço de cabeça, que me foi dado pela dona da tecelagem, já que não posso cingir-me com ele por ser eu de condição servil e levar ele ao selo real.
Disse Ana:
- Afasta-te de mim, pois que não fiz tal coisa e, além do mais, o Senhor já me humilhou em demasia para que eu o use. A não ser que algum malfeitor o haja dado e tenhas vindo para fazer-me também cúmplice do pecado.
Replicou Judite:
- Que motivo tenho eu para maldizer-te, se o Senhor já te amaldiçoou não te dando fruto de Israel?
Ana, ainda que profundamente triste, despiu suas vestes de luto, cingiu-se com um toucado, vestiu suas roupas de bodas e desceu, na hora nona, ao jardim para passear. Ali viu um loureiro, assentou-se à sua sombra e orou ao Senhor, dizendo:
- Ó Deus de nossos pais! Ouve-me e bendize-me da maneira que bendisseste o ventre de Sara, dando-lhe como filho Isaac!
III
Tendo elevado seus olhos aos céus, viu um ninho de passarinhos no loureiro e novamente lamentou-se dizendo:
- Ai de mim! Por que nasci e em que hora fui concebida? Vim ao mundo para ser como terra maldita entre os filhos de Israel. Estes me cumularam de injúrias e me escorraçaram do templo de Deus. Ai de mim! A quem me assemelho eu? Não às aves do céu, pois elas são fecundas em tua presença, Senhor. Ai de mim! A quem me pareço eu? Não às bestas da terra, pois que até esses animais irracionais são prolíficos ante teus olhos, Senhor. Ai de mim! A quem me posso comparar? Nem sequer a estas águas, porque até elas são férteis diante de ti, Senhor. Ai de mim! A quem me igualo eu? Nem sequer a esta terra, porque ela também é fecundada, dando seus frutos na ocasião própria e te bendiz, Senhor.
IV
Eis que se lhe apresentou o anjo de Deus, dizendo-lhe:
- Ana, Ana, o Senhor escutou teus rogos! Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo o mundo.
Ana respondeu:
- Viva o Senhor meu Deus, que, se chegar a ter algum fruto de bênção, seja menino ou menina, levá-lo-ei como oferenda ao Senhor e estará a seu serviço todos os dias de sua vida.
Então vieram a ela dois mensageiros com este recado:
- Joaquim, teu marido, está de volta com seus rebanhos, pois que um anjo de Deus desceu até ele e lhe disse que o Senhor escutou seus rogos e que Ana, sua mulher, vai conceber em seu ventre.
Tendo saído Joaquim, mandou que seus pastores lhe trouxessem dez ovelhas sem mancha.
Disse ele:
- Estas serão para o Senhor.
Mandou, então separar doze novilhas de leite, dizendo:
- Estas serão para os sacerdotes e para o sinédrio.
Finalmente, mandou apartar cem cabritos para todo o povoado.
Ao chegar Joaquim com seus rebanhos, estava Ana à porta e, ao vê-lo chegar, pôs-se a correr e atirou-se ao seu pescoço dizendo:
- Agora vejo que Deus me bendisse copiosamente, pois, sendo viúva, deixo de sê-lo e, sendo estéril, vou conceber em meu ventre.
Então Joaquim repousou naquele dia em sua casa.
V
No dia seguinte, ao ir oferecer sua dádivas ao Senhor, dizia para consigo mesmo:
- Saberei se Deus me vai ser favorável se eu chegar a ver o éfode do sacerdote.
Ao oferecer o sacrifício, observou o éfode do sacerdote, quando este se acercava do altar de Deus, e, não encontrando pecado algum em sua consciência, disse:
- Agora vejo que o Senhor houve por bem perdoar todos os meus pecados.
Desceu Joaquim justificado do templo e foi para casa. O tempo de Ana cumpriu-se e no nono mês deu à luz.
Perguntou à parteira:
- A quem dei à luz?
A parteira respondeu:
- Uma menina.
Então Ana exclamou:
- Minha alma foi enaltecida - e reclinou a menina no berço.
Ao fim do tempo marcado pela lei, Ana purificou-se, deu o peito à menina e pôs-lhe o nome de Maria.
VI
Dia a dia a menina ia robustecendo-se. Ao chegar aos seis meses, sua mãe deixou-a só no chão, para ver se sustentava-se de pé. Ela, depois de andar sete passos, voltou ao regaço de sua mãe. Esta levantou-se, dizendo:
- Salve o Senhor! Não andarás mais por este solo, até que te leve ao templo do Senhor.
Fez-lhe um oratório em sua casa e não consentiu que nenhuma coisa vulgar ou impura passasse por suas mãos. Chamou, além disso, umas donzelas hebréias, todas virgens, para que a entretivessem.
Quando a menina completou um ano, Joaquim deu um grande banquete, para o qual convidou os sacerdotes, os escribas, o sinédrio e todo o povo de Israel. Apresentou a menina aos sacerdotes, que a abençoaram assim:
- Ó Deus de nossos pais, bendiz esta menina e dá-lhe um nome glorioso e eterno por todas as gerações.
Ao que todo o povo respondeu:
- Assim seja, assim seja! Amém!
Apresentou-a também Joaquim aos príncipes e aos sacerdotes e estes a abençoaram assim:
- Ó Deus Altíssimo, põe teus olhos nesta menina e outorga-lhe uma bênção perfeita, dessas que excluem as ulteriores.
Sua mãe levou-a ao oratório de sua casa e deu-lhe o peito. Compôs, então, um hino ao Senhor Deus, dizendo:
- Entoarei um cântico ao Senhor meu Deus, porque me visitaste, afastaste de mim o opróbrio de meus inimigos e me deste um fruto santo, que é único e múltiplo a seus olhos. Quem dará aos filhos de Rubem a notícia de que Ana está amamentando? Ouvi, ouvi, ó Doze Tribos de Israel: Ana está amamentando!
Tendo deixado a menina para que repousasse na câmara onde havia o oratório, saiu e pôs-se a servir os comensais. Estes, uma vez terminada a ceia, saíram regozijando-se e louvando ao Deus de Israel.
VII
Entretanto, os meses iam-se passando para a menina. Ao fazer dois anos, disse Joaquim a Ana:
- Levemo-la ao templo do Senhor para cumprir a promessa que fizemos, para que Senhor não a reclame e nossa oferenda se torne inaceitável a seus olhos.
Ana respondeu:
- Esperamos, todavia, até que complete três anos, para que a menina não tenha saudades de nós.
Joaquim respondeu:
- Esperaremos.
Ao chegar aos três anos, disse Joaquim:
- Chama as donzelas hebréias que não têm mancha e que tomem, duas a duas, uma candeia acesa e a acompanhem, para que a menina não olhe para trás e seu coração seja cativado por alguma coisa fora do templo de Deus.
Assim fizeram enquanto iam subindo ao templo de Deus. Lá recebeu-a o sacerdote, o qual, depois de tê-la beijado, abençoou-a e exclamou:
- O Senhor engrandeceu teu nome diante de todas as gerações, pois que, no final dos tempos, manifestará em ti sua redenção aos filhos de Israel.
Fê-la sentar-se no terceiro degrau do altar. O Senhor derramou graças sobre a menina, que dançou cativando toda a casa de Israel.
VIII
Saíram, então, seus pais, cheios de admiração, louvando ao Senhor Deus porque a menina não havia olhado para trás. Maria permaneceu no templo como uma pombinha, recebendo alimento pelas mãos de um anjo.
Ao completar doze anos, os sacerdotes reuniram-se para deliberar, dizendo:
- Eis que Maria cumpriu doze anos no templo do Senhor. Que faremos para que ela não chegue a manchar o santuário?
Disseram ao sumo sacerdote:
- Tu que tens o altar ao teu cargo, entra e ora por ela. O que o Senhor te disser, isso será o que haveremos de fazer.
O sumo sacerdote, cingindo-se com o manto das doze sinetas, entrou no Santo dos Santos e orou por ela. Eis que um anjo do Senhor apareceu, dizendo-lhe:
- Zacarias, Zacarias, sai e reúne a todos os viúvos do povoado. Que cada um venha com um bastão e o daquele em que o Senhor fizer um sinal singular, deste será ela a esposa.
Saíram os arautos por toda a região da Judéia e, ao soar a trombeta do Senhor, todos acudiram.
IX
José, deixando de lado sua acha, uniu-se a eles. Uma vez que se juntaram todos, tomaram cada qual seu bastão e puseram-se a caminho, à procura do sumo sacerdote. Este tomou todos os bastões, entrou no templo e pôs-se a orar. Terminadas as suas preces, tomou de novo os bastões e os entregou, mas em nenhum deles apareceu sinal algum. Porém, ao pegar José o último, eis que uma pomba saiu dele e se pôs a voar sobre sua cabeça. Então o sacerdote disse:
- A ti coube a sorte de receber sob tua custódia a Virgem do Senhor.
José replicou:
- Tenho filhos e sou velho, enquanto que ela é uma menina. Não gostaria de ser objeto de zombaria por parte dos filhos de Israel.
Então tornou o sacerdote:
- Teme ao Senhor teu Deus e tem presente o que fez Ele com Datan, Abiron e Corê, de como abriu-se a terra e foram sepultados por sua rebelião. Teme agora tu também, José, para que não aconteça o mesmo a tua casa.
Ele, cheio de temor, recebeu-a sob proteção. Depois, disse-lhe:
- Tomei-te do templo. Deixo-te agora em minha casa e vou continuar minhas construções. Logo voltarei. O Senhor te guardará.
X
Os sacerdotes, então, reuniram-se e concordaram em fazer um véu para o templo do Senhor.
O sumo sacerdote disse:
- Chama algumas donzelas sem mancha, da tribo de Davi.
Os ministros se foram e, depois de terem procurado, encontraram sete virgens. Então o sacerdote lembrou-se de Maria, a jovenzinha que, sendo de estirpe davídica, se conservava imaculada aos olhos de Deus. Os emissários foram buscá-la.
Depois de as terem introduzido no templo, disse o sacerdote:
- Vejamos qual há de bordar o ouro, o amianto, o linho, a seda, o zircão, o escarlate e a verdadeira púrpura.
O escarlate e a verdadeira púrpura couberam a Maria que, tomando-as, foi para casa.
Naquela época, Zacarias ficou mudo, sendo substituído por Samuel, até quando pôde falar novamente. Maria tomou em suas mãos o escarlate e pôs-se a tecê-lo.
XI
Certo dia, pegou Maria um cântaro e foi enchê-lo de água. Eis que ouviu uma voz que lhe dizia:
- Deus te salve, cheia de graça! O Senhor está contigo, bendita és entre as mulheres!
Ela olhou a sua volta, à direita, à esquerda, para ver de onde vinha aquela voz. Tremendo, voltou para casa, deixou a ânfora, pegou a púrpura, sentou-se no divã e pôs-se a tecê-la. Logo um anjo do Senhor apresentou-se diante dela, dizendo:
- Não temas, Maria, pois alcançaste graça ante o Senhor onipotente e vais conceber por Sua palavra!
Ela, ao ouví-lo, ficou perplexa e disse consigo mesma:
- Deverei eu conceber por virtude de Deus vivo e haverei de dar à luz como as demais mulheres?
Ao que lhe respondeu o anjo:
- Não será assim, Maria, pois que a virtude do Senhor te cobrirá com sua sombra. Depois, o fruto santo que deverá nascer de ti será chamado de Filho do Altíssimo. Chamar-lhe-ás Jesus, pois Ele salvará seu povo de suas iniqüidades. Então, disse Maria:

- Eis aqui a escrava do Senhor em Sua presença. Que isto aconteça a mim conforme Sua palavra.
XII
Concluído seu trabalho com a púrpura e o escarlate, levou-o ao sacerdote. Este a abençoou dizendo:
- Maria, o Senhor enaltecer seu nome e serás bendita entre todas as gerações da terra.
Cheia de alegria, Maria foi à casa de sua parente Isabel. Chamou-a da porta e, ao ouví-la, Isabel largou o escarlate, correu para a porta, abriu-a e, vendo Maria, louvou-a dizendo:
- Que fiz eu para que a mãe do meu Senhor venha a minha casa? Pois saiba que o fruto que carrego em meu ventre se pôs a pular dentro de mim, como que para bendizer-se.
Maria havia se esquecido dos mistérios que o anjo Gabriel lhe comunicara, elevou os olhos aos céus e disse:
- Quem sou eu, Senhor, para que todas as gerações me bendigam?
Passou três meses em casa de Isabel. Dia a dia seu ventre aumentava e, cheia de temor, pôs-se a caminho de casa e escondia-se dos filhos de Israel. Quando sucederam essas coisas, ela contava dezesseis anos.
XIII
Ao chegar Maria ao sexto mês de gravidez, voltou José de suas construções e, ao entrar em casa, deu-se conta de que ela estava grávida. Então, feriu seu próprio rosto, jogou-se no chão sobre uma manta e chorou amargamente, dizendo:
- Como é que me vou apresentar agora diante do meu Senhor? E que oração direi eu agora por esta donzela, pois que a recebi virgem do templo do Senhor e não a soube guardar? Será que a história de Adão se repetiu comigo? Assim como no instante em que ela estava glorificando a Deus veio a serpente e, ao encontrar Eva sozinha, a enganou, o mesmo me aconteceu.
Levantando-se, José chamou Maria e disse-lhe:
- Predileta como eras de Deus, como foste capaz de fazer isso? Acaso te esqueceste do Senhor teu Deus? Com pudeste vilipendiar tua alma, tu que te criaste no Santo dos Santos e recebeste alimento das mãos de um anjo?
Ela chorou amargamente dizendo:
- Sou pura e não conheço varão algum.
Replicou José:
- De onde, pois, provém o que carregas no seio?
Ao que Maria respondeu:
- Pelo Senhor, meu Deus, eu juro que não sei como aconteceu.
XIV
José encheu-se de temor, retirou-se da presença de Maria e pôs-se a pensar sobre o que faria com ela. Dizia consigo próprio:
- Se escondo seu erro, contrario a lei do Senhor. Se a denuncio ao povo de Israel, temo que o que acontecer a ela se deva a uma intervenção dos anjos e venha a entregar à morte uma inocente. Como deverei proceder, pois? Mandá-la embora às escondidas.

Enquanto isso, caiu a noite. Eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo-lhe:
- Não temas por esta donzela, pois o que ela carrega em suas entranhas é fruto do Espírito Santo. Dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, pois que ele há de salvar seu povo dos pecados.
Ao despertar, José levantou-se, glorificou a Deus de Israel por haver-lhe concedido tal graça e continuou guardando Maria.
XV
Por essa ocasião, veio à casa de José um escriba chamado Anás, que lhe disse:
- Por que não compareceste à nossa reunião?
Respondeu-lhe José:
- Estava cansado da caminhada e decidi repousar este primeiro dia.
Ao voltar-se, Anás deu-se conta da gravidez de Maria.
Então, correu ao sacerdote, dizendo-lhe:
- Esse José, por quem respondes, cometeu uma falta grave.
- Que queres dizer com isso? - perguntou o sacerdote. Ao que respondeu Anás:
- Pois violou aquela virgem que recebeu do templo de Deus, com fraude de seu casamento e sem manifestá-lo ao povo de Israel.
Disse o sacerdote:
- Estás certo de que foi José que fez tal coisa?
Replicou Anás:
- Envia uma comissão e te certificarás de que a donzela está realmente grávida.
Saíram os emissário e encontraram-na tal qual havia dito Anás. Por isso levaram-na, juntamente com José, ante o tribunal.
O sacerdote iniciou, dizendo:
- Maria, como fizeste tal coisa? Que te levou a vilipendiar tua alma e esquecer-te do Senhor teu Deus? Tu que te criaste no Santo dos Santos, que recebias alimento das mãos de um anjo, que escutaste os hinos e que dançavas na presença de Deus? Como fizeste isso?
Ela se pôs a chorar amargamente, dizendo:
- Juro pelo Senhor meu Deus que estou pura em sua presença e que não conheci varão.
Então o sacerdote dirigiu-se a José, perguntando-lhe:
- Por que fizeste isso?
Replicou José:
- Juro pelo Senhor meu Deus, que me encontro puro com relação a ela.
Acrescentou o sacerdote:
- Não jures em falso! Dize a verdade! Usaste fraudulentamente o matrimônio e não o deste a conhecer ao povo de Israel. Não abaixaste tua cabeça sob a mão poderosa de Deus, por quem sua descendência havia sido bendita.
José guardou silêncio.
XVI
- Devolve, pois - continuou o sacerdote, - a virgem que recebeste do templo do Senhor.
José ficou com os olhos marejados em lágrimas. Acrescentou ainda o sacerdote:
- Farei com que bebais da água da prova do Senhor e ela vos mostrará, diante de vossos próprios olhos, vossos pecados.
Tomando da água, fez José bebê-la, enviando-o em seguida à montanha, de onde voltou são e salvo. Fez o mesmo com Maria, enviando-a também à montanha, mas ela voltou sã e salva.
Toda a cidade encheu-se de admiração ao ver que não havia pecado neles.
Disse o sacerdote:
- Posto que o Senhor não declarou vosso pecado, tampouco irei condenar-vos.
Então despediu-os. Tomando Maria, José voltou para casa cheio de alegria e louvado ao Deus de Israel.
XVII
Veio uma ordem do imperador Augusto para que se fizesse o censo de todos os habitantes de Belém da Judéia.
Disse José:
- A meus filhos posso recensear, mas que farei desta donzela? Como vou incluí-la no censo? Como minha esposa? Envergonhou-me. Como minha filha? Mas já sabem todos os filhos de Israel que não é! Este é o dia do Senhor, que se faça a sua vontade.
Selando sua asna, fez com que Maria se acomodasse sobre ela. Enquanto um de seus filhos ia à frente, puxando o animal pelo cabresto, José os acompanhava. Quando estavam a três milhas de distância de Belém, José virou-se para Maria e viu que ela estava triste.
Disse consigo mesmo:
- Deve ser a gravidez que lhe causa incômodo.
Ao voltar-se novamente, encontrou-a sorrindo e indagou-lhe:
- Maria, que acontece, pois que algumas vezes te vejo sorridente e outras triste?
Ela lhe disse:
- É que se apresentam dois povos diante de meus olhos: um que chora e se aflige e outro que se alegra e se regozija.
Ao chegar à metade do caminho, disse Maria a José:
- Desça-me, porque o fruto de minhas entranhas luta por vir à luz.
Ele a ajudou a apear da asna, dizendo-lhe:
- Aonde poderia eu levar-te para resguardar teu pudor, já que estamos em campo aberto?
XVIII
Encontrando uma caverna, levou-a para dentro e, havendo deixado seus filhos com ela, foi buscar uma parteira na região de Belém.
Eis que José encontrou-se andando, mas não podia avançar. Ao levantar seus olhos para o espaço, pareceu lhe ver como se o ar estivesse estremecido de assombro. Quando fixou vista no firmamento, encontrou-o estático e os pássaros do céu, imóveis. Ao dirigir seu olhar à terra, viu um recipiente no solo e uns trabalhadores sentados em atitude de comer, com suas mãos na vasilha. Os que pareciam comer, na realidade não mastigavam, e os que estavam em atitude de pegar a comida, tampouco a tiravam do prato. Finalmente, os que pareciam levar os manjares à boca, não o faziam, ao contrário, tinham seus rostos voltados para cima.
Também havia umas ovelhas que estavam sendo tangidas, mas não davam um passo. Estavam paradas. O pastor levantou sua destra para bater-lhes com um cajado, mas parou sua mão no ar.
Ao dirigir seu olhar à corrente do rio, viu como uns cabritinhos punham nela seus focinhos, mas não bebiam. Em uma palavra, todas as coisas estavam afastadas, por uns instantes, de seu curso normal.
XIX
Então uma mulher que descia da montanha disse-lhe:
- Aonde vais?
Ao que ele respondeu:
- Ando procurando uma parteira hebréia.
Ela replicou:
- Mas és de Israel?
Ele respondeu:
- Sim.
- E quem é a que está dando à luz na caverna?
- É minha esposa.
- Então, não é tua mulher?
Ele respondeu:
- É Maria, a que se criou no templo do Senhor, e ainda que me tivesse sido dada por mulher, não o é, pois que concebeu por virtude do Espírito Santo.
Insistiu a parteira:
- Isso é verdade?
José respondeu:
- Vem e verás.
Então a parteira se pôs a caminho junto com ele. Ao chegar à gruta, pararam, e eis que esta estava sombreada por uma nuvem luminosa.
Exclamou a parteira:
- Minha alma foi engrandecida, porque meus olhos viram coisas incríveis, pois que nasceu a salvação para Israel. De repente, a nuvem começou a sair da gruta e dentro brilhou uma luz tão grande que seus olhos não podiam resistir. Esta, por um momento, começou a diminuir tanto que deu para ver o menino que estava tomando o peito da mãe, Maria. A parteira então deu um grito, dizendo:
- Grande é para mim o dia de hoje, já que pude ver com meus próprios olhos um novo milagre.
Ao sair a parteira da gruta, veio ao seu encontro Salomé.
- Salomé, Salomé! - exclamou. - Tenho de te contar uma maravilha nunca vista. Uma virgem deu à luz; coisa que, como sabes, não permite a natureza humana.
Salomé replicou:
- Pelo Senhor, meus Deus, não acreditarei em tal coisa, se não me for dado tocar com os dedos e examinar sua natureza.
XX
Havendo entrado a parteira, disse a Maria:
- Prepara-te, porque há entre nós uma grande querela em relação a ti.
Salomé, pois, introduziu seu dedo em sua natureza, mas, de repente, deu um grito, dizendo:
- Ai de mim! Minha maldade e minha incredulidade é que têm a culpa! Por descrer do Deus vivo, desprende-se de meu corpo minha mão carbonizada.
Dobrou os joelhos diante do Senhor, dizendo:
- Ó Deus de nossos pais! Lembra-te de mim, porque sou descendente de Abraão, Isaac e Jacó! Não faças de mim um exemplo para os filhos de Israel! Devolve-me curada, porém, aos pobres, pois que tu sabes, Senhor, que em teu nome exercia minhas curas, recebendo de ti meu salário!
Apareceu um anjo do céu, dizendo-lhe:
- Salomé, Salomé, Deus escutou-te. Aproxima tua mão do menino, toma-o e haverá para ti alegria e prazer.
Acercou-se Salomé e o tomou, dizendo:
- Adorar-te-ei, porque nasceste para ser o grande Rei de Israel.
De repente, sentiu-se curada e saiu em paz da gruta. Nisso ouviu uma voz que dizia:
- Salomé, Salomé, não contes as maravilhas que viste até estar o menino em Jerusalém.
XXI
José dispôs-se a partir para Judéia. Por essa ocasião, sobreveio um grande tumulto em Belém, pois vieram um magos dizendo:
- Aonde está o recém-nascido Rei dos Judeus, pois vimos sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo?
Herodes, ao ouvir isso, perturbou-se. Enviou seus emissários aos magos e convocou os príncipes e os sacerdotes, fazendo-lhes esta pergunta:
- Que está escrito em relação ao Messias? Aonde ele vai nascer?
Eles responderam:
- Em Belém da Judéia, segundo rezam as escrituras. Com isso, despachou-os e interrogou os magos com estas palavras:
- Qual é o sinal que vistes em relação ao nascimento desse rei?
Responderam-lhes os magos:
- Vimos um astro muito grande, que brilhava entre as demais estrelas e as eclipsava, fazendo-as desaparecer. Nisso soubemos que a Israel havia nascido um rei e viemos com a intenção de adorá-lo.
Replicou Herodes:
- Ide e buscai-o, para que também possa eu ir adorá-lo!
Naquele instante, a estrela que haviam visto no Oriente voltou novamente a guiá-los, até que chegaram à caverna e pousou sobre a entrada dela. Vieram, então, os magos a ter com o Menino e Sua mãe, Maria, e tiraram oferendas de seus cofres: ouro, incenso e mirra.
Depois, avisados por um anjo para que não entrassem na Judéia, voltaram a suas terras por outro caminho.
XXII
Ao dar-se conta Herodes de que havia sido enganado, encolerizou-se e enviou seus sicários, dando-lhes a missão de assassinar todos os meninos de menos de dois anos.
Quando chegou até Maria a notícia da matança das crianças, encheu-se de temor e, envolvendo seu filho em fraldas, colocou-o numa manjedoura.
Quando Isabel inteirou-se de que também buscavam a seu filho João, pegou-o e levou-o a uma montanha. Pôs-se a ver onde haveria de escondê-lo, mas não havia um lugar bom para isso. Entre soluços, exclamou em voz alta:
- Ó Montanha de Deus, recebe em teu seio a mãe com seu filho, pois que não posso subir mais alto.
Nesse instante, abriu a montanha suas entranhas para recebê-los. Acompanhou-os uma grande luz, pois estava com ele um anjo de Deus para guardá-los.
XXIII
Herodes prosseguia na busca de João e enviou seus emissários a Zacarias para que lhe dissessem:
- Aonde escondeste teu filho?
Ele respondeu desta maneira:
- Eu me ocupo do serviço de Deus e me encontro sempre no templo. Não sei onde está meu filho.
Os emissários informaram a Herodes tudo o que se passara e ele encolerizou-se muito, dizendo consigo mesmo:
- Deve ser seu filho que vai reinar em Israel.
Enviou, então, um outro recado, dizendo-lhe:
- Diga-nos a verdade sobre onde está teu filho, porque do contrário bem sabes que teu sangue está sob minhas mãos.
Zacarias respondeu:
- Serei mártir do Senhor, se te atreveres a derramar meu sangue, porque minha alma será recolhida pelo Senhor, ao ser segada uma vida inocente no vestíbulo do santuário. Ao romper da aurora, foi assassinado Zacarias, sem que os filhos de Israel se dessem conta desse crime.
XXIV
Os sacerdotes se reuniram à hora da saudação, mas Zacarias não saiu a seu encontro, como de costume, para abençoá-los. Puseram-se a esperá-lo para saudá-lo na oração e para glorificar o Altíssimo.
Ante sua demora, começaram a ter medo. Tomando ânimo, um deles entrou, viu ao lado do altar sangue coagulado e ouviu uma voz que dizia:
- Zacarias foi morto e não se limpará o seu sangue até que chegue o vingador.
Ao ouvir a voz, encheu-se de temor e saiu para informar os sacerdotes que, tomando coragem, entraram e testemunharam o ocorrido. Então, os frisos do templo rangeram e eles rasgaram suas vestes de alto a baixo.
Não encontraram o corpo, somente a poça de sangue coagulado. Cheios de temor, saíram para informar a todo o povo que Zacarias havia sido assassinado. A notícia correu em todas as tribos de Israel, que o choraram e guardaram luto por três dias e três noites.
Concluído esse tempo, reuniram-se os sacerdotes para deliberar sobre quem iriam pôr em seu lugar. Recaiu a sorte sobre Simeão, pois, pelo Espírito Santo, havia sido assegurado de que não veria a morte até que lhe fosse dado contemplar o Messias Encarnado.
XXV
Eu, Tiago, escrevi esta história. Ao levantar-se um grande tumulto em Jerusalém, por ocasião da morte de Herodes, retirei-me ao deserto até que cessasse o motim, glorificando ao Senhor meu Deus, que me concedeu a graça e a sabedoria necessárias para compor esta narração.
Que a graça esteja com todos aqueles que temem a Nosso Senhor Jesus Cristo, para quem deve ser a glória.

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