sexta-feira, 30 de maio de 2008

Apócrifos q Garimpei na net Part.3

Livro de Gênesis
Comentário Sobre o Que Diz o Evangelho
De acordo com as revelações do rolo, o jardim do Éden é o lugar santíssimo do Santuário Celeste; Ocupava esse lugar de honra muito antes da criação do homem, num tempo em que somente havia harmonia e paz no Universo. Junto ao trono de Yahwéh, no Éden, vivia um querubim cobridor, ungido como o modelo da perfeição; ele era cheio de sabedoria . Esse anjo, valendo-se do livre-arbítrio, afastou-se dos caminhos da justiça e do amor, tornando-se líder de uma grande rebelião que arrastou um terço das estrelas do céu; Seu intento era apossar-se do domínio de todo o Universo, banindo a presença do Criador de Sião (Ezequiel 28:12- 15; Isaías 14: 12- 15).
O fato de Deus não entregar-lhe o trono, fez com que levantasse muitas acusações contra o Seu governo, fazendo-o parecer um Ser tirano. Em resposta às acusações de Seus adversários, Yahwéh dirigiu-se ao abismo que mantinha oculto desde o princípio o planeta terra, ainda sem forma e vazio, e transformou-o numa nova terra, cheia de vida e luz.
Depois de dar forma a Terra, plantou o Senhor nela o jardim do Éden, entregando-o aos cuidados do ser humano. A partir daquele momento, Yahwéh não mais reinaria em Sião, sem o consentimento e participação do homem. A partir daquele dia, a imagem de Yahwéh, seria revelada perante todo o Universo, por meio da humanidade.
O homem que, pela fidelidade ao Criador, deveria dar a ele o direito de reinar com justiça em Sião, caiu em tentações, entregando nas mãos dos adversários de Deus o reino. O Universo continuaria para sempre nas mãos dos inimigos, não houvesse o Criador idealizado um plano de resgate. Por meio desse plano, tudo aquilo que foi perdido com a queda de Adão e sua companheira, haveria de ser recuperado por meio da vitória do Messias e de seu povo.
De acordo com as revelações do quarto rolo, no dia em que Adão e Eva foram conduzidos para fora do jardim do Éden, iniciou não somente o exílio humano, como também de Yahwéh. Ele somente voltaria a reinar em Sião, quando o Messias completasse a obra da purificação e restauração de todas as assolações causadas pelas transgressões humanas (Isaías 52: 8; Zacarias 8:2).
Quanto ao jardim do Éden, é dito que ele permaneceu sobre a terra até por ocasião do dilúvio, quando num ato de justiça o Criador arrebatou-o para o seu lugar de origem, ao norte da Jerusalém Celeste. Ali, permaneceria vazio por muito tempo, protegido por um exército de querubins, representado simbolicamente pelos desenhos de anjos na cortina que fazia separação entre os dois compartimentos no tabernáculo em Israel.
Livro de Gênesis
A Criação do Universo I

Antes que existisse uma estrela a brilhar, antes que houvesse anjos a cantar, já havia um céu, o lar do Eterno, o único Deus.
Perfeito em sabedoria, amor e glória, viveu o Eterno uma eternidade, antes de concretizar o Seu lindo sonho, na criação do Universo.
Os incontáveis seres que compõem a criação foram, todos, idealizados com muito carinho. Desde o íntimo átomo às gigantescas galáxias, tudo mereceu Sua suprema atenção.
Movendo-Se com majestade, iniciou Sua obra de
criação. Suas mãos moldaram primeiramente um mundo de luz, e sobre ele uma montanha fulgurante sobre a qual estaria para
sempre firmado o trono do Universo. Ao monte sagrado Deus denominou: Sião.
Da base do trono, o Eterno fez jorrar um rio cristalino, para representar a vida que d'Ele fluiria para todas as criaturas.
Como sala do trono, criou um lindo paraíso que se estendia por centenas de quilômetros ao redor do monte Sião. Ao paraíso
denominou: Éden.
Ao sul do paraíso, em ambas as margens do rio da vida, foram edificadas numerosas mansões adornadas de pedras preciosas,
que se destinavam aos anjos, os ministros do reino da luz.
Circundando o Éden e as mansões angelicais, construiu Deus uma muralha de jaspe luzente, ao longo da qual podiam ser vistos
grandes portais de pérolas.
Com alegria, o Eterno contemplou a Capital sonhada.
Carinhosamente, o grande Arquiteto a denominou: Jerusalém, a Cidade da Paz.
Deus estava para trazer à existência a primeira criatura racional. Seria um anjo glorioso, de todos o mais honrado. Adornado
pelo brilho das pedras preciosas, esse anjo viveria sobre o monte Sião, como representante do Rei dos reis diante do
Universo.
Com muito amor, o Criador passou a modelar o primogênito dos anjos. Toda sabedoria aplicou ao formá-lo, fazendo-o
perfeito. Com ternura concedeu-lhe a vida; o formoso anjo, como que despertando de um profundo sono, abriu os olhos e
contemplou a face de seu Autor.
Com alegria, o Eterno mostrou-lhe as belezas do paraíso, falando-lhe de Seus planos, que começavam a se concretizar. Ao ser conduzido ao lugar de sua morada, junto ao trono, o príncipe dos anjos ficou agradecido e, com voz melodiosa, entoou seu
primeiro cântico de louvor.
Das alturas de Sião, descortinava-se, aos olhos do formoso anjo, Jerusalém em sua vastidão e esplendor. O rio da vida, ao
deslizar sereno em meio à Cidade, assemelhava-se a uma larga avenida, espelhando as belezas do jardim do Éden e das
mansões angelicais.
Envolvendo o primogênito dos anjos com Seu manto de luz, o Eterno passou a falar-lhe dos princípios que haveriam de reger o
reino universal. Leis físicas e morais deveriam ser respeitadas em toda a extensão do governo divino.
As leis morais resumiam-se em dois princípios básicos: amar a Deus sobre todas as coisas e viver na fraternidade com todas as criaturas. Cada criatura racional deveria ser um canal por meio do qual o Eterno pudesse jorrar aos outros vida e luz. Dessa forma, o
Universo cresceria em harmonia, felicidade e paz.
Depois de revelar ao formoso anjo as leis de Seu governo, o Eterno confiou-lhe uma missão de grande responsabilidade: seria
o protetor daquelas leis, devendo honra-las e revela-las ao Universo prestes a ser criado. Com o coração transbordante de
amor a Deus e aos semelhantes, caber-lhe-ia ser um modelo de perfeição: seria Lúcifer, o portador da luz.
O príncipe dos anjos; agradecido por tudo, prostrou-se ante o amoroso Rei, prometendo-Lhe eterna fidelidade.
O Eterno continuou Sua obra de criação, trazendo à existência inumeráveis hostes de anjos, os ministros do reino da luz. A
Cidade Santa ficou povoada por essas criaturas radiantes que, felizes e gratas, uniam as vozes em belíssimos cânticos de louvor
ao Criador.
Deus traria agora à existência o Universo que, repleto de vida, giraria em torno de Seu trono firmado em Sião. Acompanhado
por Seus ministros, partiu para a grandiosa realização.
Depois de contemplar o vazio imenso, o Eterno ergueu as poderosas mãos, ordenando a materialização das multiformes
maravilhas que haveriam de compor o Cosmo. Sua ordem, qual trovão, ecoou por todas as partes, fazendo surgir, como que
por encanto, galáxias sem conta, repletas de mundos e sóis - paraísos de vida e alegria -, tudo girando harmoniosamente em
torno do monte Sião.
Ao presenciarem tão grande feito do supremo Rei, as hostes angelicais prostraram-se, fazendo ecoar pelo espaço iluminado um
cântico de triunfo, em saudação à vida. Todo o Universo uniu-se nesse cântico de gratidão, em promessa de eterna fidelidade
ao Criador.
Guiados pelo Eterno, os anjos passaram a conhecer as riquezas do Universo. Nessa excursão sideral, ficaram admirados ante a
vastidão do reino da luz. Por todas as partes encontravam mundos habitados por criaturas felizes que os recebiam em festa. Os anjos saudavam-nos com cânticos que falavam das boas novas daquele reino de paz.
Tão preciosa como a vida, a liberdade de escolha, através da qual as criaturas poderiam demonstrar seu amor ao Criador,
exigia um teste de fidelidade. Com o propósito de revelá-lo, o Eterno conduziu as hostes por entre o espaço iluminado, até se
aproximarem de um abismo de trevas que contrastava com o imenso brilho das galáxias. Ao longe, esse abismo revelara-se
insignificante aos olhos dos anjos, como um pontinho sem luz; mas à medida de sua aproximação, mostrou-se em sua
enormidade. O Criador, que a cada passo revelava aos anjos os mistérios de Seu reino, ficou ali silencioso, como que
guardando para Si um segredo. As trevas daquele abismo consistiam no teste da fidelidade. Voltando-Se para as hostes, o
Eterno solenemente afirmou:
-"Todos os tesouros da luz estarão abertos ao vosso conhecimento, menos os segredos ocultos pelas trevas. Sois livres
para me servirem ou não. Amando a luz estareis ligados à Fonte da Vida".
Com estas palavras, fez Deus separação entre a luz e as trevas, o bem e o mal. O Universo era livre para escolher seu destino.

A Criação do Universo II

tão acalentado sonho do Criador se concretizara. Agora, como Pai carinhoso, conduzia as criaturas através de uma
eternidade de harmonia e paz. Em virtude do cumprimento das leis divinas, o Universo expandia-se em felicidade e glória.
Havia um forte elo de amor, que a todos unia fortemente. Os seres racionais, dotados da capacidade de um desenvolvimento
infinito, encontravam indizível prazer em aprender os inesgotáveis tesouros da Sabedoria divina, transmitindo-os aos
semelhantes. Eram como canais por meio dos quais a Fonte da Eterna Vida nutria a todos de amor e luz.
Em Jerusalém, os ministros do reino reuniam-se ante o soberano Rei, sempre prontos a cumprir os Seus propósitos. Era
através de Lúcifer que o Eterno tornava manifesto os Seus desígnios. Depois de receber uma nova revelação, ele prontamente a transmitia às hostes angelicais. Estas, por sua vez, a compartilhavam com a criação. Em célere vôo os anjos rumavam para as terras planetas capitais, onde, em grandes assembléias, reuniam-se os representantes dos demais mundos.
Em muitas dessas assembléias, Lúcifer fazia-se presente, enchendo os participantes de alegria e admiração. Perfeito em todas as virtudes, ele os cativava com sua simpatia. Nenhum outro anjo conseguia revelar como ele os mistérios do amor do Eterno.
O Universo, alimentando-se da Fonte da Vida, expandia-se numa eternidade de perfeita paz. A obediência às leis divinas era o
fundamento de todo progresso e felicidade. Ainda que conscientes do livre-arbítrio, jamais subira ao coração de qualquer
criatura o desejo de se afastar do Criador. Assim foi por muito tempo, até que tal problema irrompeu na vida daquele que era
o mais íntimo do Eterno.
Lúcifer, que dedicara sua vida ao conhecimento dos mistérios da luz, sentiu-se aos poucos atraído pelas trevas. O Rei do
Universo, aos olhos de quem nada pode ser encoberto, acompanhou com tristeza os seus passos no caminho descendente que leva à morte. A princípio, uma pequena curiosidade levou Lúcifer a se aproximar daquele abismo profundo. Contemplando-o, ele começou a indagar o porquê de não poder compreender o seu enigma.
Retornando a seu lugar de honra, junto ao trono, prostrou-se ante o divino Rei, suplicando-Lhe:
- Pai, dá-me a conhecer os segredos das trevas, assim como me revelas a luz.
Ante o pedido do formoso anjo, o Eterno, com voz expressiva de tristeza, disse-lhe:
- Meu filho, você foi criado para a luz, que é vida.
Convencendo-se de que o Criador não lhe revelaria os tesouros das trevas, Lúcifer decidiu compreender por si mesmo o
enigma. Julgava-se capacitado para tanto.
Só Deus sabia o que se passava no coração de Lúcifer. O anjo, que fora criado para ser o portador da luz, estava
divorciando-se em pensamentos do bondoso Criador que, num esforço de impedir o desastre, rogava-lhe permanecer a Seu
lado.
Uma tremenda luta passou a travar-se em seu íntimo. O desejo de conhecer o sentido das trevas era imenso, contudo, os rogos
daquele amoroso Pai, a quem não queria também perder, o torturavam. Vendo o sofrimento que sua atitude causava ao
Criador, às vezes demonstrava arrependimento, mas voltava a cair.
Antes de criar o Universo, Deus já previra a possibilidade de uma rebelião. O risco de conceder liberdade às criaturas era
imenso, mas, sem este dom, a vida não teria sentido.
Ele queria que a obediência fosse fruto de reconhecimento e amor, por isso decidiu correr o grande
risco.
Ainda que prosseguisse na busca do sentido das trevas, Lúcifer não pretendia abandonar a luz. Esforçava-se para chegar a
uma combinação entre essas partes que, no reino do Eterno, coexistiam separadas. Finalmente, com um sentimento de
exaltação, concebeu uma teoria enganosa, que pretendia apresentar ao Universo como um novo sistema de governo, superior ao governar do Eterno. Denominou sua Lei "a ciência do bem e do mal".
Estruturada na lógica, a ciência do bem e do mal revelou-se atraente aos olhos de Lúcifer, parecendo descerrar um sentido de
vida superior àquele oferecido pelo Criador, cujo reino possibilitava unicamente o conhecimento experimental do bem. No
novo sistema, haveria equilíbrio entre o bem e o mal, entre o amor e o egoísmo, entre a luz e as trevas.
Ao longo do tempo em que amadurecera em sua mente a ciência do bem e do mal, Lúcifer soube guardar segredo diante do
Universo. Continuava em seu posto de honra, cumprindo a função de Portador da Luz. Contudo, por mais que procurasse
fingir, seu semblante já não revelava alegria em servir ao Eterno.
O divino Rei, que sofria em silêncio, procurava, por meio de Suas revelações de amor, preparar as criaturas racionais para a
grande prova que se aproximava. Sabia que muitos dariam ouvido à tentação, voltando-Lhe as costas. A noite da provação
faria sobressair, contudo, os verdadeiros fiéis - aqueles que serviam ao Criador não por interesse, mas por amor.
Ao ver que a hora da prova chegara, e que Lúcifer estava pronto para traí-Lo diante do Universo, o Eterno, que jamais
cessara de revelar os tesouros de Sua sabedoria, tornou-se silencioso e contemplativo. O silêncio fez reviver no coração das
hostes a lembrança daquela primeira excursão sideral, quando, depois de lhes mostrar as riquezas do reino da luz, Deus
tornou-se silencioso ante aquele abismo. Lembram-se de Suas palavras: "Todos os tesouros da luz estarão abertos ao vosso
conhecimento, menos os segredos ocultos pelas trevas. Sois livres para me servirem ou não. Amando a luz estareis ligados à
Fonte da Vida".
Lúcifer, que passara a cobiçar o trono de Deus, indagou-Lhe o motivo de Seu silêncio. O Criador, contemplando-o com
infinita tristeza, disse-lhe: "É chegada a hora das trevas. Você é livre para realizar seus propósitos".
Vendo que o momento propício para a propagação de sua teoria havia chegado, Lúcifer convocou os anjos para uma reunião
especial. As hostes, desejosas de conhecer o significado do silêncio do Pai, tomaram seus lugares junto ao magnífico anjo, que
sempre lhes revelara os tesouros do reino da luz.
Lúcifer começou seu discurso exaltando, como de costume, o governo do Eterno. Num amplo retrospecto, lembrou-lhes as
grandiosas revelações que os enriquecera em toda aquela eternidade.
O silêncio divino, apresentou-o como sendo a indicação de que o Universo alcançara a plenitude do conhecimento oriundo da
luz. Silenciando, o Eterno abria-lhes caminho para o entendimento de mistérios ainda não sondados, mantidos até então além
dos limites de Seu governo.
Surpresas, as hostes tomaram conhecimento da experiência de Lúcifer sobre as trevas. Com eloqüência, ele falou-lhes da
ciência do bem e do mal, indicando-a como o caminho das maiores realizações.
O efeito de suas palavras logo se fez sentir em todo o Universo. A questão era decisiva e explosiva, gerando pela primeira vez
discórdia. Os seres racionais, em sua prova, tinham de optar por permanecer somente com o conhecimento da luz, o qual
Lúcifer afirmava haver chegado ao seu limite, ou se aventurar no conhecimento da ciência do bem e do mal. No começo, os
anjos debateram-se diante da questão, sendo logo depois todo o Universo posto à prova. Dir-se-ia que a ciência do bem e do
mal haveria de arrebanhar a maior parte das criaturas, mas, aos poucos, muitos que a princípio se empolgaram com a teoria,
despertaram para a ilusão da mesma, reafirmando sua fidelidade ao reino da luz. Ao fim desse conflito, que se arrastou por
longo tempo, revelou-se um terço das estrelas do céu ao lado de Lúcifer, e as restantes, ainda que abaladas pela prova ao lado
do Eterno.
A ciência do bem e do mal fora apregoada por Lúcifer como um novo sistema de governo. Mas como exercê-lo, se o Eterno
continuava reinando em Sião? O conselho, formado pelos anjos rebeldes, passou a tratar disso. Decidiram, finalmente, solicitar-Lhe o trono por um tempo determinado, no qual poderiam demonstrar a excelência do novo sistema de governo. Caso fosse aprovado pelo Universo, o novo sistema se estabeleceria para sempre; caso contrário, o domínio retornaria ao Criador.
Foi assim que Lúcifer, acompanhado por suas hostes, aproximou-se d'Aquele Pai sofredor, fazendo-Lhe tal pedido.
O Eterno não era ambicioso, apenas queria bem às Suas criaturas. Se a ciência do bem e do mal consistisse realmente num
bem maior, não Se oporia à sua implantação, cedendo o trono a seus defensores. Mas Ele sabia que aquele caminho conduziria
à infelicidade e à morte.
Movido por Seu amor protetor, o Criador desatendeu o pedido das hostes rebeldes, que se afastaram enfurecidas.
Lúcifer e suas hostes passaram a acusar o divino Rei, proclamando ser o seu governo de tirania.
Afirmavam ser sua permanência no trono a mais patente demonstração de Sua arbitrariedade. Não lhes concedera liberdade de escolha? Por que neutralizá-la agora, impedindo-os de pôr em prática um sistema de governo superior?
As acusações das hostes rebeldes repercutiram por todo o Universo, fazendo parecer que o governo do Eterno era injusto.
Isto trouxe profunda angústia àqueles que permaneciam fiéis ao reino da luz. Não sabendo como refutar tais acusações, essas
criaturas, emudecidas pela dor moral, ansiavam pelo momento em que novas revelações procedentes do Criador pudessem
aclarar-lhes os mistérios desse grande conflito.
As acusações e blasfêmias das hostes rebeldes alcançavam o ponto culminante quando o Eterno, num gesto surpreendente,
ergueu-se de Seu trono, como que pronto a deixá-lo. Os infiéis, na expectativa de uma conquista, aquietaram-se, enquanto um
sentimento de temor penetrava no coração dos súditos da luz. Entregaria Ele o domínio de toda a criação, para livrar-Se das
vis acusações? De acordo com a lógica a partir da qual Lúcifer fundamentava seus ensinamentos, não restava outra alternativa
ao Criador. Nesta tremenda expectativa, o Universo acompanhava os passos de Deus.
Num gesto de humildade, o Criador despojou-Se de Sua coroa e de Seu manto real, depondo-os sobre o alvo trono. Em Seu
semblante não havia expressão de ressentimento ou ira, mas de infinito amor e tristeza.
Com solenidade, o Eterno proclamou que o momento decisivo chegara, quando cada criatura deveria selar sua decisão ao lado
da luz ou das trevas. Numa ampla revelação, alertou para as conseqüências de um rompimento com a Fonte da Vida.
Lúcifer e seus seguidores estavam conscientes da seriedade daquele momento.
Vendo que o Trono permanecia vazio, Lúcifer e suas hostes, dominados pela cobiça, romperam definitivamente com
o Criador
Ao ver um terço dos súditos transpor as divisas da eterna separação, Deus deixou extravasar a dor angustiante que por tanto tempo martirizava Seu coração, curvando-Se em inconsolável pranto. Contemplando Seus filhos rebeldes, ergueu a voz numa lamentação dolorosa: "Meus filhos, meus filhos! Já não posso chamá-los assim! Queria tanto tê-los nos braços meus!
Lembro-Me quando os formei com carinho! Vocês surgiram felizes e perfeitos, em acordes de esperança em eterna harmonia!
Vivi para vocês, cobrindo-os de glória e poder! Vocês foram a minha alegria! Por que seus corações mudaram tanto? O que
mais poderia eu ter feito para fazê-los permanecer comigo? Hoje minh'alma sangra em dor pela separação eterna! Como
olharei para os lugares vazios onde tantas vezes rejubilantes ergueram as vozes em hosanas festivas, sem me vir à mente um
misto da felicidade e dor?! Saudade infinita já invade o meu ser, e sei que será eterna!
Hoje o meu coração rompeu e quebrou-se; as cicatrizes carregarei para sempre!
Depois de proclamar em pranto tão dolorosa lamentação, o Eterno, dirigindo-Se a Lúcifer, o causador de todo o mal, disse:
"Você recebeu um nome de honra ao ser criado. Agora não mais o chamarão Lúcifer, mas Satã, O Senhor das Trevas".

Depois de lamentar a perdição das hostes rebeldes, o Eterno, em lentos passos, ausentou-se do jardim do Éden, lugar do trono
Universal.. Onde seria agora a Sua morada....
As hostes fiéis acompanharam reverentes os Seus misteriosos passos de abandono, que pareciam descerrar um futuro difícil, de
sofrimentos e humilhações. Ocupariam os rebeldes o divino trono, profanando-o como domínio do pecado? Esta indagação
torturava o coração dos súditos do Eterno.
Deixando Sua amada Cidade, o Senhor da luz conduziu-Se, em meio às glórias do Universo, em direção do abismo imenso, a
respeito do qual silenciara até então. Ali deteve-Se mais uma vez, emudecido, enquanto parecia ler nas trevas um futuro de
grandes lutas. Ante o sofrimento do Eterno, expresso na tristeza de Seu semblante, os fiéis puderam finalmente compreender o
significado daquele misterioso abismo: consistia numa representação simbólica do reino da rebeldia.
Na face entristecida de Deus manifestou-se, por fim, um brilho que aos fiéis animou. Erguendo os poderosos braços ante as
trevas, ordenou em alta voz: "Haja luz."
Imediatamente, a luz de Sua presença inundou o profundo abismo e, triunfando sobre as trevas, revelou um mundo inacabado,
coberto por cristalinas águas. Com esse gesto, iniciava o Eterno uma grande batalha pela reivindicação de Seu governo de luz;
batalha do amor contra o egoísmo; da justiça contra a injustiça; da humildade contra o orgulho; da liberdade contra a
escravidão; da vida contra a morte. Batalha que, sem trégua, se estenderia até que, no alvorecer almejado, pudesse o divino
Rei retornar vitorioso ao santo monte Sião, onde, entronizado em meio aos louvores dos remidos, reinaria para sempre em
perfeita paz. As trevas, em sua fuga, apontavam para o aniquilamento final da rebeldia.
As águas abundantes que cobriam aquele mundo, até então oculto, simbolizavam a vida eterna que para os fiéis seria
conquistada pelo amor que tudo sacrifica.
O mundo revelado era a Terra. Visitada pelas trevas e pela luz, ela seria o palco da grande luta.
Rejubilavam-se os fiéis ante o triunfo da luz naquele primeiro dia, quando as trevas em sua fúria rolaram sobre o planeta,
sucumbindo-o em densa escuridão. A luz, que parecia vencida, renasceu vitoriosa num lindo alvorecer.
Ao raiar a luz do segundo dia, o Eterno ordenou: "Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre água e
águas."
Imediatamente, o calor de Sua luz fez com que imensa quantidade de vapor se elevasse das águas, envolvendo o planeta num
manto de transparência anil. Surgiu assim a atmosfera, com sua mistura perfeita de gases que seriam essenciais à vida que em
breve coroaria o planeta. O Criador, contemplando a expansão, denominou-a "céus".
A atmosfera, que cheia de brilho envolvia a Terra, sombreou-se ao sobrevir o crepúsculo de um outro entardecer.
A Criação do Universo III

Ao serem vencidas as trevas no terceiro dia, o Criador prosseguiu Sua obra, fazendo surgir os imensos continentes que ainda
estavam sob a superfície das águas. Com as mãos erguidas ordenou: "Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar e
apareça a porção seca."
Em pronta obediência, as cristalinas águas cederam sua posição superior à porção seca que se ergueu, sobrepondo-se a elas.
Nas regiões baixas da Terra, as águas continuariam refletindo o brilho celeste, sendo um refrigério para as criaturas sedentas.
Nesse gesto de humildade, as águas prefiguravam o Criador, que na grande luta desceria ao mais profundo abismo para fazer
renascer nas almas sedentas a vida eterna.
Contemplando a face daquele novo mundo, o Eterno denominou a parte seca "terra", e ao ajuntamento das águas chamou
"mares".
Com Sua poderosa voz prosseguiu, ordenando: "Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto
segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela sobre a terra."
Em obediência ao mando divino, a superfície sólida do planeta revestiu-se de toda sorte de vegetação: lindos prados a florir,
campos verdejantes entrecortados por rios cristalinos, florestas sem fim.
Enquanto com admiração as hostes contemplavam as belezas daquela criação, surpreenderam-se ao reconhecer sobre o novo
planeta o jardim do Éden, lugar do trono divino. O Eterno, pelo poder de Sua palavra, o havia transferido para o seio daquele
mundo especial, onde em justiça seria confirmado o governo do Universo.
Contemplando Sua obra, o Criador com felicidade exclamou: "Eis que tudo é muito bom."
As hostes fiéis agora podiam compreender melhor a importância da luz divinal. Sua ausência havia ofuscado, naquela noite, as
belezas de Sião.
Nesse novo dia, o Criador expressaria o Seu grande poder, dando à Terra luminares que a encheriam de luz e calor. Esses
luminares permaneceriam para sempre como símbolos da presença espiritual do Eterno, que é a fonte de toda a luz.
Contemplando o espaço escuro e vazio que se estendia ao redor da Terra, com potente voz ordenou: "Haja luminares na
expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais e para tempos determinados, para dias e
anos. E sejam para luminares na expansão dos céus para alumiarem a Terra."
Imediatamente, o espaço tornou-se radiante pelo brilho do sol e pelo reflexo de planetas e estrelas. Ante esta demonstração de
poder, as hostes fiéis curvaram-se em reverente adoração.
No quarto dia, o Eterno criou os mundos de nosso sistema solar não para serem habitados como a Terra, mas para o equilíbrio
do sistema. Encheriam também o céu de fulgor, abrandando as trevas das noites terrenas.
Volvendo os olhos para a Terra, as hostes alegraram-se por vê-la radiante em cores. Bem próximo dela podia-se ver a Lua
que, com seu reflexo prateado, afugentaria as profundas sombras noturnas.
Envolvidos por esse cenário encantador, os filhos da luz, rejubilantes, saudaram o alvorecer do quinto dia, que seria de muitas surpresas. O Eterno tornaria a Terra festiva pela presença de infindáveis espécies de animais irracionais que habitariam toda a superfície do planeta. Essa criação teria continuidade no sexto dia. Erguendo as poderosas mãos, o Criador, olhando
primeiramente para as cristalinas águas, ordenou: "Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente."
De imediato, as águas tornaram-se ondulantes pela presença de incontáveis espécies de répteis . Desde os seres microscópicos até as grandes baleias, todos surgiram em completa
harmonia, refletindo em sua natureza o amor do Criador.
Pousando os olhos sobre a atmosfera anil que repousava sobre as verdejantes florestas, o Eterno continuou: "Voem as aves
sobre a face da expansão dos céus".
Mediante Sua ordem, os Céus encheram-se de pássaros coloridos que, voando em todas as direções, tinham no coração um
cântico de gratidão pela vida. Esse cântico encheu o ar, misturando-se com o perfume das matas floridas.
Contemplando com prazer Suas criaturas terrenais, o Eterno abençoou-as dizendo: "Frutificai e multiplicai-vos e enchei as
águas nos mares, e as aves se multipliquem na Terra."
Alvorecer do sexto dia. Erguendo os potentes braços, o Eterno ordenou: "Produza a Terra alma vivente conforme a sua espécie: gado, répteis e bestas-feras da terra, conforme a sua espécie."
Sua voz poderosa foi prontamente ouvida e, nas florestas e campos, pôde-se ver o resultado de Seu poder criador. Animais de
todas as espécies despertaram numa existência feliz, em meio a um paraíso de perfeita paz.
Movendo-Se com majestade, o Eterno baixou às glórias do novo mundo, dirigindo-Se ao jardim do Éden, lugar do divino
trono. Os anjos da luz acompanharam-nO reverentes, detendo-se qual nuvem sobre os céus do paraíso. Todo Universo
observava com profundo interesse o desdobramento dos atos do Criador, em resposta às acusações de seus inimigos.
O momento era decisivo. Tudo indicava que o Eterno demonstraria não ser tirano nem egoísta, coroando alguém sobre o
monte Sião. Satã e seus seguidores não duvidavam de que o reino lhes seria entregue e reinariam vitoriosos no seio daquele
antigo abismo, onde as trevas e a luz agora se entrelaçavam. Os súditos da luz estremeceram ante essa perspectiva.
Junto à fonte do rio da vida, o Eterno curvou-Se solenemente e, com os elementos naturais da Terra, começou a moldar, com
muito carinho, uma criatura especial. Depois de alguns instantes, estava estendido diante do Criador o corpo, ainda sem vida,
do primeiro homem. O Eterno contemplou-o e, após acariciar-lhe a face fria e descorada, soprou-lhe nas narinas o fôlego da
vida e o homem começou a viver.
Como que despertando de um sono, o homem abriu os olhos e contemplou a face meiga de Seu Criador que, sorrindo,
beijou-lhe a face agora corada e cheia de vida. Emocionou-se ao ouvir o Eterno dizer-lhe com voz suave e cheia de afeição:
"Meu filho, meu querido filho!" Por ter nascido do solo, o primeiro homem recebeu o nome de Adão.
As hostes fiéis que admiradas testemunhavam a grandiosa realização divina, emocionadas ante o gesto humano, prostraram-se
também em reverente adoração. Uniram então as vozes num cântico de júbilo em saudação àquela criatura especial, que
despertava para a vida num momento tão decisivo para o Universo.
Com o coração cheio de felicidade, Adão uniu-se aos anjos em seu cântico de louvor. Sua voz, ao ecoar pelos arredores
floridos, misturou-se ao canto das aves e ao mugir de animais que se aproximavam em festa.
Num passeio de surpresas inesquecíveis, Adão foi conscientizado das belezas de seu lar. Com admiração, contemplou o monte
Sião, donde jorrava o rio da vida, numa cascata de luz.
Com intensa alegria, Adão tomava conhecimento das infindáveis espécies de animais que povoavam o jardim. Todos eram
mansos e submissos e viviam em perfeita harmonia e felicidade.
Observando os animais, Adão percebeu que eles desfrutavam de um companheirismo especial. Via por toda parte casais
felizes que viviam um para o outro. Seus pensamentos voltaram-se para o Seu Companheiro. Olhou ao derredor e ficou
surpreso por não vê-Lo. O Eterno havia Se ocultado propositalmente, tornando-Se invisível.
Adão sentia-se solitário em meio àquele paraíso. Com quem partilharia sua felicidade e seu amor? Havia ali os animais, mas
eles eram irracionais, não podendo compartilhar de seus ideais. Nascia em seu coração, ao caminhar solitário naquele
entardecer, um desejo ardente de encontrar alguém que pudesse estar sempre a seu lado.
Enquanto Adão olhava para as distantes colinas na esperança de ver alguém, o Eterno apresentou-Se ao seu lado e disse-lhe:
"Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma companheira."
Adão ficou feliz ao ouvir do Criador essa promessa, justamente no momento em que tanto ansiava ter alguém para estar
sempre visível a seu lado.
Tomado por um profundo sono, Adão reclinou-se no peito de seu amoroso Criador que, com carícias, o fez adormecer. Em
seu subconsciente surgiram os primeiros sonhos :
Contempla o olhar meigo do Eterno; ouve o som harmonioso da música angelical; descobre as maravilhas ao derredor: o monte
Sião com seu arco-íris; o rio da vida; os prados em flor; os animais que o saúdam em festa. Repetem-se em seus sonhos as
cenas que o envolveram em seu anseio; olha ao derredor na esperança de encontrar seu companheiro, mas não o vê. Sente-se
solitário em seu sonho, e isso o faz procurar alguém com quem possa compartilhar sua existência. Seu olhar estende-se por
campinas verdejantes, divisando ao longe colinas floridas. Enquanto caminha esperançoso, sente a brisa mansa a afagar-lhe os cabelos macios. Conversa com a brisa: "Brisa, você parece ser quem tanto procuro; você me afaga os cabelos; beija minha
face; você tem o perfume das verdes matas. Se eu pudesse ver sua face, beijá-la-ia; se eu pudesse tocar os seus cabelos, faria
longas tranças e as enfeitaria com as flores do nosso jardim!"
Após caminhar em sonho pelos prados do paraíso, Adão deteve-se enquanto contemplava a paisagem ao redor. Admirou-se
por não ver o efeito da brisa nos ramos floridos. Mas como, se a sentia calidamente no rosto? Começou então a despertar de
seu sonho. Ainda com os olhos fechados lembrou-se do momento em que, sonolento, recostara-se no peito do Eterno. Seria a
brisa o afago de Suas mãos? Com esta indagação abriu os olhos e emocionou-se ao contemplar uma linda mulher que, com as
mãos perfumadas, acariciava-lhe a face com amor. Era a brisa de seu sonho; a promessa de um Criador que só queria fazê-lo
feliz.
Agora Adão era completo, pois tinha Eva, que era carne de sua carne e ossos de seus ossos.
Tomando-a pela mão, Adão convidou-a para um passeio de surpresas inesquecíveis. Mostraria à sua companheira as belezas
de seu lar.
Sensibilizada Eva detinha-se a cada passo, atraída pelas flores que exalavam suaves perfumes; pelos pássaros que gorjeavam
alegres cantos; pelos animais que os seguiam submissos; pela vegetação de ricos matizes; pelas águas cristalinas do rio da vida
que jorravam em cascata do monte Sião. Tudo no paraíso era perfeito e belo, mas nada se igualava ao ser humano, criado à
imagem de Deus. Voltaram-se um para o outro em admiração e carícias. Embalados por esse amor, permaneceram até o
entardecer.
Com deleite, o jovem casal passou a contemplar o sol poente que, através de rosados raios, coloria o céu em lindo arrebol.
Era o sexto dia que chegava ao seu final, dando lugar às horas de um dia especial: o sábado. Esse dia, em seu significado, seria
solene para todos os súditos do Eterno, pois seu alvorecer traria a vitória para o reino da luz.
Indagavam o sentido das trevas quando, por entre as ramagens, viram um lindo luar, cujos raios prateados banhavam a
natureza em suave luminosidade. Todo o céu estava iluminado pelo fulgor das estrelas. Admirados, descobriram que a noite
somente era trevas quando se olhava para baixo.
Adão e Eva em sua inocência não sabiam que aquela noite simbolizava o futuro sombrio da humanidade. Quando o
compreendessem, ficariam confortados ao contemplar o fulgor dos céus: o luar falaria de esperança e as estrelas cintilantes
testemunhariam o interesse das hostes da luz em aclarar-lhes as trevas morais, dando alento aos pecadores. Mas seriam
iluminados apenas aqueles que, desviando os olhos da Terra, contemplassem os altos céus.
Após contemplar por algum tempo o céu em sua luminosidade, o casal, lembrando-se das belezas do paraíso, volveu os olhos,
buscando divisá-las. Estavam, porém, ocultas em meio às sombras. Quanto almejavam o alvorecer, pois somente ele traria
consigo o paraíso!
Ante o anseio do coração humano, o Eterno surgiu em meio às trevas, devolvendo ao casal a alegria de se encontrar
novamente num jardim colorido.
Banhados em suave luz, caminhavam agora por prados verdejantes e floridos. o brilho do Criador despertava a natureza por onde passavam, colorindo e alegrando tudo em derredor. O casal, admirado, aprendeu que ao lado do Eterno poderiam ter um
paraíso em plena noite.
Sentindo-se sonolentos, Adão e Eva recostaram-se no colo do amoroso Pai, que os faz adormecer docemente, esperançosos
de um despertar feliz. Deitando-os sobre a relva macia, o Eterno elevou-Se indo para junto das hostes contemplativas. Voltaria
a manifestar-Se ao alvorecer, fazendo o casal despertar para o mais solene acontecimento, que reduziria a pó as vis acusações
dos inimigos.
A noite escura e fria, através de suas longas horas, parecia zombar da luz. Ofuscaria para sempre as belezas da criação? Oh,
jamais! O sol não recuaria ante a imponência das trevas; surgiria em breve como um libertador, arrebatando com seus cálidos
raios a natureza das frias garras, dando-lhe vida e cor.
Num último desafio, as trevas tornaram-se densas nas horas que antecederam o alvorecer. A noite arregimentava suas forças
para lutar pelo domínio usurpado.
Finalmente, surgiu no leste um lampejo que parecia falar de esperança em um novo dia. O céu aos poucos tornou-se colorido
de um vermelho vivo. As trevas impotentes recuaram ante a força crescente da luz e foram consumidas em sua fuga. A natureza
começou a despertar da longa noite, refletindo em seu seio os saudosos raios. Flores abriram-se, exalando perfumes de alegria;
animais e aves, silenciados pela noite, uniram as vozes num cântico triunfal em saudação ao alvorecer daquele dia grandioso.
A negra noite chegara ao fim, dando lugar à luz do dia sonhado - dia que para Deus tinha um sentido especial, pois prefigurava
a final vitória de Seu reino sobre o domínio da rebeldia.
O Eterno agora despertaria Seus filhos humanos que, banhados pela luz de Sua presença, haviam adormecido na esperança de
um alvorecer feliz. Numa marcha festiva, todas as hostes santas, com cânticos de vitória, acompanharam-nO rumo ao paraíso
banhado em luz. Quando já estavam próximos, o Criador deteve-Se contemplando o casal adormecido, e exclamou
suavemente: "Acordem meus filhos." Sua voz penetrou nos ouvidos de Adão e Eva, despertando-os para a mais feliz
comunhão. Quão depressa raiara a acalentada manhã, trazendo em sua luz o doce paraíso, perdido naquela noite! Com alegria
o casal saudou o divino Criador, unindo-se aos anjos em antífonas triunfais.
O Universo vivia um momento deveras solene. Naquela manhã festiva, o Eterno haveria de revelar a grandeza de Seu caráter,
que é justiça e amor. As acusações de que Seu governo era de egoísmo e tirania seriam refutadas.
Aos olhos de todas as criaturas racionais do vasto Universo, Deus conduziu o jovem casal ao monte Sião, lugar do divino
trono. Ali, ante o estremecimento das hostes emudecidas, o Criador, num gesto surpreendente, cobriu o homem com o manto
real, colocando sobre sua cabeça a coroa que fora cobiçada por Lúcifer.
Movidos por profunda gratidão pela suprema honra conferida, Adão e Eva prostraram-se reverentes, depondo aos pés do
Criador sua coroa preciosa, em sinal de submissão. Seguiu-se a esse gesto humano um brado de vitória que sacudiu toda a
Criação. Os filhos da luz, que por tanto tempo haviam sofrido afrontas e humilhações ante as constantes acusações das hostes
rebeldes, exaltaram em retumbante louvor o Deus bendito, que em Sua obra de justiça desmentira os inimigos, revelando Seu
caráter de humildade, desprendimento e amor.
Tendo constituído o homem como o senhor de toda a criação, o Eterno, com voz solene, passou a conscientizá-lo da
grandiosidade de sua missão. Como um guardião, deveria cuidar do paraíso, mantendo límpida a fonte do rio da vida. As
leis da justiça e do amor, fundamentos do reino da luz, deveriam ser honradas. Como um cetro racional, caberia ao homem, em
gesto de reconhecimento e gratidão, aceitar livremente o governo d'Aquele que o criou.
As hostes, que maravilhadas testemunhavam a revelação do desprendimento divino, compreenderam que o Senhor da Luz não
governaria mais o Universo, a não ser com o consentimento humano. O homem, pela vontade do Eterno, fora feito o árbitro da
criação; em seu glorioso ser, feito à imagem do Criador, resplandecia o selo do eterno domínio.
Após revelar ao casal a infinita honra e responsabilidade de sua missão, o Criador conscientizou-o do conflito espiritual que se
travava pela conquista do domínio universal: Lúcifer, que por incontáveis eras servira ao divino Rei em Sião, havia sido
corrompido pelo orgulho e pelo egoísmo, sendo seguido por um terço das hostes racionais; buscavam agora destronar o
Eterno, desonrando-O com vis acusações.
Tendo revelado ao ser humano a dolorosa situação em que o Universo se encontrava, o Eterno, num gesto solene, mostrou-lhe
duas altaneiras árvores que, carregadas de grandes frutos, se erguiam em ambas as margens do rio que nascia do trono. A que
se elevava à direita revelou o Senhor ser a árvore da vida monumento do reino da luz. A que se erguia à outra margem revelou ser a árvore da ciência do bem e do mal - símbolo da rebeldia.
Comendo do fruto da árvore da vida, o homem manifestaria sua submissão ao Criador, que é Fonte de vida e luz. Comer da
outra árvore seria entregar ao inimigo o domínio de Sião. O inevitável resultado desse passo seria a morte eterna, não somente para o ser humano, mas para toda a criação, que se reduziria ao caos sob a fúria da rebeldia.
Após contemplar demoradamente as duas altaneiras árvores, que externavam em seus frutos tão infinita responsabilidade,
Adão prostrou-se ante o Criador, dizendo: "Digno és Senhor de reinar sobre o Universo, pois pela Tua sabedoria, amor e
poder todas as coisas foram criadas e subsistem."
O sábado, emblema do triunfo divino, encheu-se de louvor. Todos os filhos da luz uniram-se ao ser humano no mais
harmonioso cântico de exaltação Àquele cuja grandeza é sem par.
Foi com espanto que Satã e seus seguidores testemunharam a grandiosa realização do Eterno. Presenciaram com amargura a
alegria dos fiéis ante a coroação do homem- acontecimento que lançara por terra as fortes acusações que eles haviam
levantado contra o governo divino. Cheios de frustração e ira, consideravam agora sua triste condição. Quão terrível e
humilhante era-lhes o pensamento de verem seus planos de rebeldia desfazerem-se diante do Criador, semelhantes às sombras daquela noite. Se pudessem, pensavam, encheriam o sábado de trevas, banindo da mente dos súditos do Eterno qualquer esperança de vitória.
Finalmente, em suas considerações, Satã e seus liderados compreenderam que lhes restava uma oportunidade: no meio do
jardim do Éden, nas alturas de Sião, elevava-se, junto ao rio da vida, a árvore da ciência do bem e do mal. Bastaria um gesto
humano, nada mais, e teriam sob seu poder, para sempre, o domínio cobiçado. Mas como seduzi-lo?
Animado ante a perspectiva de uma conquista, Satã procurou, com engenhosidade, arquitetar um plano de abordagem. Sabia
que, se falhasse em sua tentativa, todas as esperanças de triunfo ter-se-iam diluído, desfazendo-se todos os seus sonhos de
aventura. Concluiu que o engano haveria de ser sua poderosa arma. Não fora através dele que conseguira dominar um terço
das hostes celestes?! Aguardaria, portanto, um momento propício para armar sua cilada.
A Criação do Universo IV
No Éden pairava uma perfeita paz. Por todos os lados os passarinhos faziam ouvir seus alegres trinos
em louvor constante ao Criador. Toda a natureza a florir parecia proclamar um reino de eterna alegria. Os animais
sempre submissos ao homem, o senhor daquele paraíso encantador.
Tudo era felicidade para o casal; mas esta tornava-se mais intensa na viração daqueles dias primaveris. O arrebol, que com sua
beleza coloria o céu prenunciando as escuras noites, anunciava-lhes também o momento da visita diária do Eterno. Juntos, sob a luz de Sua presença, passavam longo tempo em conversação. Com ânimo, o casal contava ao Senhor as surpreendentes maravilhas que iam descobrindo a cada dia na natureza. Deus, com carinho, descerrava-lhes o significado de cada ser.
Como Ele fora bom, trazendo-os à existência e concedendo-lhes um lar tão cheio de delícias! Ao despertarem para as alegrias de cada dia, vinham-lhes à lembrança as carícias e o doce canto do Eterno, que os fazia adormecer todas as noites.
A vida de Adão e Eva no Éden não era de ociosidade. A eles foi recomendado o cuidado do jardim. Sua ocupação não era
cansativa, ao contrário, era agradável e revigorante. O Criador indicara o trabalho como uma fonte de benefícios para o
homem, a fim de ocupar-lhe a mente e fortalecer-lhe o corpo, desenvolvendo-lhe todas as faculdades. Na atividade mental e
física, o homem encontrava um elevado prazer.
Era comum ao jovem casal receber visitas de seres celestes. Aos visitantes sempre tinham novidades a relatar e perguntas a
fazer. Passavam longo tempo ouvindo deles sobre as maravilhas do reino de luz. Através desses visitantes, Adão e Eva
passaram a ter amplo conhecimento da rebelião de Lúcifer e de suas eternas conseqüências. Aos visitantes, Adão e Eva
sempre pediam que lhes ensinassem os harmoniosos cânticos celestiais. Como se deleitavam ao unirem as vozes ao coro
angelical!
Em Sua onisciência, Deus tinha conhecimento do terrível intento do inimigo. Convocando as Suas hostes principais,
revelou-lhes com pesar o iminente perigo que pairava sobre o Universo. Satã haveria de armar uma cilada, a fim de levar o
homem a comer da árvore da ciência do bem e do mal. Ante essa revelação, os filhos da luz ficaram temerosos, pois
conheciam a tremenda facilidade de Satã em enlaçar criaturas inocentes e atirá-las em suas malhas de morte.
No solene concílio, sem a autorização de Deus, decidiram enviar, com urgência, mensageiros para advertirem o homem do grande perigo. Dois poderosos anjos foram encarregados dessa decisiva missão.
Imediatamente, os mensageiros comissionados irromperam pelos portais de Jerusalém, alcançando o seio do espaço infinito.
Em instantes, transpuseram imensidões, cruzando todo o universo.
Podiam agora divisar a pouca distância o Jardim do Éden, onde o destino do Universo estava para ser decidido.
Adão e Eva viram então no límpido céu o sinal da aproximação dos visitantes celestes e a eles ergueram os braços numa alegre
saudação. Adão e Eva admiraram-se, porém, por não verem no semblante deles a mesma alegria. Os visitantes traziam na face
uma expressão de anseio que eles não podiam entender. Tentaram mudar-lhes a triste feição, contando-lhes as novas
descobertas feitas no paraíso. Os mensageiros, todavia, não tendo tempo disponível como outrora, interromperam-nos com
palavras de advertência. Satã haveria de armar-lhes uma cilada, a fim de levá-los a comer do fruto da árvore da ciência do bem
e do mal. Se dessem ouvi dos à tentação, fariam sucumbir toda a criação no abismo de um eterno caos.
Os anjos lembraram-lhes que o reino lhes fora confiado como um sagrado depósito, devendo, em uma vida de fidelidade,
honrar Aquele que por amor esvaziou-Se, colocando-Se numa posição de hóspede do ser humano. Adão e Eva deveriam ser
firmes ante as insinuações do inimigo, pois assim selariam a eterna vitória do reino da luz.
Falando-lhes da feliz recompensa que se seguiria ao seu triunfo, os anjos revelaram que era plano de Deus a transferência de
Jerusalém Celeste para a Terra. Ali, novamente acoplada ao paraíso, permaneceria para sempre. E o homem, submisso ao
Criador, reinaria pelos séculos sem fim sobre o monte Sião, em meio aos louvores das hostes universais.
Mas tudo isso dependia inteiramente do posicionamento humano frente às tentações do inimigo, que faria de tudo para
arrebatar-lhe o reino.
Adão e Eva ficaram temerosos ao conhecerem os planos de Satã, mas foram consolados ao sabere que ele não poderia
fazer-lhes nenhum mal, forçando-os a comer do fruto proibido. Se, porventura, procurasse intimidá-los com seu poder, todas
as hostes do Eterno viriam em seu socorro.
Os mensageiros da luz concluíram sua missão recomendando ao casal permanecerem vigilantes, tendo sempre em mente a
responsabilidade que sobre eles repousava.
Adão e Eva, agradecidos pelas advertências dos anjos, uniram as vozes num cântico de promessa em uma eterna vitória.
Estavam certos de que jamais abandonariam o bendito Criador, ouvindo a voz do tentador.
Animados ante a promessa humana, os dois mensageiros retornaram ao seio da Jerusalém Celeste onde, junto às hostes santas, aguardariam com anseio o anelado triunfo.
Satã viu aproximarem-se do paraíso os mensageiros e ouviu o canto do homem prometendo uma eterna vitória. Esse cântico
fez com que sua inveja e ódio aumentassem de tal maneira que não os pôde conter. Disse então a seus seguidores que em
breve faria silenciar aquela voz.
As hostes rebeldes ficaram curiosas para conhecer os planos de seu chefe, mas foram por ele advertidas de que deveriam
aguardar até que tudo ficasse para sempre decidido. Se o homem ouvisse sua voz, comendo do fruto da árvore da ciência do
bem e do mal, seria vitorioso, possuindo para sempre o domínio do Universo. Caso o homem resistisse, permanecendo fiel ao
Criador, já não haveria qualquer esperança para eles.
O paraíso parecia estar envolvido por uma eterna segurança, mas no semblante do homem podia ser vista uma expressão de
temor. Desde a partida dos anjos, Adão e Eva permaneciam silenciosos, meditando com reverência sobre a tremenda
responsabilidade de sua missão. Pensavam na seriedade daquela iminente prova que haveria de selar o seu futuro e o de toda a
Criação. Animados, contudo, ante o pensamento da vitória, uniram mais uma vez as vozes num cântico que expressava a
certeza do triunfo anelado.
Satã, que observava atentamente o casal, percebeu estar chegando a sua oportunidade. Aproximou-se de forma invisível do
paraíso, e ficou esperando o melhor momento.
Inconsciente da presença do inimigo, o casal continuava em sua desprendida alegria. No semblante transtornado de Satã estampou-se um maldoso sorriso, ao presenciar um descuido do casal: em sua exaltação, haviam afastando-se um do outro. O astuto inimigo, não perdendo tempo, apossou-se de uma serpente, a mais bela do paraíso, fazendo-a aproximar-se graciosamente de Eva.
Eva, que assentada no gramado brincava com os animais, percebeu a presença da atraente serpente, cujo corpo refletia as
cores do arco-íris. Ficou admirada ao vê-la colher flores e frutos do jardim, depositando-os a seus pés. Agradecida, tomou-a
nos braços, dedicando-lhe afeto.
Tendo conquistado a afeição da mulher, Satã, em sua astúcia, começou a atraí-la para junto da árvore da ciência do bem e do
mal. Sem se dar conta do perigo, Eva acompanhou a serpente até a árvore da prova. Ali, tendo nos braços o inimigo velado,
acariciou-o e disse-lhe palavras de carinho. Tendo nos olhos o brilho da sedução, a serpente pôs-se a falar. Suas palavras
eram cheias de sabedoria e ternura e sua voz como a de um anjo. Eva mal pôde crer no que via. Sua alegria tornou-se imensa
por ter nos braços uma criatura tão fantástica. Passaram a conversar sobre muitas coisas: o amor; as belezas do jardim; o
poder do Criador. Eva ficou admirada ante o conhecimento tão vasto da serpente, que discorria com maestria sobre qualquer
assunto. Envolvida por essa experiência, Eva esqueceu-se completamente de seu companheiro. Nem sequer passavam pela sua mente as advertências dos anjos.
Subitamente o coração de Adão pulsou forte por não ver Eva a seu lado. Ergueu então a voz num grito ansioso. Sua
voz, ecoou pelo paraíso, contudo, não trouxe consigo uma resposta. O silêncio quase o sufocou. Em sua
aflição pôs-se a correr de um lado para outro, procurando-a, em vão. Nessa ansiosa busca, sentiu a brisa afagar-lhe os
cabelos e recordou seu primeiro sonho. Essa lembrança, no entanto, desfez-se ante o pensamento do perigo que os ameaçava.
Com a mente tomada por um grande senso de culpa, Adão apressou o passo na aflitiva procura. Onde estaria a sua amada? Mais uma vez ergueu a voz num grito ansioso que repercutiu por todo jardim: "Eva, onde você está?" Aguardou uma resposta, mas ouviu somente um eco vazio que o desesperou.
Lembrou-se da árvore da ciência do bem e do mal; ali era o único lugar que não fora procurado.

Com a serpente em seus braços, Eva interrogou-a a respeito de muita coisa. Maravilhou-se ao perceber que a serpente a
sobrepujava grandemente em conhecimento. Cheia de curiosidade, perguntou à serpente:
- Onde está a fonte de seu tão grande saber? Responda-me, pois quero também possuí-la.
Sem perder tempo, Satã, apontando para a árvore da ciência do bem e do mal, respondeu:
- Ali está a fonte de todo meu saber.
Ele conta então uma mentirosa história: disse que era uma serpente como as demais, comendo dos frutos do paraíso. Provando
certo dia daquele fruto especial, recebeu, como que por encanto, todas as virtudes.
Olhando para a árvore da ciência do bem e do mal, Eva ficou surpresa e confusa. Privaria o Criador em seu amor algo tão
bom às suas criaturas?! Vendo-a surpresa, Satã perguntou:
- É assim que Deus disse: Não comereis de todas as árvores do jardim?
Eva, inquieta, respondeu:
- Dos frutos das árvores do jardim comemos, mas do fruto dessa árvore que você diz ser fonte de sabedoria, disse Deus: "Não
comereis dele, para que não morrais."
A serpente em tom de desdém disse:
- Isso é falso. Se fosse assim, eu teria morrido. Certamente o Eterno os proibiu de comer dessa árvore para impedir que o
homem venha a se tomar como Ele, conhecendo todas as coisas.
As palavras sedutoras da serpente causaram confusão na mente de Eva. Em quem confiaria? Tinha em mente a lembrança da
ordem do Criador e de sua sentença, mas ao mesmo tempo tinha diante de si uma prova palpável que O contradizia.

Num desafio, a serpente colheu frutos da árvore proibida e passou a saboreá-los. Colocando um fruto nas mãos da mulher,
incentivou-a a comer, dizendo:
- Não disse o Eterno que se alguém tocasse nesse fruto morreria?
Em Jerusalém havia grande comoção. Poderosos anjos apresentaram-se diante do Criador, solicitando permissão para
esmagarem o covarde inimigo, oculto naquela serpente. O Eterno, contudo, impediu-lhes tal ação. Deviam respeitar o livre-arbítrio concedido ao homem, podendo ele manifestar sua escolha sob a
tentação do inimigo.
Os filhos da luz sofriam imensamente ao verem a mulher duvidando dAquele que tão bondosamente lhes dera a vida e a
oportunidade de reinarem naquele paraíso. Como poderia duvidar de quem lhes dedicava tanto amor?!
Eva vacilava em sua convicção ao contemplar o fruto em suas mãos. Seu brilho, seu encanto, uma forte magia atraia aquele fruto a sua boca. Por alguns momentos o futuro pareceu-lhe sombrio e aterrador, mas venceu esse sentimento, pensando nas glórias que haveria de conquistar ao comer aquele fruto. Ainda um tanto indecisa, ergueu vagarosamente as mãos até tocar o fruto com os lábios.
Os súditos do reino da luz, estremecidos, inclinaram-se tomados por grande espanto. Parecia quase impossível, àquela altura, a
mulher voltar atrás.
Enquanto pálidos os fiéis indagavam sobre uma possível esperança, presenciaram com horror a terrível decisão de Eva:
resolvera romper para sempre com o Criador, tornando-se cativa da morte.
O Eterno, que em silêncio e dor contemplava aquela cena de rebelião, curvou a fronte.
Os fiéis, que em pânico julgavam-se vencidos, foram conscientizados de que nem tudo estava perdido. Se Adão resistisse à tentação, permanecendo fiel ao Eterno, ele selaria a grande vitória. Eva, que fora vítima de um engano, poderia ser
conscientizada de seu erro, sendo favorecida com o perdão divino.
Quando Adão em sua angustiosa corrida alcançou o lugar da árvore, já era tarde demais. Assentada junto ao rio, Eva
saboreava despreocupadamente o fruto proibido. Adão estremeceu. Seria mesmo o fruto da prova? Num gesto de esperança olhou para a árvore da ciência do bem e do mal, mas em pranto reconheceu a triste condenação. Cheio de tristeza contemplou sua esposa, mas não encontrou palavras para despertá-la para tão amarga realidade. Em completo desespero, ergueu a voz numa dolorosa exclamação:
"Eva, Eva, o que você está fazendo!"
Ao comer do fruto proibido, a mulher foi tomada por emoções que a fizeram imaginar haver alcançado uma esfera superior de
vida. Ao ouvir a voz de seu esposo, ainda tomada pelas ilusórias emoções, ergueu a fronte estampando um sorriso, mas
surpreendeu-se ao vê-lo chorando.
Com profunda amargura, Adão procurou saber a razão que a levara a rebelar-se contra o Eterno. Eva, prontamente, passou a
contar-lhe a fantástica história da sábia serpente.
Satã sabia que essa história de serpente jamais convenceria o homem a comer do fruto da árvore proibida. Precisava encontrar
uma maneira sutil de levá-lo a selar sua sorte seguindo os passos de sua esposa. Tendo Eva sob seu poder, resolveu fazer dela
o objeto tentador. Aguardaria o momento oportuno para enlaça-lo.
No dia em que dela comerdes, certamente morrereis. A lembrança desta sentença deixava Adão muito aflito. A expectativa de
ver sua amada perecendo em seus braços, era demais para suportar. Esta aflição, contudo, foi diminuindo, ao ver que ela
continuava feliz e carinhosa ao seu lado, como se nenhum mal lhe houvesse acontecido. Aliviado, Adão voltou a sorrir,
correspondendo aos afetos de sua companheira. Rendia-se às mais doces emoções, longe de saber que era o inimigo quem o
envolvia naqueles abraços.
Nesse momento de enlevo, Eva começou a falar-lhe de sua experiência com a ciência do bem e do mal. Falou-lhe dos tesouros
da sabedoria que lhe haviam sido abertos. Em seu novo reino, viveria muito feliz. Entretanto, essa felicidade seria incompleta
sem a participação de seu esposo. Falou-lhe da impossibilidade de retroceder em seus passos, e insistiu para que ele a
seguisse.
Depois de falar-lhe de sua decisão, Eva, com um doce sorriso, estendeu-lhe as mãos contendo um fruto, pedindo-lhe que o
comesse numa demonstração de seu amor por ela.
Com a voz tentadora em seus ouvidos, Adão assentou-se no gramado em profunda reflexão. Sua face tornou-se novamente
pálida e suas mãos trêmulas. Temia rebelar-se contra o Criador, mas ao mesmo tempo compreendia que não conseguiria viver
separado de sua companheira, a quem amava com infinito amor. Eva era carne de sua carne, a extensão de seu ser.
Sentia-se angustiado ao ter de tomar uma decisão tão séria.
A palidez do rosto de Adão refletiu-se no semblante de todos os fiéis ao Eterno. Ouviram a insinuação do inimigo e
perceberam com horror a vacilação do homem. A indecisão de Adão deixava-os desesperados. Obedecesse ele àquela
proposta de Satã, toda felicidade seria eternamente banida. Nas decisões do ser humano estava o destino de todo o Universo.

Depois de intensa luta íntima, Adão olhou para sua companheira; a ela unira-se em promessas de uma eterna entrega. Não a
deixaria só agora. Partilharia com ela os resultados da rebelião. Tomou então das mãos de Eva um fruto e, num gesto
apressado, levou-o à boca.
Procurando abafar a voz de sua consciência, que lhe falava de uma eterna perdição, Adão lançou-se nos braços de sua
esposa, desfrutando o alto preço de sua rebelião.
Satã, com brados de triunfo, deixou o paraíso, voando rapidamente para junto de suas inumeráveis hostes, que aguardavam ansiosas o resultado de tão arriscada tentativa. Ao saberem da desgraça humana, uniram-se numa estrondosa festa. Sentiam-se seguros. Sião agora lhes pertencia por direito, podendo lá estabelecer um reino eterno, jamais sendo molestados pelas leis do Eterno.
Em todo o Universo os filhos da luz sofriam e pranteavam a derrota. Nunca houvera tanta tristeza e horror ante o futuro. As
vozes que viviam a entoar louvores ao Criador proferiam agora lamentações.
O Eterno, antes mesmo de criar o Universo já havia previsto esse triunfo da rebeldia e, em Sua sabedoria e amor, idealizara um plano de resgate. Ordenou que Seus mais poderosos anjos circundassem imediatamente o jardim do Éden, impedindo
que Satã tomasse posse do monte Sião. Consoladas ante a manifestação divina, as potentes criaturas, em pronta obediência,
romperam o espaço infinito, circundando em instantes o paraíso, no seio do qual o ser humano, já transtornado pelo pecado,
vivia o negror de uma noite que seria longa e cruel.
Sendo a autoridade do Eterno fundamentada na justiça, de que maneira poderia justificar Suas ações diante dos inimigos? Não
entregara por Sua vontade o reino ao homem, e esse por livre escolha não o submetera a Satã? Enquanto surpresas as
criaturas racionais consideravam as ações decisivas de Deus, ouviram Sua potente voz que, repercutindo por toda a criação,
trazia a revelação do grande mistério - revelação tão maravilhosa que a partir daquele momento, por toda a eternidade,
ocuparia a mente dos fiéis, sendo tema para as mais doces meditações.
O Eterno falou primeiramente sobre a terrível condenação que pendia sobre o homem e toda a criação. Disse que, ao se
desligar da Fonte da Vida, o homem havia se precipitado em tão profundo abismo que não poderia ser alcançado pelo Seu
braço de justiça e poder. Humilhado e torturado pelas garras do inimigo, não restava ao homem outra sorte além da morte -
fruto doloroso de sua espontânea rebelião.
Considerando a situação humana, as hostes da luz não viam possibilidades de triunfo. Sabiam que só o homem poderia retomar
o domínio do inimigo, devolvendo-o ao Criador. Mas o ser humano, eternamente escravizado em sua natureza, seria incapaz
de tal vitória.
Com voz melodiosa e cheia de ternura, Deus revelou o plano da redenção, dizendo: "Na verdade, o homem colherá o fruto de
sua rebelião numa terrível morte. Não posso, com o meu poder, mudar-lhe a sorte. Se assim agisse, seria injusto diante de meu
decreto. Mas farei cair toda a condenação sobre um Substituto que surgirá na descendência humana. Esse Homem não trará
em suas mãos as algemas da morte, sendo inocente e incontaminado em Sua natureza. Como representante da raça humana, enfrentará Satã e o vencerá. Após triunfar nessa batalha, provando que o amor é mais forte que o egoísmo, que a verdade é mais forte que a mentira, que a humildade é mais poderosa que o orgulho, o fiel Substituto erguerá as mãos vitoriosas não para saudar a grande conquista, mas para tomar das mãos da humanidade escravizada a taça de sua condenação. Sorverá assim, submisso, o cálice da eterna morte. Esse imenso sacrifício abrirá aos seres humanos uma oportunidade de serem redimidos, voltando aos braços do Criador, juntamente com o domínio perdido."
As hostes, surpresas ante a revelação do Eterno, indagaram a identidade d'Esse Substituto. O Criador, com um sorriso
amoroso, disse-lhes:
"Parte de Mim será esse Homem. O Meu Espírito repousará sobre uma virgem, e nela será gerado um Filho Santo. Esse menino será
divino e humano. Em sua humanidade, ele será submisso à divindade que n'Ele habitará. Os remidos verão n'Ele o Pai da
Eternidade, o Criador e Redentor, o Rei dos reis. O Seu nome será Yoshua
(nome hebraico que traduzido significa o Eterno salva)."
Assumindo a natureza humana, Deus poderia pagar o resgate, morrendo em lugar dos pecadores.
As hostes da luz ficaram emudecidas ao conhecer o plano do Criador. O pensamento de verem-nO submeter-Se a tão penoso
sacrifício, a fim de redimir o domínio perdido, era demais para suportarem. Não havia, contudo, outra esperança de vitória, a
não ser através dessa amorosa entrega.
Após desfrutar o pecado, o jovem casal sentiu-se mal. Inicialmente sentiram um grande vazio no coração, que
logo foi preenchido pelo remorso e pela tristeza. Perceberam que, inspirados pela cobiça, haviam selado sua triste sorte e a de
toda a criação. Parecia-lhes ouvir ao longe o gemido de um Universo vencido.
O sol, que os enchera de vida e calor naquele dia, ocultava-se no horizonte, anunciando-lhes uma negra noite. O arrebol, que
até ali anunciara-lhes o feliz encontro com o Criador, parecia envolve-los numa sentença de que jamais despertariam para um
novo dia. Com o olhar voltado para o frio solo, vinha-lhes à lembrança a sentença: "No dia em que dela comerdes, certamente morrereis." Desesperadas lágrimas rolavam em seus rostos ao aguardarem o trágico fim.
Ao considerar o motivo de sua rebelião, Adão começou a recriminar sua esposa por ter dado ouvidos à serpente. Eva, por sua vez, procurando desculpar-se, lançou a culpa sobre o Criador, dizendo: "Por que o Eterno permitiu que a serpente me
enganasse?!"
O amor que reinava no coração humano desaparecia, dando lugar ao orgulho e ao egoísmo, que se fundiam em ressentimentos
e ódio. Sua natureza já não era pura e santa, mas corrompida e cheia de rebeldia. Tudo estava mudado. Mesmo a brisa mansa
que até ali os havia banhado em carícias refrescantes, enregelava agora o culposo par. As árvores e os canteiros floridos, que
eram seu deleite, consistiam agora em empecilhos ao caminharem sem rumo naquela noite.
O propósito de Satã em encher o sábado de trevas parecia haver se cumprido. Naquela noite, não existia sequer o reflexo
prateado do luar para falar-lhes de esperança. As estrelas cintilantes, suspensas no escuro céu, estavam ofuscadas pela dor.
Baixavam sobre o mundo as trevas de uma longa noite de pecado - sombras sob as quais tantos se arrastariam sem esperança
de um alvorecer.
A noite já ia alta e as trevas pareciam envolver o triste casal em eternas sombras quando surgiu repentinamente um brilho no céu, que ia aumentando à medida que se aproximava da Terra. O casal estremeceu, pois sabia que era o Criador que vinha dar-lhes o castigo. Vencidos pelo pânico, puseram-se a correr, distanciando-se do monte Sião, o lugar da vergonhosa queda. Justamente para ali viram o Criador dirigir-Se. Eles, que sempre corriam ao encontro do amoroso Pai, atraídos por Sua luz, fugiam agora desesperados em busca de lugares escuros, de densa floresta.
O Eterno, movido por infinito amor, passou a seguir os passos do casal fugitivo. Como tudo se transformara! Seus filhos não conseguiam mais ver n'Ele um Pai de amor, mas alguém que, irado, buscava castigá-los.
Movido por forte anseio de abraçar Seus filhos humanos, Deus fez ecoar a voz numa indagação: "Adão, onde vocês se
encontram?" Sua voz, ao soar em meio às trevas, trazia consigo somente um eco vazio .
Quantos, enganados por Satã, fugiriam de Sua presença no decorrer da longa noite de pecado, julgando-No um Senhor tirano, que vive buscando falhas e fraquezas nos pecadores, a fim de castigá-los! O Criador, todavia, não desistiria de procurá-los pelos vales sombrios do reino da morte, até conquistar um povo arrependido.
Adão e Eva, exaustos pela pressurosa fuga, esconderam-se por entre a folhagem de um pé de figueira. Reconhecendo sua
nudez, procuraram fazer aventais cosendo aquelas folhas. Vestidos assim, julgaram poder livrar-se do sentimento de vergonha ante o Criador.
O Eterno, aproximando-Se do local onde o casal se escondia, perguntou:
- Adão, onde estão vocês?
Não podendo mais se ocultar de Deus, Adão ergueu-se juntamente com sua companheira e, cabisbaixos, apresentaram-se ao Criador, prostrando-se trêmulos a Seus pés. Não conseguiram encará-Lo mais, devido ao senso de culpa.
O Criador, carinhosamente, tomou-os pelas mãos, erguendo-os do chão, e, com expressão de tristeza no semblante,
perguntou-lhes:
- Por que vocês fugiram de Mim? Acaso comeram do fruto da árvore da ciência do bem e do mal?
Adão, todo trêmulo, com voz entrecortada de temor, respondeu:
- A mulher que me deste por companheira, ela deu-me o fruto e eu comi.
Com esta resposta, Adão procurava desculpar-se, lançando a culpa sobre sua companheira.
Voltando-Se para Eva, o Eterno indagou-lhe:
- Por que você fez isso?
Eva prontamente respondeu-Lhe:
- Aquela serpente me enganou e eu comi.
Ambos não queriam reconhecer a culpa, lançando-a sobre outrem. Em suma, atribuíam ao Criador a responsabilidade por
todo o mal praticado: "Por que concedera-lhes o livre-arbítrio? Por que criara a mulher? Por que criara a serpente?"
Deus observava Seus filhos que, tímidos e desconcertados, permaneciam diante de Si. Com profunda tristeza, Ele
previu que essa seria a experiência de incontáveis seres humanos no decorrer da história. Quantos haveriam de se perder por
não reconhecerem a própria culpa! Quantos procurariam justificar-se, lançando seus erros sobre os outros e até mesmo sobre o Criador!
Com palavras brandas, o Eterno procurou fazê-los reconhecer sua culpa. Somente reconhecendo sua necessidade, poderiam
ser ajudados.
Olhando para as frágeis vestes tecidas por mãos pecadoras, disse ao casal:
- Filhos, essas vestes são insuficientes, logo secando se desfarão. Vocês precisam de vestes duradouras, que possam cobrir
vossa nudez, livrando-vos da condenação. Se vocês quiserem, Eu posso dar-lhes essa veste.
Ante as palavras bondosas do Criador, que traziam esperança, o casal prostrou-se arrependido, despindo-se de suas ilusórias
vestes, símbolos de seu fracasso. Almejavam agora as vestes da salvação, prometidas pelo divino Pai.

A Criação do Universo V

Depois de contemplar Seus filhos que, arrependidos, jaziam a Seus pés, o Eterno tomou-os carinhosamente pelas mãos e os
levantou. Alegrava-Se em poder revelar ao homem caído o plano da redenção.
Deus passou a descerrar-lhes primeiramente os amargos resultados de sua queda, dizendo: "Filhos, vocês
selaram o destino de toda a criação nas garras da morte. A desarmonia já permeia a natureza, procurando destruir nela todas as virtudes. O abismo no qual vocês imergiram pela desobediência é por demais profundo para que possam ser alcançados pelo meu poderoso braço. Assim, desligado da Fonte da Vida, não resta mais ao ser humano outra sorte além da morte."
Depois de proferir estas palavras que revelavam uma triste sorte, o Eterno convidou o casal a segui-Lo. Cabisbaixos, Adão e
Eva, em pranto, seguiram o Criador em Seus passos de justiça, que encaminhavam-nos ao lugar da vergonhosa queda, onde
supunham encontrar o doloroso fim.
Enquanto caminhavam, contemplavam através das lágrimas as belezas adormecidas banhadas pela luz de Deus. Viam os
inocentes animais, que não tinham consciência da grande dor Subitamente, o casal se deteve, vencido por intenso pranto; seus
vacilantes passos os haviam levado para junto de um cordeiro, o animalzinho mais querido. Seus olhinhos de meiguice haveriam
também de se apagar!
Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno ordenou-lhes tomar nos braços o inocente cordeiro.
Envolvendo-o junto ao peito, acompanharam silenciosamente os passos do Criador, até alcançarem o topo do monte Sião, lugar da
vergonhosa queda. Contemplando ali os restos dos rubros frutos, com ímpeto lhes veio à mente a lembrança da sentença
divina: "No dia em que dela comerdes, certamente morrereis."
O terrível momento chegara. O homem culpado deveria sorver o amargo cálice da morte, sucumbindo sem esperança.
Consciente de sua perdição, o casal percebeu, com horror, que as mãos que os trouxeram para a vida empunhavam agora um
cutelo pontiagudo de pedra. Trêmulos, prostraram-se e esperaram pelo cumprimento da justa sentença.
Enquanto emudecidos pelo medo, Adão e Eva aguardavam o golpe que os reduziria a pó, sentiram o toque macio das mãos
divinas que os erguiam para uma nova vida. A condenação, contudo, haveria de recair sobre um substituto.
Colocando nas mãos de Adão o cutelo, o Criador lhe disse:
- O cordeiro morrerá em lugar de vocês.
Adão deveria sacrificá-lo.
Assustado ante a ordem de Deus, o casal, em pranto, pôs-se a clamar:
- Senhor, o cordeirinho não, ele é inocente! Com expressão de justiça, o Eterno acrescentou:
- Se ele não morrer, vocês não poderão ter as vestes das quais falei.
Ante a insistência do Criador, Adão, todo tremulo, num esforço doloroso, cravou no peito do cordeirinho aquela aguda pedra.
O golpe foi fatal, e o animalzinho, vertendo seu precioso sangue, mergulhou nas trevas de uma noite sem fim.
Contemplando o cordeirinho inerte sobre a relva ensangüentada, o casal ergueu a voz e chorou. Começavam a compreender a
enormidade de sua tragédia. Quão terrível era a morte! Ela, em seu poder, apagara toda a luz dos olhos do inocente animal.
Inclinando-Se silenciosamente sobre o corpo inerte do cordeiro, o Eterno tirou-lhe a pele revestida de branca lã e com ela fez túnicas
para cobrir a nudez do casal. Após vesti-los perguntou-lhes com carinho:
- Vocês entenderam o sentido de tudo isto?
Em profunda reflexão, por entre soluços de reconhecimento e gratidão, o casal exclamou:
- Ele morreu em nosso lugar, para dar-nos suas vestes!
Adão e Eva, embora compreendessem aquela realidade física, estavam longe de entender o significado daquele acontecimento.
A eles o Criador revelaria o mistério do divino amor.
Com expressão de infinita misericórdia, Deus passou a revelar ao ser humano o sentido daquele doloroso sacrifício, dizendo:
O inocente cordeirinho, que hoje padeceu, simboliza um homem que haverá de nascer. Em seus olhos haverá a mesma
meiguice, o mesmo amor. Revestido por uma vida justa, como a branca lã que cobria o cordeiro, esse homem crescerá como
um renovo sobre a Terra, não tendo nas mãos as algemas do pecado. Em sua aparência, esse homem não trará a pompa de
um rei, por isso será desprezado por muitos. Será um homem de dores, pois cairá sobre si o peso de todas as provações. Em
sua fidelidade ao reino da luz, esse homem lutará contra o inimigo usurpador, vencendo-o finalmente. Após triunfar em suas
lutas, tomará sobre si o fardo de vossa condenação que lhe causará uma terrível morte. Ele será traspassado por causa da
vossa rebelião e moído pelas vossas iniqüidades. Será oprimido e humilhado, mas não abrirá a sua boca, como o cordeirinho
que hoje entregou-se pacificamente. Sucumbindo na morte, ele vos concederá os méritos de sua vitória. Envolvidos por suas
vestes de justiça, estareis livres da condenação. A vida eterna alcançareis assim, mediante o sacrifício desse homem justo que
haverá de nascer.
Adão e Eva, que num misto de gratidão e dor ouviram a revelação de tão grande salvação, indagaram reverentes a respeito
desse homem especial que em sua descendência haveria de surgir, a fim de cumprir tão imenso sacrifício.
O Criador, olhando-os ternamente, movido por um amor que supera mesmo a morte, os envolveu num carinhoso abraço e
revelou:
- De Meu sofrimento surgirá este Homem!
- Nós somos merecedores da morte Senhor, mas Tu és inocente e não deves sofrer em nosso lugar!
Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno com ternura lhes falou:
- Meus filhos, Eu os amo com um eterno amor.
- Após sorver o cálice da eterna morte, Este Homem retomará a vida e subirá ao céu. Intercederei ali pelo homem perdido, concedendo
a todos aqueles que, arrependidos, aceitarem meu sacrifício, as vestes de minha vitória. Juntos, triunfaremos finalmente sobre o
reino do pecado que se desfará em cinzas sob nossos pés. Criarei então um novo Céu e uma nova Terra, onde unicamente a
justiça e o amor reinarão. Viveremos assim para sempre, num reino de perfeita harmonia e paz.
O Criador, que acompanhado pelo casal permanecia ainda sobre o monte Sião, concluiu Suas revelações dizendo: "O jardim
do Éden ficará agora vazio. O ser humano, durante a longa noite de pecado, vagueará em seu exílio. Não andará, contudo,
sozinho: o Eterno, também peregrino, trilhará com o homem toda a estrada espinhosa, até poderem juntos galgar o monte
perdido, triunfando gloriosamente sobre o reino da morte. A árvore da ciência do bem e do mal monumento da rebeldia será
então desfeita, dando lugar a uma árvore gloriosa que, unindo sua copa à árvore da vida, se tornará no arco comemorativo da
grande vitória. Sobre o santo monte redimido, repousará então para sempre o torno universal, que pelos fiéis triunfantes será
nomeado: o trono de Deus e do Cordeiro."
Adão e sua companheira, após ouvirem palavras tão confortadoras e cheias de esperança, ergueram a voz num cântico de gratidão e louvor. Conheciam agora o infinito amor de seu Criador e estavam dispostos a servi-Lo.
Depois de consolar o casal, Deus levou-os para fora do Éden. Não lhes foi fácil se despedir daquele precioso lar; ali haviam
despertado para a vida nos braços do Eterno; ali desfrutaram momentos de pura felicidade, em companhia do Criador, dos
anjos e dos dóceis animais. Uma saudade infinita parecia envolver o casal em seus passos de abandono.
Foi com espanto que Satã e seus súditos presenciaram a intervenção do Eterno. Ficaram abalados ante a surpreendente
revelação do plano de resgate. Com raivosa frustração, compreenderam que, se de fato a promessa divina se concretizasse, não restaria nenhuma esperança.
Depois de refletir sobre tudo o que acontecera, uma grande ira apossou-se de seu coração. Não estava disposto a reconhecer
a redenção do ser humano. Faria todos os esforços para retê-lo, juntamente com o reino que lhe fora entregue.
Quando o casal, acompanhado pelo Criador, alcançou o vale ferido pela morte, amanhecia. Ali Satã os enfrentou com fúria,
numa tentativa de se apossar novamente do ser humano. O casal ficou trêmulo em face do inimigo, mas as mãos protetoras de
Deus os acalmaram.
Expressando no semblante a firmeza de uma justiça que é eterna, o Eterno silenciou as ameaças do inimigo com as seguintes
palavras: "O ser humano Me pertence, pois Eu o comprei com o meu sangue".
Ao caminharem junto ao Criador, Adão e Eva observavam com tristeza os sinais da morte estampados naquela
natureza antes tão cheia de vida. As belas flores, que haviam desabrochado para exalar aromas eternos, pendiam agora
murchas; os passarinhos, que com alegria os saudavam em cada alvorecer com os seus trinos, voavam agora distantes, fazendo
soar tão tristes cantos! Tudo estava mudado na natureza. A ciência do bem e do mal não trouxera nenhum bem ao Universo,
mas um intenso conflito espiritual e físico.
Ante as conseqüências devastadoras de sua queda, o casal, vencido por uma indizível tristeza, prostrou-se arrependido e
chorou amargamente. Deus, que também compungido pela dor contemplava o cenário desolador, procurou, com palavras de
esperança, confortá-los. Falou-lhes sobre o novo Céu e a nova Terra que um dia criaria, onde a paz e o amor voltariam a
reinar em cada coração. Ali viveriam sempre juntos, não trazendo na fronte as marcas da tristeza, mas coroas de eterna vitória.
Ali enxugaria as lágrimas de suas faces e essas jamais voltariam a umedecer os seus olhos.
Amparando Adão e Eva em seus passos, o Criador conduziu-os através de um vale ferido, até alcançarem o sopé de uma
colina. Galgaram-na em lentos passos, enquanto trocavam palavras de ânimo e esperança. Seus pés alcançaram finalmente a
relva macia que cobria o topo espaçoso daquela colina. Era sobre aquele lugar que o casal via a cada dia o sol declinar,
banhando o céu e os vales de um vermelho vivo, como o sangue que jorrara do peito do cordeiro.
O sol declinava em sua jornada, anunciando a chegada de mais uma triste noite - a primeira fora do paraíso. Num calmo gesto,
o Eterno, mostrando-lhes o vale sobranceiro à colina, falou-lhes com carinho: "Aqui será vossa provisória morada. Daqui
podereis contemplar o paraíso que por algum tempo permanecerá na Terra, até ser recolhido ao seu lugar de origem, no seio
da Jerusalém Celeste. Ali, protegido pela justiça, aguardará o alvorecer da vitória. Quando esse grande dia chegar,
retornaremos juntos a Sião, onde seremos coroados em glória, num reino de eterna felicidade e paz".
Depois de dizer estas palavras, Deus ordenou ao casal que construísse naquele lugar um altar de pedras, sobre o qual a cada
semana, na noite que antecede o sábado, deveriam imolar um cordeiro, pela memória de Seu sacrifício. Como sinal de Sua
presença, e para a certeza de que seus pecados seriam perdoados, Ele acenderia um fogo sobre o altar, o qual duraria toda a noite, até consumir por completo a oferta do sacrifício.
Para que o ser humano pudesse firmar sua fé sobre as verdades reveladas, e não na manifestação visível da pessoa do Criador,
Ele haveria de permanecer invisível daquele momento em diante. Somente em ocasiões especiais, quando se fizesse necessário
Sua aparição ou a de anjos para novas revelações e advertências, isto ocorreria.
O Eterno disse-lhes com amor: "Filhos, embora vocês tenham de permanecer neste ambiente hostil, não precisam temer, pois Eu
permanecerei ao lado de vocês. Serei um companheiro amigo nesta jornada; levarei sobre os meus ombros suas dores, seus
anseios, suas lutas. Quando, tentados pelo inimigo, estiverem a ponto de ceder, poderão encontrar abrigo em meus braços, que
sempre estarão estendidos para salvá-los e, se algum dia vocês não resistirem, e pela fúria do inimigo forem arrastados para as
profundezas do abismo, não se desesperem julgando não haver esperança, pois Eu estarei ali para acudi-los com o meu perdão
e força. Tenham sempre em mente o significado das vestes recebidas das minhas mãos, pois elas falam da redenção que ao
homem pertence. Descansem filhos meus, nos meus braços de amor."
O Criador deixou o casal adormecido sobre a relva,
depois de beijar-lhes as faces já marcadas pelo sofrimento. Sua luz dissipou-se ao tornar-Se invisível, dando lugar às trevas
daquela primeira noite fora do paraíso.
Deus, ainda que invisível, permanecia ao lado de Adão e Eva ali na colina. O sofrimento deles era o Seu sofrimento, como
também a esperança de um dia retornarem vitoriosos a Sião.
Longa seria a noite do pecado, e renhida a batalha pela reconquista do reino perdido. O triunfo da luz requereria da parte de Deus um sacrifício imenso. Na pessoa do Messias, a seu tempo, ele nasceria entre os homens, com a missão de pagar o preço
do resgate. Por meio dEle muitos seriam libertos das garras do inimigo: todos aqueles que O aceitassem como Salvador e Rei.
Contra esses escolhidos, o inimigo arregimentaria todas as forças procurando fazê-los cair.
Em sua visão do futuro, o Criador contemplou com alegria o triunfo final dos redimidos. Haviam sido extremamente provados,
mas em tudo foram mais do que vencedores por meio dAquele que os redimiu das trevas para o reino da luz.
Depois de antever os sofrimentos que adviriam da grande luta, o Eterno estendeu o olhar pelas planícies cativas, contemplando
ali as hostes rebeldes dispostas para a luta. O objetivo desses exércitos, era apossar-se novamente do ser humano, no qual
estava selado o direito de domínio sobre o Universo.
Contrária à natureza do Criador é a guerra, mas para defesa de Seus filhos, estava disposto a empregar o Seu poder. Sua
força, contudo, somente seria empregada com justiça. Se o ser humano recusasse essa proteção oferecida mediante o sacrifício
do Messias, Deus nada poderia fazer para impedir que o mesmo perecesse nas garras do inimigo. Adão e Eva, contudo,
haviam se arrependido de seu grande pecado, recebendo pela misericórdia de Deus vestes de salvação, simbolizadas pelas
peles do cordeiro sacrificado.
Justificado pela entrega do casal, o Eterno convocou Seus poderosos exércitos para a peleja. Em pronta obediência as hostes da luz irromperam pelo espaço sideral em direção à Terra, circundando qual forte muralha a colina, portadora daquele tesouro redimido pelo sangue do divino Rei.
Ao ser humano fora conferido no Éden o dever de cuidar da natureza : preparavam canteiros para as flores; colhiam frutos para mantimento; dirigiam os animais em seu inocente viver, adestrando-os para que lhes fossem úteis. Essas ocupações tinham sido para eles fontes de desenvolvimento e prazer. Agora, apesar das adversidades, deveriam continuar realizando esse dever. O trabalho em si, realizado segundo as ordens do Criador, já anularia muitos ataques do inimigo.
As primeiras ocupações do casal naquela manhã, trouxeram-lhes revelações do grande amor de Deus, até então
desconhecidas. Ao reunirem as pedras para construção do altar, experimentaram a dor de feridas que jorram sangue, como
também a fadiga que faz minar suor. Sentindo e contemplando tudo na própria carne, amaram mais o Salvador, para quem o
altar construído prefigurava feridas maiores, que verteriam todo o Seu sangue, como também fadigas que minariam toda a seiva
de Sua vida.
O olhar de saudade e de esperança do casal de agora em diante, jamais pousaria no Éden distante, sem discernir primeiro o
altar dos sacrifícios. Esse altar, com suas manchas de suor e sangue, permaneceria como uma lembrança da dor e do
sofrimento que, depois de umedecer os lábios dos seres humanos, transbordaria na taça do Criador.
Após contemplar por longo tempo o paraíso da eterna vida que estendia-se muito além daquele altar escuro de morte, o casal
experimentou o doce alívio do descanso.
Desejosos de conhecer as paisagens de seu novo lar, Adão e Eva, animados pela esperança, saíram a passear. Seus passos
conduziram-nos por caminhos de sorrisos e de lágrimas; de encantos e desilusões; de flores que desabrochavam delicadas,
banhadas em perfume, e de flores despetaladas, tombadas murchas e sem cheiro; de animais ainda dóceis e submissos e de
animais inimigos, ferozes e ameaçadores. O casal discernia em seu passeio as divisas de dois mundos: o da luz e o das trevas;
do amor e do egoísmo; da esperança e do desespero; da harmonia e da desarmonia; da vida e da morte. Essa visão
encheu-lhes de tristeza e choraram longamente. Essa tristeza aumentaria ainda mais no futuro, quando descobrissem o
aprofundamento dessas divisas no seio de sua descendência.
Seis arrebóis já haviam colorido os céus anunciando ao casal as noites escuras e frias que com seu manto de trevas desfazia
todas as imagens vivas, menos a esperança de revê-las coloridas no alvorecer de luz.
Aproximava-se agora a hora do sacrifício, quando o rude altar, abrasado em sua justiça clamaria pôr sangue. Se não lhe
oferecessem a oferta, explodiria com certeza, envolvendo todo o mundo com suas chamas; Já não haveria então alvorecer,
nem esperança de Éden a florir.
Quão precioso é o sangue! Sangue é vida; vida é luz! Para um ser aquela noite tornar-se-ia eterna, sem alvorecer! Esse ser
deveria assumir a culpa de todo o mundo, dando o seu sangue ao rude altar.
Adão e Eva depois de refletirem por longo tempo, contemplando o berço da morte construído pôr suas mãos, entreolharam-se
inquietos com essa questão decisiva: Quem se oferecerá? Essa indagação nascida de sua culpa, fez vibrar no profundo de suas
lembranças a voz do bendito Criador em Sua revelação de infinita bondade: - Eu os amo com um eterno amor; Eu morrerei
em vosso lugar".
Agradecido, o casal prostrou-se reverentemente ante o sedento altar, vendo-o pela fé, saciado pelo dom do eterno amor.
Naquela tarde de sexta-feira, Deus submetia o ser humano a uma tremenda prova de fé. Eles tinham diante de si o altar de
pedras, construído conforme a ordem divina, mas não havia nenhuma ovelha para o sacrifício. Em seu anseio, lembravam-se do Éden, onde havia muitos rebanhos.
Ao verem o sol tombar no horizonte, Adão e Eva passaram a clamar a Deus por socorro, pois sabiam que somente um milagre
poderia providenciar-lhes, naquele derradeiro momento, um cordeiro para o sacrifício.
Quando as sombras do anoitecer começaram a envolver a colina, o casal que vivia tão dura prova de fé, discerniu um pontinho
branco que saltitava no gramado vindo em direção deles. À medida em que se aproximava, aquele vulto parecia falar de
esperança, de vida e calor. Ao verem que o grande milagre acontecera, correram ao encontro do cordeiro, envolvendo-o nos
braços. Ele estava fatigado, mas não descansaria: daria descanso. Estava sedento, mas não beberia: daria de beber ao altar que
clamava por sangue. Aquele cordeiro tinha vontade de viver nos braços do homem, mas morreria, para que esse pudesse viver
nos braços de Deus. Era um perfeito simbolismo do Redentor que deixaria Sua glória, vindo em busca do pecador.
As trevas de mais uma noite baixaram lentamente envolvendo toda a natureza em sua prisão. Sua força, porém,
seria quebrada diante do ser humano, pelo brilho de um fogo especial, aceso pelas mãos do divino perdão sobre o corpo sem
vida do inocente cordeiro.
Em meio à noite o altar clama; o homem triste exclama, enquanto o cordeiro, mudo, não reclama ao ser estendido para a
morte.
As mãos que construíram o altar erguem-se agora, não para acariciar como outrora, mas para ferir, sangrando o preço do
perdão. Só um gesto, nada mais, e a estrela se apagará para sempre dos olhos inocentes, fazendo brilhar na face culpada a luz
da salvação.
Adão, trêmulo hesita em compaixão. No cordeirinho manso e submisso, pronto a morrer em seu lugar, vê o Salvador
prometido. Com o coração arrependido, num esforço doloroso, crava o cutelo de pedra no peito do animalzinho que perece
em suas mãos sem sequer dar um gemido.
O poder da noite imediatamente é quebrado pelo brilho do fogo da aceitação. Sua luz revela ao ser humano sua trágica
condição: Vendo as mãos manchadas pelo sangue inocente, o casal sente-se culpado por aquela morte. Em pranto ajoelham-se
ante o altar que já não lhes reclama sangue, mas oferece luz, aceitando o imerecido perdão.
Erguendo-se, o casal contempla demoradamente o corpo ferido do pobre cordeirinho, sem poder agradecer-lhe pela riqueza
concedida em troca de seu tão rude golpe.
Banhados pela suave luz do sacrifício, Adão e sua companheira permanecem a meditar, até serem vencidos por um
profundo sono. Recostando-se ao solo coberto de relva macia, adormecem docemente sob os cálidos raios do perdão, certos
de que seu brilho e calor perdurariam até serem as trevas daquele sábado desvanecidas completamente pelo fulgurante sol.
A luz do cordeiro, desde que fora acesa sobre o altar naquela noite, permanecia em constante guerra com as trevas. Por várias
vezes crescia em brilho, afugentando para distante a fria escuridão, banhando a natureza com os seus raios de vida. Por vezes, as trevas trazendo o seu vento frio, quase bania por completo a chama. Essa, todavia, num grande esforço alimentava-se do sangue do cordeiro, lançando ao alto sua ardente chama, inundando de luz e calor tudo aquilo que havia ao redor.
O conflito entre a luz nascida do sacrifício e as trevas naquela noite, descerravam aos fiéis do Universo muitas lições
importantes - verdades que ocupariam suas mentes por toda a eternidade. Naquela chama, ora ardente em seu brilho, ora
fustigada pelos ventos da noite, os fiéis viam uma representação do conflito milenar entre o bem e o mal; conflito que sem
trégua se estenderia até o alvorecer . O Eterno, no penhor de Seu futuro sacrifício, acendera em meio das trevas, a luz
da verdade, e essa seria mantida acesa no coração do ser humano, em virtude de Seu sangue que seria derramado para
remissão da culpa. Contra essa luz, o inimigo arremessaria todos os ventos frios da maldade, banindo do coração de muitos o
seu doce brilho. Quantos jazeriam perdidos por recusarem a luz do perdão divino, ficando envoltos pelas trevas da escura
noite!
Depois de longas horas de combate, surge no céu os sinais do amanhecer. A escuridão que com ira havia lançado seus ventos
sobre a imorredoura chama procurando bani-la, torna-se confusa ante os sinais do amanhecer. O céu tingido de um vermelho
vivo, faz lembrar o sangue que jorrara do peito do cordeiro para que a chama do perdão pudesse iluminar a noite humana. Em
meio ao colorido de sangue, surge no horizonte o fulgurante sol, trazendo em seus aquecidos raios o sabor da vitória,
envolvendo tudo com sua vida. O alvorecer em seu saudoso afeto, acaricia o distante paraíso, levando de seu amado seio em
sua brisa matinal o aroma da saudade, numa mensagem de consolo e esperança às criaturas sofredoras do vale da morte.
Banhados pelos cálidos raios e pela brisa da esperança, o casal desperta em mais um sábado, cujo simbolismo aponta para o
descanso no reino de Deus, ao culminar o grande conflito entre a luz e as trevas.
Para além daquele altar coberto de cinzas, Adão e Eva contemplam demoradamente o saudoso paraíso. Ainda que distantes em seu exílio, alegram-se com a certeza de que o sacrifício do Messias fará raiar para eles o sábado dos sábados: aquele de lágrimas para sempre banidas; de sol sempre a brilhar num límpido céu; de cordeiros sempre vivos a brincar pelo gramado; dia sem anoitecer, quando não haverá mais altar coberto de sangue e cinzas. Suspiram por esse dia de glória, quando Des Se fará
eternamente visível, levando nas mãos as marcas de Seu infinito amor pelos Seus filhos.
Adão e Eva que estavam acostumados às flores eternas no paraíso, aquelas que não as viram desabrochar, viam-nas agora
surgirem em tenros botões, em meio às ameaças de espinhos prontos a ferirem. Essas tenras flores, sem importarem-se com os
espinhos, exalavam perfumes suaves de louvor e gratidão, jamais se cansando de agradar o ambiente. Quando fustigada pelos
ventos frios da noite, essas flores não se ressentiam, mas ofereciam seu aroma, que transformava a fúria dos ventos em brisas perfumadas de um alvorecer.
Movidos por profunda gratidão, o casal acompanhava atentamente o ministério de amor daquelas flores que, jamais se
cansavam de abençoar, oferecendo sua beleza e perfume como alívio para aqueles que eram feridos pelos rudes espinhos.
Aquelas flores singelas e puras, depois de mostrar em sua curta vida que o perdão e o amor são mais fortes que todos
os ventos e espinhos, num último esforço de comunicar alegria, exalavam seu perfume, tombando murchas e sem vida
sobre o solo frio. Ali, esquecidas, transformavam-se em insignificante pó que era espalhado pelo vento.
A morte das flores, ainda que parecesse fracasso, revelou ao casal o mistério do renascimento da vida: Morrendo, as flores
davam vida aos frutos que, por sua vez, depois de servirem de alimento, doavam suas sementes cheias de vida. Na morte
dessas sementes, renascia o milagre da vida, multiplicando as árvores com suas flores prontas a repetir o ensinamento do amor
e do sacrifício.
A natureza, portanto, embora maculada pelo pecado, revelava o mistério oculto do plano da redenção. Cada flor a
desabrochar em meio aos espinhos, em sua curta vida de amor, era um símbolo do Salvador que nasceria entre os espinhos da
maldade, para com o seu perfume consolar o coração dos aflitos. Semelhante à flor, o Messias depois de provar que o amor e
o perdão são mais fortes que todos os ventos do ódio; que a verdade e a justiça do reino de Deus são maiores que todos os
enganos e injustiças do reino do inimigo, verteria a seiva de sua vida, morrendo para redimir os culpados.

A Criação do Universo VI

Consolados pelas revelações da natureza, Adão e sua companheira, aprendiam a cada dia a amar mais o Salvador. Cresciam em sabedoria, humildade e santidade. Todas as virtudes destruídas pelo pecado, renasciam no coração.
A colina, sob a proteção dos anjos da luz, tornou-se numa miniatura do Éden distante. Entre os animais reunidos e domados com amor, haviam muitas ovelhas. Na noite que antecedia cada sábado, Adão tinha, por ordem do Criador, de repetir o doloroso ato. Quanta amargura e arrependimento sobrevinham ao casal ao baixarem as trevas da noite do sacrifício! Quanto consolo lhes trazia a chama do perdão que jamais deixara de brilhar sobre o altar.
O decisivo valor do sacrifício, para que a vida pudesse florescer sob a proteção divina, levou o casal a valorizar imensamente o seu pequeno rebanho. Cada sexta-feira, contudo, passou a trazer consigo, além da dor, uma inquietação: - Quem doará seu sangue ao altar quando a última ovelha perecer?
Aos olhos do casal maravilhado, aconteceu enfim o milagre do amor, renovando-lhes a esperança de viverem outras semanas sob o brilho da chama do perdão: uma ovelha, a mais gorda delas, passou a sangrar como em sacrifício; De sua dor, nasceram-lhes quatro cordeirinhos.
Cheios de alegria e gratidão, Adão e Eva prostraram-se ante o Salvador invisível, tendo nas mãos aquelas novas criaturinhas que traziam em seus olhos a mesma meiguice e disposição para o sacrifício.
Seguros de que novos milagres multiplicariam seus dias, o casal uniu sua voz como outrora, num cântico de gratidão e adoração ao Criador que, como os cordeirinhos nasceria também da dor para cumprir em sua vida o maior de todos os sacrifícios, para salvação da humanidade.
O Eterno, embora invisível aos olhos de Seus filhos humanos, permanecia bem próximo, acompanhado por um exército de anjos, em incansável ministério de cuidado e proteção. O casal estava inconsciente de que a doce calma e paz reinantes naquela colina, bem como toda a sua prosperidade, eram frutos de tão intensa luta. Se os seus olhos fossem abertos para as cenas que ocorriam invisíveis, ficariam tomados de espanto; Quão terrível era o inimigo e suas hostes em suas constantes investidas com o propósito de arruinar o ser humano, arrebatando-o das mãos do Criador.
Depois de contemplar os de cordeiro, Deus fitou o casal com ternura, revelando-lhes algo que os surpreendeu e alegrou:
- Quando desses cordeiros trinta e seis houverem subido ao altar, os vossos braços envolverão o primeiro filho que, como eles surgirá também da dor. Esse filho em sua infância lhes trará alegria saltando como os cordeirinhos em vosso lar. Devereis instruí-lo com dedicação nas leis da harmonia, mostrando-lhes o caminho da redenção. Como vocês, ele será livre para escolher o rumo a seguir. Aceitando o ensinamento, sua vida será vitoriosa; rejeitando-o, caminhará para a derrota.
Adão e Eva ouviram com alegria a promessa divina, mas ao mesmo tempo experimentaram no profundo do ser um temor ao conscientizar-se da responsabilidade que teriam. Sabiam que Satã faria todos os esforços para levar a criança prometida à perdição.
Era noite alta quando o Criador, depois de acariciar seus filhos, os deixou adormecidos sobre o gramado macio.
Depois da promessa, cada cordeirinho levado ao altar fazia pulsar mais forte no ventre materno a esperança da alegria que em breve alcançariam. Trinta e seis finalmente baixaram às trevas cumprindo o tempo determinado pelo Criador em que a primeira criança receberia a luz.
Com as mãos ainda manchadas pelo sangue do sacrifício, Adão amparou sua esposa que, aos pés do altar prostrou-se vencida pela dor que lhe trouxe o primeiro filho. A pequena criança não trazia na face a alegria da liberdade, mas o choro de sua prisão; Esse pranto duraria a noite inteira, não fosse o brilho daquela chama aquecida de esperança que, logo atraiu a atenção de seus olhinhos atentos. Envolvendo-o com alegria, Eva consolada de seu sofrimento, disse: "Alcancei do Senhor a promessa". Deu-lhe então o nome de Caim.
Depois de envolver o filhinho com as peles macias de um cordeiro, o casal permaneceu acordado a meditar. Muitos eram os pensamentos que ocupavam suas mentes: pensamentos de alegria, de gratidão, de esperança e de anseio pelo senso da responsabilidade que agora pesava sobre seus ombros.
Acariciando com ternura a pequena criança, o casal amadureceu em sua experiência, compreendendo melhor o misterioso amor de Deus que, para salvar Seus filhos, dispôs-Se a morrer em lugar deles.
Adão e Eva não estavam sozinhos em suas reflexões: todos os seres inteligentes do Universo consideravam com interesse sobre o futuro daquele indefeso bebê que no íntimo trazia um reino de dimensões infinitas, a ser disputado pelos dois poderes em luta.
Vendo a criança esboçar o seu primeiro sorriso, o casal subitamente lembrou-se da promessa do Criador que era confirmada em cada sacrifício : Ele nasceria da mulher como criança, com a missão de redimir a humanidade. Não seria Caim já o cumprimento da promessa? O infante com seus olhinhos brilhantes de alegria se parecia tanto com os cordeirinhos que nasciam e cresciam com a missão de serem sacrificados! Considerando assim, o casal apertando o filhinho junto ao peito começou a chorar sem consolo. Quão terrível, seria oferecer seu filhinho inocente ao rude altar!
Para o casal compungido pela dor, surgiu em fim o brilhante sol fazendo reviver com seus cálidos raios as promessas que apontavam para um Salvador que, ainda no futuro, nasceria também da dor para cumprir o eterno plano de redenção.
Abençoada pelo Criador e envolvida pelo amor e cuidado dos pais, a criança se desenvolvia em sua natureza física e mental, tornando-se a cada dia alvo maior de uma incansável batalha entre as hostes espirituais.
Adão e Eva, ansiosos por fazê-lo compreender as verdades da salvação, tomavam-no nos braços a cada alvorecer e, à beira do altar lhe apontavam o Éden distante, contando aquelas histórias de emoção as quais o pequeno Caim ainda não conseguia compreender. Qual foi a alegria daqueles pais, ao vê-lo numa manhã de sol, apontar com a mãozinha para o lar da saudade, pronunciando o nome sagrado do Criador. Emocionados tomaram-no nos braços, pedindo-o para repetir esse sublime nome que, qual chave de felicidade, sempre descerrava-lhes um paraíso de eterno amor.
Todas as hostes da luz inclinaram-se com alegria ao ouvir a pequena criança pronunciar o nome do divino Rei.
As semanas iam se passando trazendo consigo novas vítimas para o altar, e o pequeno Caim, alvo da atenção e cuidado de Deus, das hostes da luz e daqueles amantes pais incansáveis na missão de instruí-lo, agrupando suas poucas palavras, sempre curiosos com tudo passou a interrogar.
O dia declinava quando o menino, que jazia ao colo de sua mãe, perguntou-lhe:
- Mamãe, por que o sol sempre vai-se embora, deixando a gente no frio da escuridão?"
Eva, surpresa contemplou seu filho, sem encontrar palavras para responder-lhe a indagação que trouxe-lhe à lembrança o passado de felicidade destruído por sua culpa. Após um momento de silêncio, beijando a face do pequeno Caim, disse-lhe:
- Filhinho, um dia o sol virá para ficar, trazendo em seus raios um mundo só de harmonia; já não haverá animaizinhos a brigar, nem cordeirinhos a morrerem sobre o altar"
Caim, insatisfeito com as palavras da mãe, demonstrou não ter paciência para aguardar esse dia que jazia em distante futuro. Repetia em pranto: - "Eu quero o sol hoje , amanhã não!"
Eva, pacientemente, procurou acalmar seu filho, falando sobre a luz de Deus, que pode tornar a noite em dia. Ele o amava e poderia encher seu coraçãozinho de brilho, de alegria e paciência. Poderia assim, aguardar feliz o dia de seus sonhos.
Balançando a cabecinha em rejeição ao consolo da mãe, Caim proferiu entre soluços: -"Eu quero o sol porque eu posso vê-lo, ao Eterno não".
Como uma seta dolorosa as palavras de rebeldia de Caim penetraram no coração de Eva, fazendo-a chorar amargamente. Uma tristeza infinita pairava sobre o coração do Criador rejeitado. Esboçavam-se nos gestos de Caim os primeiros passos pelo caminho descendente da rebeldia. Quantos o seguiriam rumo à morte!
Inconsciente da tristeza que abatera-se sobre o reino da luz, Adão, ao ver o sol declinar no horizonte, deixou seu trabalho no campo rumando-se para casa. Tinha um cântico no coração ao caminhar para mais um encontro com os seus.
Ao aproximar-se do altar, viu junto dele sua companheira prostrada em pranto. O pequeno Caim jazia também ali a chorar. Tomando-o nos braços, Adão perguntou-lhe com anseio: -"O que aconteceu meu filho?" Caim tristemente respondeu: -"Mamãe deixou o sol ir embora"
Amparando o filho com seu braço esquerdo, Adão pousou sua mão direita sobre o ombro de Eva, mas não encontrou palavras para consolá-la. A frase dita por seu filhinho, pareceu rasgar-lhe o coração, fazendo-o reviver a queda.
Depois de refletir, Adão sentindo-se culpado respondeu para Caim: -"Foi o papai quem deixou o sol ir embora meu filho!".
Com soluços de grande tristeza, Adão uniu-se a eles no pranto. A lembrança do Salvador, contudo, o consolou. Enxugando suas lágrimas e as de seu filhinho, disse-lhe com ternura: -"Podemos nos alegrar filhinho ,pois Deus prometeu fazer o sol para sempre brilhar no céu; ele será como o fogo que surge no altar, banindo as trevas da noite".
Com os olhinhos voltados para o último clarão do arrebol, Caim permaneceu sem consolo.
Naquele entardecer, não houve como de costume um alegre jantar. A pequena família, entristecida, permaneceu a meditar por longas horas, até sonolentos adormecerem sob a luz das estrelas.
O inimigo e suas hostes, em sarcasmo de maldade zombaram naquela noite do sofrimento de Deus e Seus fiéis. Repetindo as palavras de rebeldia do pequeno Caim, ufanava-se como vencedor. Num desafio ao Criador pronunciou : - Veja como esse meu pequeno escravo te rejeita! O mesmo se dará com todos aqueles que hão de nascer. Estou certo de que o direito de domínio jamais sairá de minhas mãos.
Todas as hostes rebeldes repetiram em eco as afrontas do enganador, humilhando os súditos da luz que sofriam do lado do Eterno.
Com suas afrontas, o inimigo procurava fazer Deus desistir de Seu plano de redenção. Se isso acontecesse, seu reino de trevas se estenderia por toda a eternidade , suplantando o domínio da luz.
Em resposta ao desafio do inimigo, o Eterno afirmou solenemente : - Ainda que todos me rejeitem , Eu cumprirei a promessa.
O Criador não suportava o pensamento de ver o pequeno Caim caminhar para a perdição. Por ele intercedia a cada dia, oferecendo ante a justiça o Seu sangue que verteria. Anjos poderosos guardavam-no a cada momento, espancando as trevas espirituais que o acercavam procurando torná-lo insensível aos benefícios da salvação , que eram ilustrados pelos símbolos.
Adão e Eva em seu incansável ministério de amor, todos os dias ensinavam a Caim as lições espirituais ilustradas na natureza. Em cada sábado procuravam firmar em sua mente juvenil a esperança de uma vida eterna, que seria fruto do sacrifício do Salvador. Ele depois de viver uma vida sem pecado, morreria como um cordeiro , para poder expulsar para sempre as trevas.
A contemplação do Éden distante banhado em sol fez nascer no coração juvenil de Caim pensamentos de aventura. Ele começou a pensar : "Este paraíso não está tão longe como afirmam papai e mamãe. Por que esperar e sofrer tanto tempo?! Ele é tão belo! É dele que surge todos os dias o sol! Se o conquistarmos, será fácil deter a luz em sua nascente; Assim viveremos num paraíso de eterno sol.
As idéias de aventura de Caim, enchiam o coração de Adão e Eva de tristeza. Viam que seu interesse era somente pelo tempo presente; ele sonhava com um paraíso de felicidade e luz conquistado por sua força. Em seus planos, não sentia necessidade de um Salvador; - Para que, se era tão jovem, inteligente , cheio de vida e ideais?- dizia.
Os dias de lutas, intercessões e sacrifícios pelo destino de Caim foram se passando. Oportunidades preciosas surgiam em cada dia diante dele para se apegar ao Salvador, mas a todas rejeitava, uma por uma. Em sua incredulidade chegou a duvidar da existência desse Deus, o qual jamais vira.
Aos pais que, aflitos mas sempre com paciência, procuravam livrá-lo da perdição para a qual estava caminhando, prometeu um dia , após sorrir com ar de incredulidade, crer no Criador e em Seu plano de salvação, caso Ele se tornasse visível na hora do sacrifício.
Com ardente fé, aqueles pais passaram a clamar ao Eterno. Sua presença visível poderia, quem sabe, salvar aquele filho querido que a cada dia tornava-se mais rebelde.
O Criador ouviu o clamor dos pais aflitos. Embora soubesse que Sua aparição dificilmente quebraria no coração do jovem Caim seu espírito rebelde, estava disposto a cumprir o pedido. Estenderia os braços amigos a Caim, procurando com amor conquistar-lhe o coração. Como conhecia os seus anseios e sonhos de aventura, facilmente poderia identificar-Se com ele, cativando-o, pois era também Alguém que sempre carregara no peito sonhos de aventura; Não fora a criação do Universo uma grande aventura?! Não fora o Seu sonho vê-lo cravejado de sóis fulgurantes, iluminando bilhões de mundos com o seu brilho?! Não era também o Seu maior atravessar o vale da morte, em busca da conquista do Éden distante, prendendo para sempre o Sol em seu céu?! Tinham muita coisa em comum!
Caim estava curioso naquela sexta-feira. Na face dos pais, via ânimo e alegria, frutos de uma fé grandiosa. Incentivado por essa expressão de confiança, o jovem passou a ajudá-los nos preparativos para o santo sábado.
O Sol finalmente esquivou-se rolando para o poente, deixando como de costume seu rastro de saudade que anunciava medo. Em meio às trevas, Caim discerniu o vulto branco do cordeiro sendo erguido para o altar pelas mãos do pai - esse incansável sacerdote que sempre estava implorando ao Criador pela salvação de seu amado filho.
Com a mão erguida, Adão preparava-se para o golpe que poderia, quem sabe, quebrar no coração de Caim sua incredulidade, fazendo nascer num só momento a crença na salvação. De seus lábios escapa-se então a prece da fé: - Pai Eterno, ouve o meu pedido; Meu filho precisa de Ti! Somente um olhar Teu poderá conquistá-lo. Venha Senhor!!
Esta oração sincera caiu nos ouvidos daquele filho comovendo-o. Somente a prece já seria suficiente para convencê-lo da existência real de um Salvador.
Um forte brilho envolveu logo toda a colina banhando também o vale oriental .Os olhos arregalados de Caim pousaram então nos olhos amáveis do Criador, que trazia na face um brilho superior ao do sol, mas não ofuscante. Contemplando-O com admiração, Caim exclamou: - Ele é jovem como eu, e se parece com o Sol!
Adão e Eva, comovidos pela grande saudade tinham vontade de saltar ao peito do Salvador e beijá-Lo, mas deixaram que Ele Se encontrasse primeiro com Caim. Com alegria , viram o precioso filho envolvido nos braços do grande amigo, que era parecido com o seu astro.
Depois de longo abraço, Deus abraçou e beijou também o querido casal, companheiros no sofrimento.
Caim, conquistado pela afeição do Pai Eterno, mostrou-Lhe seus animais de estimação e seu pequeno jardim carregado de lindas flores. Como estava encantado por vê-los coloridos naquela noite desfeita pelo brilho do Criador, como sob a luz do dia! Parecia até mesmo que o Sol baixara a eles.
Ao pensar no Sol, Caim como o amava muito, passou a falar sobre ele dizendo:
- Como ele é belo e bom! Quando ele vai-se embora, deixa em suas lágrimas de sangue um sentimento de tristeza e temor. Tudo desaparece em sua ausência : os animais, o jardim; até os passarinhos silenciam os seus cantos! ...Mas basta ele dizer que vai aparecer, tudo se enche de encanto; A natureza se desperta de mansinho, parecendo ainda temer as trevas, mas quando as vê fugir , fica alerta e canta; Os animais, os passarinhos, o jardim,... tudo volta a viver feliz! Mas, esta felicidade sempre acaba!!!
Após falar estas palavras, Caim fitando o Criador indagou curioso:
- Papai sempre diz que foi você quem criou o Sol. É verdade?
Com um sorriso de sinceridade Deus respondeu-lhe que sim.
- Quando Você o fez no princípio, continuou Caim, ele já fugia para o poente?
- Ele nunca foge, respondeu o Eterno, é o mundo quem foge dele. Ele fica triste com essa ingratidão!
--Mas como? Perguntou Caim, contemplando curioso Sua face de luz .
Com palavras carinhosas, Deus passou a contar-lhe a história de Lúcifer que, em sua ingratidão baniu de seus olhos e dos olhos de uma multidão de criaturas, o brilho de Sua face - o Verdadeiro Sol. Depois de assim agir, iludiu a muitos dizendo que foi o Sol quem fugiu deles. Com sua astúcia, continuou o Criador, o anjo rebelde procurou arrastar o ser humano para as trevas, e conseguiu. O Sol naquele dia, chorou tantas lágrimas de sangue, que banhou todo o céu. Em seu último suspiro de luz, porém, ele prometeu ao mundo já tomado pelas trevas, voltar um dia a brilhar para sempre, enchendo todo o seu seio de vida.
Após falar-lhe estas palavras, o Eterno fitando aquele jovem, com expressão de tristeza nos olhos concluiu dizendo: - Hoje, o anjo rebelde promete a seus seguidores que irá com sua força deter o sol, mas ele jamais conseguirá realizar esse plano, pois não possui o laço que poderá detê-lo : o amor.
Cabisbaixo, Caim ouviu dos lábios do Criador essa história de promessas, a qual já se cansara de ouvir de seus pais. Essa história não lhe dava prazer, pois mostrava uma noite longa de sacrifícios sobre o altar, e de um Salvador a perecer em dor. Em realidade, Caim não via razões para tudo isso. Por que não banir logo o sofrimento colorindo as trevas de luz?!
Num esforço para conquistá-lo, o Eterno com muito amor fitou aquele jovem insatisfeito, e disse-lhe que, somente o sangue de Seu sacrifício poderia fazer o Sol para sempre brilhar, num reino de eterna felicidade e paz. Não havia outro caminho para essa conquista. Por isso, deveria ser paciente, descansando-se sob o Seu cuidado.
Após conversar por longo tempo com Caim, na tentativa de fazê-lo reconhecer sua necessidade de salvação, Jeová voltando-Se para o casal, passou a consolá-los com a promessa do nascimento de outro filho. Mais trinta e seis sacrifícios seriam contados, e seus braços envolveriam o segundo filho. Nasceria também da dor, mas traria nos olhos o brilho e o consolo da salvação. O seu testemunho de fidelidade ficaria perpetuado por todas as gerações, no símbolo de um altar coberto de sangue.
As semanas iam se passando, trazendo ao casal novas de alegrias e tristezas : de um coração cheio de vida a pulsar no ventre de Eva, e de um vazio com cheiro de morte a crescer no coração do jovem Caim. Ainda que ele tenha ficado deslumbrado ante a manifestação de Deus, em nada essa aparição mudou-lhe sua maneira arrogante de pensar sobre o sentido da vida. Ele não via sentido nos sacrifícios oferecidos no altar. Nos dias que seguiram o seu encontro com o Criador, ele argumentava com os seus pais dizendo: - Se eu fosse poderoso como o Eterno, eu jamais me submeteria ao sacrifício para reconquistar o reino perdido. Ele é forte, e brilha como o sol. Ele poderia com uma só palavra expulsar todas as trevas, devolvendo-nos o paraíso. Para que tanto sofrimento?! Com essa argumentação, Caim supunha-se mais sábio que o Criador. Quem sabe, num próximo encontro teria oportunidade de aconselhá-Lo.
Dessa forma, o jovem Caim aprofundava-se cada vez mais no abismo do orgulho e do egoísmo - lugar de ilusões para onde se ia, pensando estar caminhando para a vitória. Não fora Lúcifer juntamente com um terço das hostes celestes atraídos por essa mesma ilusão?! O bondoso Deus , todavia, não selaria o destino de Caim sem antes procurar de todas as formas salvá-lo da ruína eterna. Essa graça imerecida, fruto do divino amor, seria concedida a todo o ser humano que viesse a nascer neste mundo.

Livro de Malquisedeque
A História de um Vaso
Capitulo I
Estava descansando sob a sombra do Carvalho de Mambré junto à minha tenda, quando vi chegar apressadamente um dos servos de meu sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia: Houvera no dia anterior uma batalha entre as cidades da planície, envolvendo quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e muitos de seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo tempo em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me fragilizado, sem nenhuma condição.
Sempre fui um homem pacifico e detesto aqueles que derramam sangue. Tenho muitos servos, mas poucos sabem manejar espadas e lanças, pois desde à infância são treinados como pastores. Em lugar de espadas e lanças, eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos; Em lugar de escudos, eles carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca, para matarem sua sede e refrigerarem as ovelhas aflitas; Em lugar de vinho para se embebedarem, carregam presos em seus cintos pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com os quais untam as feridas do rebanho; Em lugar de ressonantes trombetas, eles sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o curral
Imaginando como seria um combate entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis vitoriosos, comecei a rir. Enquanto gargalhava, a voz dAquele que sempre me guia, soou aos meus ouvidos, dizendo:
- Abraão, Abraão! Não menospreze os instrumentos dos pastores, pois santificados pelo fogo do sacrifício, haverão de conquistar o grande livramento.
O Eterno passou a dar-me ordens, fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento haveria de realizar-se.
O primeiro passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos, dirigiram-se ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao todo 600 pastores.
Ordenei que esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija.
Depois de cumprirem esta ordem, pedi que tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeito dos jarros.
Depois destas coisas, Yahwéh mandou-me tomar um grande vaso de barro, enchendo-o até a metade com o azeite das oliveiras
Ao concluir esta tarefa, o Senhor mandou-me fazer um longo pavio de lã, enfiando a metade dentro do azeite e deixando a outra parte presa acima do vaso.
Depois destas coisas, Yahwéh ordenou-me acender o pavio, com o fogo do altar. Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia sobre o sacrifício da manhã, uma pequena fagulha saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se alimentando do azeite, até tornar-se numa labareda que podia ser vista de longe.
A História de um Vaso
Capitulo II
Com o vaso nos ombros, comecei uma caminhada rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos pastores. Logo começaram a surgir escarnecedores que, ao verem-me com aquele vaso incandescente em pleno dia, e passaram a dizer que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro, trazendo conselhos para que eu abandonasse aquele vaso que seria capaz de destruir toda a minha reputação e dignidade diante de todos eles.
Quando eu lhes falei sobre os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles concluíram que de fato eu ficara louco. Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas agarrando-me a ele, impedi que o tirassem de mim.
Envergonhados diante de tudo isto, muitos pastores começaram a se afastar: alguns retornaram para suas tendas enquanto outros uniram-se àqueles que riam de meu comportamento estranho.
Sentindo-me sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me. Ansiava encontrar alguém com quem pudesse compartilhar minha experiência, mas todos lançavam-me olhares de reprovação.
Lembrei-me de Sara, minha amada esposa; Em obediência a Voz de Yahwéh havíamos trilhado por muitos caminhos, estando Sara sempre ao meu lado, animando-me a prosseguir mesmo nos momentos mais difíceis.Com certeza Sara me traria consolo e forças para continuar firme, conduzindo o vaso da salvação.
Enquanto avançava pelo caminho pensando em Sara, a vi no meio da multidão. Ao dirigir-me a ela, fiquei surpreso e desalentado ao ver em seus olhos o mesmo menosprezo daqueles que me chamavam de louco por conduzir em pleno dia chama que se desprendera do altar.
Lembrando-me da ordem de Yahwéh de que teria de libertar meu sobrinho Ló, fui andando sozinho pelo caminho; Ao colocar-me no lugar daqueles que me achavam louco, eu dava-lhes razão, pois em condições normais, nenhuma pessoa coerente sai de casa, sem rumo definido, levando em pleno dia um vaso com uma labareda nas costas, afirmando estar marchando contra o exércitos de cinco reis, para libertar um parente. Realmente da a entender que se trata da manifestação de uma grande loucura. Mesmo assim, a despeito de todas as humilhações e palavras que falavam contra mim, eu avançava rumo ao vale desconhecido.
Toda aquela zombaria foi finalmente diminuindo, à medida em que eu me distanciava do Carvalho de Mambré.
Começaram a sobrevir ao meu coração muitas dúvidas quanto ao meu futuro. Ficava às vezes aflito com o pensamento de toda a minha experiência, desde a convocação dos pastores até aquele momento, poderia ser, de fato, demonstrações de uma loucura.
Cheio de dúvidas, comecei a pensar na possibilidade abandonar à beira do caminho o vaso, retornando para junto do altar. Esses eram os conselhos alguns pastores e amigos que, condoídos de minha solidão, ainda vinham ao meu encontro, aconselhando-me a retornar; Ali, diziam, eu poderia conquistar novamente a confiança dos pastores, voltando a ser, quem sabe, até mesmo um sacerdote honrado como outrora. Sobre o altar, diziam, havia um fogo muito maior que aquele que eu carregava nos ombros.
Estava a ponto de retornar, quando Sara veio ao meu encontro, contando-me sobre o desprezo que muitos pastores lançavam contra mim; Ela estava consternada, pois toda aquela desonra, recaía também sobre ela, ao ponto de não sentir mais desejo de permanecer junto daquele altar.
Depois de alertar-me, Sara passou a falar-me de um plano: Poderíamos, quem sabe, nos mudar para uma cidade distante, onde esqueceríamos todo aquele vexame.
Esquecendo-me da voz que mandara-me seguir rumo à planície, respondi para minha esposa que eu estaria disposto a acompanhá-la para qualquer lugar, se ela permitisse que eu levasse o vaso. Ele seria o nosso altar, aquecendo e iluminando nossas noites com sua chama.
Ao ouvir sobre o vaso, Sara voltou a irar-se, afirmando não entender minha teimosia em continuar levando sobre os ombros aquele símbolo de vergonha e desprezo. Depois dizer-me tais palavras, voltou-me as costas, retornando para a tenda.
A História de um Vaso
Capitulo III
Angustiado em não poder realizar o sonho de Sara, prossegui rumo ao futuro incerto, sendo orientado unicamente pela chama, cujo brilho aumentava à medida em que as trevas adensavam-se. Comecei então a meditar sobre aquela chama que acompanhava-me com seu brilho e calor.
Eu estava acostumado a ver o Fogo Sagrado entronizado sobre um grande o altar de pedras, em meio aos louvores de muitos pastores, dentre os quais eu me destacava como mestre e sacerdote. Naqueles momentos de adoração, eu me vestia com os melhores mantos, e fazia questão de realizar o sacrifício, somente quando todos os meus servos estivessem reunidos ao meu redor, para que ouvissem meus conselhos e advertências. Na hora do sacrifício, eu erguia para o céu minha espada desembainhada, e, com palavras amedrontadoras, proclamava a grandeza do Senhor dos Exércitos, o Deus Todo Poderoso que domina sobre os Céus e a Terra. Vibrando a espada no ar num movimento ameaçador, eu representava diante de meus pastores, a imagem de um Deus severo, que está sempre pronto a revidar qualquer afronta. Depois dessa demonstração de soberania e poder, eu pegava uma ovelha das mãos de um pastor, e a amarrava sobre o altar. Para que ficasse bem patente a ira divina, eu pisava sobre o seu pescoço, golpeando-a severamente, até vê-la perecer. Naquele momento eu descia do altar, e ficava esperando pelo Fogo Sagrado que jamais deixou de manifestar-se sobre o sacrifício.
Eu aprendera desde a infância a reverenciar o Fogo Sagrado, crendo ser ele uma revelação visível de Yahwéh, o Grande Deus Invisível. Até então, eu o vira como um Fogo Único e Indivizível. Agora, ao transportar em humilde jarro a chama que se desprendera do Altar, meus pensamentos agitavam-se com o surgimento de um novo conceito sobre o Criador: o conceito de um Deus Sofredor que é capaz de despreender-se do Grande Yahwéh, representado pelo Fogo Sagrado, para acompanhar o pecador em sua jornada.
Arrependido, prostrei-me diante do vaso e chorei amargamente. Tinha agora consciência de que todo o zelo demonstrado junto ao Altar, tinha por finalidade a exaltação de meu orgulho, e não do amor daquele que me acompanhava pelo caminho.
Subitamente, gravou-se-me na mente a convicção de que aquela pequena chama que se desprendera do Fogo Sagrado, era uma representação do Messias, que Se desprenderia do Grande Yahwéh, para ser o Deus Conosco, companheiro em todas as nossas jornadas. Ao sobrevir-me esta convicção, a chama alegrou-se, tornando-se mais brilhante e calorosa.
Com o coração transformado, prossegui pelo caminho rumo ao vale, levando nos ombros o jarro que trouxera-me depois de tanto desprezo, a alegria de uma nova revelação sobre o caráter do Criador.
Momentos difíceis começaram a surgir em minha caminhada, quando ventos frios vindos do mar salgado começaram a arremeter-se contra a pequena chama, procurando apagá-la. Eu a amparava com o meu corpo, andando muitas vezes de lado e mesmo de costas, mas sempre avançando rumo ao vale.
Ao romper a luz do dia, achei-me a um passo da planície. Comecei a encontrar pelo caminho muitos rebanhos que eram conduzidos por rudes pastores. À medida em que avançava entre eles, surgiam tumultos e confusões, pois muitas ovelhas e cabras assustavam-se com o meu vaso ardente, debandando-se por todas as partes. Isto fez com que a maioria dos pastores ficassem irritados contra minha presença em seu meio.
Sabendo que não poderia ficar retido naquele vale, prossegui em frente rumo à Sodoma. Enquanto avançava, começou a acontecer algo interessante: muitas ovelhas, meigas e submissas, começaram a acompanhar-me. Eram poucas a princípio, mas pouco a pouco seu número foi aumentando, até que passei a andar com dificuldade, devido ao grande número de ovelhas que me seguiam. Ao longe eu podia ver os pastores, enfurecidos, pela perda de suas ovelhas mais bonitas.
Ao chegar à Cidade de Sodoma, a encontrei vazia e devastada. Seguindo os rastos deixados pelos exércitos e pela multidão de cativos, fui aproximando-me cada vez mais do alvo de minha missão. Ao chegar à campina de Dã, pude avistar ao longe o grande acampamento dos soldados, ao pé de um outeiro. Sem pressa, encaminhei-me para lá, conduzindo o meu novo rebanho.
Do alto do monte, pude observar o acampamento em toda a sua extensão. Havia milhares de soldados comemorando sua vitória; Enquanto isso, centenas de cativos jaziam amontoados no meio do arraial, humilhados e sem esperança. Diante desse quadro, fiquei imaginando como poderia se dar o livramento.
Minha presença despertou a curiosidade de alguns soldados que, ao ver-me com o vaso fumegante, aproximaram-se e começaram a debochar. Quando perguntaram-me sobre o motivo de minha presença naquele lugar, eu disse-lhes que viera libertar meu sobrinho Ló. Minhas palavras tornaram-se motivo de muitos gracejos em todo o acampamento; Depois disso, passaram a escarnecer de Ló.
Em pouco tempo, toda aquela zombaria transformou-se em gritos de vingança, e proclamaram que, na manhã seguinte, todos os cativos seriam exterminados, começando pelo meu sobrinho.
A História de um Vaso
Capitulo IV
Enquanto tentava imaginar o que Yahwéh poderia fazer para alcançar tão miraculoso livramento, vi surgir ao longe o vulto de pastores que se encaminhavam em minha direção, vindos de Sodoma. Pensei à princípio que fossem os pastores inimigos que vinham arrancar-me o rebanho conquistado com amor. Tal receio logo desapareceu, dando lugar a um sentimento de muita alegria, quando descobri que eram meus pastores fiéis. Ele foram se aproximando em pequenos grupos de doze, até alcançar o total de 300 pastores. Ao olhar para eles, pude notar em seus semblantes os sinais de uma grande luta espiritual que tiveram de enfrentar, para estarem do meu lado. Contaram-me da experiência de muitos companheiros que, desanimados, haviam lançado fora o azeite e a lã de seus vasos, retornando para as suas tendas. Falaram-me de como, naquela noite passada, haviam aprendido a amar a luz de meu vaso, que para eles tornara-se como uma estrela guia.
Alegrava-me com a presença de meus humildes pastores, quando vieram em nossa direção Aner, Escol e Manre, acompanhados por 15 homens armados; Eram fiéis amigos que, conhecendo os perigos que enfrentaríamos naquele vale, vieram em nosso socorro. Para que não atrapalhassem o plano divino, pedi-lhes que permanecessem escondidos até o alvorecer, quando receberiam orientações sobre como participar da missão.
Comecei a orientar os pastores, seguindo as instruções da Voz Divina que soava-me de dentro da chama: A primeira tarefa dos pastores, seria cuidar do rebanho até o anoitecer.
Ao retornarem, ordenei que amarrassem os novelos de lã embebidos em azeite, na ponta de seus bordões, colocando-os dentro dos vasos que, deveriam ser mantidos suspensos, de boca para baixo.
Passei a incendiá-los com o fogo de minha labareda, até que as trezentas tochas ficaram ardendo, porém, ocultas, no interior daqueles vasos.
Ordenei à quarenta de meus corajosos pastores que, no momento indicado por um sinal que seria dado, deveriam avançar silentes para o meio do acampamento, circundando todos os cativos que jaziam amontoados no meio do arraial. Ao mesmo tempo, os 260 pastores restantes, deveriam circundar todo o acampamento, aguardando pelo sinal de quebrarem os vasos com os chifres.
Orientado pela Voz da Chama, indiquei-lhes os sinais: Quando a última tocha se apagasse no acampamento, deveriam ficar atentos, pois uma pequena lamparina seria acesa por um dos cativos. Assim que a lamparina começasse a arder, deveriam correr cada um para o seu lugar, evitando qualquer ruído, para que não fossem notados.
O sinal para quebrarem os vasos com os chifres, erguendo bem alto a tocha, era o apagar da lamparina.
Depois dessas orientações, os 260 pastores, ocultos pelas sombras da noite, se espalharam pelo vale, e ficaram esperando pelo momento de se posicionarem ao redor do acampamento; Enquanto isso, os 40 se posicionaram próximos à uma passagem mais vulnerável, através da qual haveriam de alcançar os cativos.
Já era alta noite quando a tocha do último soldado apagou-se, sobrevindo completa escuridão e silêncio sobre o arraial.
Entre os cativos, havia um homem naquela noite, que vivia a maior angústia de sua vida. Era o meu sobrinho que, depois de tornar-se alvo de tantos abusos e humilhações, tomara conhecimento do castigo que os aguardava pelo alvorecer.
Naquela noite, Ló tinha seus pensamentos voltados para o seu tio; Lembrava-se com arrependimento do momento em que me deixara junto ao Carvalho de Mambré, mudando-se para as campinas de Sodoma. Em seu desespero, sentiu desejo de rever minha face e pedir-me perdão por ter-se afastado de mim. Justamente naquele momento, Ló foi atraído pelo brilho de uma tocha que ardia sobre o outeiro. Ao fitar o brilho, imaginou estar tendo uma visão, pois o mesmo revelava-lhe a face de seu querido tio.
Querendo mostrar-me o seu rosto, Ló apalpou em meio às trevas, até encontrar uma pequena lamparina que trouxera em seu alforje. Frustrado, percebeu que não havia nela nenhum azeite. Concluiu que aquela lâmpada apagada e seca, era um símbolo de sua vida vazia e sem fé.
Sem desviar os olhos de meu rosto iluminado pela chama do vaso, num desesperado gesto de fé, Ló apalpou o pavio de sua lamparina, descobrindo haver nele um restinho de azeite. Curvando-se, passou a ferir as pedras do fogo, até que uma faísca saltou para o pavio. Sem que soubesse, Ló estava comandando com seus gestos, os passos para um grande livramento.
Os trezentos pastores ao verem o tênue brilho da lamparina, encaminharam-se rapidamente para os seus postos, e, ficaram aguardando pelo apagar da pequena chama.
Desde o momento em que Ló erguera-se com sua diminuta chama, eu fiquei olhando para os seus olhos que fitavam os meus. Vi que sua face trazia sinais de indizível angústia e maus tratos. Mesmo assim, pude ler em seus olhos azuis, que a esperança e a fé ainda não o abandonara.
O foguinho da lamparina de Ló, contudo, não resistiria por muito tempo. Era necessário que se apagasse, para sinalizar a grande vitória.
Quando a escuridão voltou a cobrir a face de Ló, meus trezentos pastores arremeteram seus chifres contra os vasos que mantinham ocultas as tochas ardendo. Um grande ruído, como de cavalaria em combate ecoou por todas as partes, enquanto as tochas eram suspensas. Os trezentos chifres usados até então para conduzir o rebanho, soavam agora como trombetas de conquistadores.
Todo o acampamento despertou-se num único salto, e, sem saber como escapar de tão terrível investida que partia de fora e de dentro, os soldados começaram a lutar entre si, enquanto meus pastores permaneciam em seus lugares, fazendo soar os chifres.
Os cativos, ficaram muito espantados à princípio, mas pouco a pouco foram tomando consciência do grande livramento que estava se operando em seu favor.
Quando amanheceu, revelou-se aos nossos olhos um cenário de completa destruição; Todo o arraial estava coberto por milhares de corpos rasgados pelas próprias espadas e lanças. Somente uns poucos conseguiram fugir daquele acampamento de morte, mas foram perseguidos pelos meus 18 aliados que estavam armados, sendo alcançados em Hobá, que fica à esquerda de Damasco. Enquanto isso, os cativos, agora libertos, recuperavam todas as riquezas que haviam sido saqueadas pelos inimigos.
A História de um Vaso
Capitulo V
Do cimo do outeiro, enquanto eu vibrava com a alegria dos cativos naquela manhã de liberdade, ouvi a Voz de Yahwéh falando-me do meio da chama:
- Este livramento que hoje se concretiza ,representa o livramento que hei de operar nos últimos dias, salvando os remanescentes de teus filhos, do cerco de numerosas nações que se aliarão a Gog com o propósito de destruí-los. Naquele dia em que triunfarem sobre o meu povo, a minha indignação será mui grande, e contenderei com ele por meio da peste e do sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor. E sobre a casa de Daví e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de Graça e de Súplicas; olharão para Mim a quem traspassaram, pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele comos e chora amargamente pelo primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Daví e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza" (Ezequiel 38; Zacarias 12,13).
Consciente da importância histórica daquele dia de livramento, tomei um calendário e, fiquei surpreso, pois era Rosh Hashaná, o dia das trombetas. Aquele era o primeiro dia de um novo ano; Dez dias depois viria o Yom Kipur, o dia da purificação dos pecados; No dia 15, teria lugar a festa de Sukot, a alegre festa das colheitas do outono.
A chama que para mim tornara-se numa representação do Messias Prometido, apagou-se no momento em que desci ao encontro dos pastores e dos muitos cativos agora libertos. Cheios de alegria e de admiração, todos queriam saber como tornara-se possível tão grande livramento, somente com a utilização daquelas tochas e chifres. Falei-lhes então da importância daquele fogo que se desprendera do Altar, para libertá-los naquele vale, identificando-o com o Messias Salvador.
Ao ver que todos carregavam em seus corpos e mantos a sujeira da escravidão, convidei-os a seguirem-me até ao rio Jordão, onde todos poderiam banhar-se, para purificação de seus pecados.
Somente três pessoas atenderam ao convite: Ló e suas duas filhas mais novas. Os demais, retornaram, contaminados para suas casas.
Antes de partir, o rei de Sodoma veio ao meu encontro, prometendo dar-me todas as riquezas recuperadas naquela manhã. Eu recusei sua oferta, para que jamais alguém possa dizer que eu me enriqueci com aquele saque.
Permanecemos acampados às margens do rio Jordão, nas proximidades de Jericó por doze dias. Naqueles dias de refrigério, todos ficaram livres das impurezas, deixando-as nas águas do Jordão. Este era um preparo especial para a festa de Sukot que decidimos comemorar em Salém.
Cheios de alegria, iniciamos uma caminhada ascendente rumo à cidade de Salém, inconscientes da feliz surpresa que nos aguardava. Eu seguia à frente tendo ao meu lado Ló e suas duas filhas, e atrás vinham os 300 pastores, conduzindo o grande rebanho.
À medida que avançávamos, comecei a notar que o meu vaso que se esvaziara no alvorecer, tornara-se muito pesado. Ao baixá-lo, fiquei surpreso ao descobrir dentro dele muitas pérolas de variados tamanhos e brilhos que se formaram misteriosamente.
Ao avistarmos ao longe a alva cidade, começamos a ouvir sons de uma grande festa. Acordes harmoniosos repercutiam pelos montes, enquanto avançávamos pelo caminho.
Minha curiosidade em conhecer aquela cidade e o seu jovem rei era imensa, pois da boca de muitos já ouvira sobre sua grandeza e fama. Tratava-se um reino diferente de todos os demais, onde os súditos eram treinados não no manejo de arcos e flechas, mas no domínio de instrumentos musicais. Melquisedeque, o seu jovem rei, regia a todos com um cetro muito especial : um alaúde, pelo qual pagara um preço elevado.
Enquanto crescia em mim a alegria por estar nos aproximando da Cidade do Grande Rei, vimos uma multidão vestida de linho fino, puro e resplandecente, saindo ao nosso encontro. Todos tangiam instrumentos musicais, enquanto cantavam um hino de vitória. À frente da multidão vinha um jovem tocando um alaúde, trazendo na fronte uma coroa repleta de pedras preciosas, que brilhavam sob a claridade do sol poente. Eu tive a certeza de que aquele era o tão aclamado rei de Salém.
Ao nos encontrarmos, ficamos surpresos com a saudação que nos fizeram; Inclinando-se diante de mim, Melquisedeque afirmou:
- Bendito és tu Abraão, servo do Deus Altíssimo, que possui os Céus e a Terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos".
A História de um Vaso
Capitulo VI
Surpresos pela festiva recepção, fomos introduzidos na cidade, onde a beleza das mansões e jardins nos causou muita admiração. Tudo ali era puro e cheio de paz.
Fomos recebidos no palácio real, edificado sobre o monte Sião. Ali, uma nova surpresa nos aguardava:
A grande sala do trono, estava toda adornada com representações de nossa vitória sobre os inimigos. Havia no meio da sala uma mesa muito comprida, coberta por toalhas de linho fino adornadas com fios de ouro e pedras preciosas. Sobre a mesa havia 304 coroas, cada uma trazendo a inscrição do nome de um vencedor. Num gesto que novamente nos surpreendeu, Melquisedeque, tomando as coroas, começou a colocá-las na cabeça de cada um de nós, começando por Ló e suas filhas. Estávamos todos admirados pelo fato do rei de Salém conhecer-nos individualmente, e por ter preparado aquelas coroas muito antes de sermos vencedores.
Eu observava a alegria de meus companheiros coroados, quando, tomando uma coroa semelhante à sua, o rei de Salém dirigiu-se a mim com um sorriso. Ao levantá-la sobre minha cabeça, notei algo que até então não havia percebido: Suas mãos traziam cicatrizes de profundos ferimentos. Vencido por um sentimento de gratidão, prostrei-me aos seus pés e, comovido, beijei suas bondosas mãos, banhando-as com minhas lágrimas.
Ao levantar-me, perguntei-lhe o significado daquelas cicatrizes. Com um meigo sorriso, ele prometeu que iria contar-me toda a história daquele próspero reino, e do quanto lhe custou a sua paz.
Depois de coroar-nos, Melquisedeque nos fez assentar ao redor da grande mesa, e passou a servir-nos pão e vinho; A partir daquele momento, passamos a honrá-lo como Sacerdote do Deus Altíssimo.
Num gesto de gratidão, tomei o vaso repleto de pérolas, e o coloquei aos pés do rei. Tomando-o nos braços, ele passou a acariciá-lo, sem atentar para o brilho das pérolas. Expressando-me a gratidão por aquela oferta, disse-me que aceitaria o vaso e, das pérolas, somente aceitaria o dízimo.
Imediatamente passei a contar as jóias, separando as mais belas para o rei. Haviam um total de 1.440 pérolas, das quais lhe entreguei 144. Ele as guardou cuidadosamente em uma caixinha feita de ouro puro, em cuja tampa havia lindos adornos marchetados de pequenas pedras preciosas.
Depois de receber o dízimo que simbolizava o grande livramento operado por Yahwéh na planície, Melquisedeque chamou para junto de si um de seus súditos que era mestre em adornos e pinturas, ordenando-lhe a honrar o vaso com uma linda gravura que retratasse o momento em que eu o ofertei.
Enquanto o jarro era pintado, Melquisedeque passou a contar-me a história de seu reino, desde sua fundação até aquele momento em que estávamos comemorando a grande vitória sobre os inimigos.
Ao devolver-me o vaso, agora honrado pela mais bela gravura e inscrições que exaltavam a justiça, a humildade e o amor, o rei de Salém ordenou-me a levar comigo o vaso com aquelas pérolas. Durante seis anos eu e meus pastores deveríamos contar para todos a história daquele vaso que fora vitorioso por causa da chama do altar. A todos aqueles que, com arrependimento, aceitassem a salvação representada por sua história, deveríamos oferecer uma pérola. Ao fim dos seis anos, as pérolas acabariam; Já não haveria oportunidade de salvação. Sobreviria então o sétimo ano, no qual haveria um tempo de grande angústia e destruição, quando somente haveria proteção para aqueles que possuíssem as pérolas. Por essa ocasião, as cidades da planície seriam totalmente destruídas pelo fogo do juízo, e os demais povos impenitentes, seriam dizimados por grandes pragas.
A História de um Vaso
Capitulo VII
Sobre o triunfo que acabávamos de obter sobre numerosos exércitos, Melquisedeque, depois de repetir-me as palavras ditas pelo Messias, deixou um sinal que seria importante para aqueles que vivessem por ocasião do grande livramento de Israel. Afirmou que, multiplicando as 144 pérolas do dízimo pelo número de colunas de seu palácio, encontraria o ano que traria em sua consumação o grande livramento de Israel. Movido pela curiosidade, comecei imediatamente a contar as colunas; Eram 40 colunas de mármore, adornadas com pedras preciosas.
Ao retornar ao rei com o resultado dos cálculos, ele passou a fazer predições sobre os grandes acontecimentos que teriam lugar ao fim daquele ano:
- Ao chegar a plenitude dos tempos, todos os esforços humanos em busca da paz se frustrarão. Naquele tempo, numerosos nações se aliarão contra o reino de Salém; Haverá uma batalha como nunca houve, e toda a terra será castigada pelo fogo; Depois de esgotarem todos os recursos em sua defesa, Israel verá, com desespero, incontáveis inimigos marchando contra eles, com o propósito de eliminá-los. Como Ló em sua noite de angustia, eles verão morrer sua esperança, quando, em Rosh Hashanah, ouvir-se-á em meio às ruínas de Salém, os acordes harmoniosos de um alaúde, tocado por um beduíno da tribo de Taamireh; Sua música fará renascer a fé e a esperança em um mundo melhor, onde nação não se levantará contra nação; onde as lágrimas, a dor e a morte não mais existirão.
Depois de consolar os aflitos com os acordes de seu alaúde, o beduíno tomará o vaso com os pergaminhos da Tumba de Davi, e o levará sobre os ombros. Naquele dia, estarão os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, e, ao clamar pelo livramento de Israel, haverá um forte terremoto que rachará o monte pela metade, surgindo do oriente para o ocidente um enorme vale. Naquele dia, toda a terra de Israel será fortemente sacudida, sobrevindo total destruição para todos os exércitos inimigos; Haverá, contudo, salvação para todos aqueles que, com arrependimento, refugiarem-se sob as asas do Eterno, lançando para longe de si os instrumentos de violência.
Toda a humanidade testemunhará, com espanto, as cenas de livramento dos filhos de Israel. Naquele dia, muitos povos e poderosas nações se posicionarão ao lado de Yahwéh dos Exércitos; Multidões se aproximarão dos judeus da diáspora, dizendo: Nós iremos convosco, porque sabemos que o Eterno está do vosso lado.
O Yom Kipur que seguirá ao livramento, será um dia de purificação das impurezas de todos aqueles que aceitarem a salvação; Naquele dia acabará a cegueira dos filhos de Jacó, e olharão para Aquele a quem traspassaram, e chorarão amargamente por ele como se chora por um filho unigênito. (Zacarias 12,13).
Na festa de Sukot (colheitas) será derramado o Espírito de Deus sobre toda a carne; E há de ser que, todo aquele que invocar o nome de Yahwéh, será salvo, recebendo uma pérola do vaso (Joel 3).
No decorrer dos dias de Sukot, chuvas de bênçãos cairão sobre o imenso vale, fazendo surgir à vista de todos os povos, em toda a Terra Santa, um paraíso repleto de alegria e paz.
Naquele dia os eleitos de Deus compreenderão as palavras do Livro:
"Ouvi-me, vós, que estais à procura da justiça, vós que buscais a Yahwéh. Olhai para a rocha da qual fostes cavados, para a caverna da qual fostes tirados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu a luz. Ele estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei. Yahwéh consolou a Sião, consolou todas as suas ruínas; ele transformará o seu deserto em um Éden e as suas estepes em um jardim. Nela encontrarão gozo e alegria, cânticos de ações de graças e som de música"(Isaías 51:1-3).
Naquele dia os remidos olharão para o humilde beduíno que libertou da caverna o vaso de Abraão, e cantarão com alegria:
"Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina! Porque Yahwéh consolou o seu povo, ele redimiu Jerusalém. Yahwéh descobriu o seu braço santo aos olhos de todas as nações, e todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus" (Isaías 52:7-10).
Durante seis anos, toda a humanidade, iluminada pela maior revelação do amor e da justiça de Yahwéh, terá oportunidade de romper com o império do pecado, unindo-se aos filhos de Israel em sua marcha de purificação e restauração do reino da luz..
Então acontecerá que, todos os sobreviventes das nações que marcharam contra Jerusalém, subirão, ano após ano, para prostrar-se diante do rei Yahwéh dos Exércitos, e para celebrar a festa de Sukot. E acontecerá que aquele das famílias da Terra que não subir e não vier, haverá contra ele a praga com que Yahwéh ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa de Sukot (Zacarias 14: 16- 18).
Naqueles anos de oportunidade, soará por todas as partes do mundo o último convite de misericórdia, num apelo para que todos os pecadores se arrependam e se unam numa eterna aliança com Yahwéh, dizendo:
"Assim diz Yahwéh: Observai o direito e praticai a justiça, porque a minha salvação está prestes a chegar e a minha justiça, a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que assim procede, o filho do homem que nisto se firma, que guarda o sábado e não o profana e que guarda sua mão de praticar o mal. Não diga o estrangeiro que se entregou a Yahwéh: - Naturalmente Yahwéh vai excluir-me do seu povo, nem diga o eunuco: -Não há dúvida, eu não passo de uma árvore seca". Pois assim diz Yahwéh aos eunucos que guardam os meus sábados e optam por aquilo que é a minha vontade, permanecendo fiéis à minha aliança: Hei de dar-lhes, na minha casa e dentro dos meus muros, um monumento e um nome mais precioso do que teriam com filhos e filhas; hei de dar-lhes um eterno nome, que não será extirpado. E, quanto aos estrangeiros que se entregarem a Yahwéh para servi-lo, sim, para amar o nome de Yahwéh e tornarem-se servos seus, a saber, todos os que se abstêm de profanar o sábado e que se mantêm fiéis à minha aliança, trá-los-ei ao meu santo monte e os cobrirei de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão bem aceitos no meu altar. Com efeito, a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos" (Isaías 56: 1 - 7).
Nos seis anos de oportunidade, Samael, o grande enganador, num gesto de desespero, empregará todos os recursos possíveis para impedir a realização de Yahwéh através de Seu povo. Em oposição à santificação do sábado que é o sinal da aliança entre Yahwéh e seus escolhidos, numerosas religiões, aliadas a governantes ímpios, imporá outro dia para o culto, não podendo comprar nem vender todos aqueles que mantiverem-se fiéis à aliança de Yahwéh (Ver Ezequiel 20:20;Apocalípse 13).Naqueles anos de provas, os eleitos de Deus sobreviverão mediante o cuidado dos anjos, que os conduzirá para distante das populosas cidades que serão castigadas pelas sete últimas pragas que cairão sobre os impenitentes ao fim dos seis anos( Apocalipse 15).
Durante os seis anos da colheita final, o Messias edificará uma Nova e Eterna Jerusalém, adornando-a com os atos de justiça de Seus escolhidos. (Êxodo 25: 1 - 8) Isaías 60: 10 -22 ; Zacarias 6: 12 - 15; Apocalipse 3:12) Essa Nova Jerusalém somente será revelada ao completar-se toda a justiça divina, ao fim do sétimo ano, período em que os eleitos de Deus terão como desafio viver uma vida sem culpas, pois qualquer ato de rebeldia naquele tempo, ficaria sem expiação, significando eterna vergonha para o Criador.
Ao completarem-se os sete anos, ,o Messias aparecerá nas nuvens do céu, acompanhado por todas as hostes celestes; Ao tocar Sua trombeta naquele grande Rosh Hashanáh, os fiéis falecidos, ressuscitarão revestidos de glória; os vivos vitoriosos, serão transformados num abrir e fechar de olhos , recebendo corpos perfeitos; Juntos, todos os remidos serão arrebatados para a Nova Jerusalém, numa viagem inesquecível que começará no primeiro dia da festa de Sukot; Depois de sete dias de feliz ascensão, chegarão à Cidade Santa para comemorarem, diante do trono, o oitavo dia da festa. Como que a sonhar, os resgatados do Senhor entrarão na Cidade Santa, encontrando ao seu norte, o jardim do Éden, no meio do qual eleva-se o monte Sião, o lugar do trono de Yahwéh. Coroados pelo Messias, os remidos entoarão o cântico da vitória, fazendo vibrar por todo o espaço os acordes de suas harpas, alaúdes e flautas.
A História de um Vaso
Capitulo VIII
Depois de proferir todas essas predições, Melquisedeque disse-me que toda a experiência que estávamos vivendo, era prefigurativa. Para que todo o drama se consumasse, tínhamos ainda diante de nós acontecimentos importantes: Primeiramente, eu deveria retornar ao Carvalho de Mambré juntamente com os meus pastores, para proclamar a todos a salvação representada pela história daquele vaso. Todo aquele que, com arrependimento, aceitasse o Messias revelado, teria seus pecados perdoados, recebendo uma pérola. Ao fim de seis anos, ao chegar à véspera de Rosh Hashaná, as pérolas acabariam, não havendo mais oportunidade de salvação. Por aquele tempo, o fogo do juízo cairia sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, havendo terríveis pragas sobre todos os infiéis.
Ao ouvir tais palavras do rei de Salém, sobreveio-me grande angústia, ao lembrar-me dos últimos passos de Sara; Eu temia que ela, em sua incredulidade, não aceitasse uma pérola. Se isto acontecesse, os meus lindos sonhos ruiriam por terra, pois não conseguiria ser feliz em sua ausência. Lendo nos meus olhos a angústia, Melquisedeque consolou-me com uma promessa:
- Abraão, daqui a seis anos Yahwéh te visitará em sua tenda, e sua esposa será curada de sua aridez. Ela se converterá e lhe dará um filho que se chamará Isaque.
Ao findar a festa de Sukot, retornamos às nossas tendas junto ao Carvalho de Mambré. À medida em que íamos avançando pelo caminho, muitas pessoas nos cercavam, admirados pela beleza do vaso repleto de pérolas; A todos contávamos a história de sua chama redentora, e oferecíamos as pérolas a todos que crendo, aceitavam a salvação.
Quando chegamos ao Carvalho de Mambré, uma multidão de pessoas no esperava; Muitos tinham ouvido falar do miraculoso livramento operado através daquele vaso que fora alvo de tanto menosprezo. Agora, todos estavam emudecidos ao vê-lo glorificado.
Juntamente com os meus pastores, continuamos a proclamar o infinito amor de Yahwéh revelado pela chama. O número daqueles que procuravam pelas pérolas foi aumentando, dia após dia, e todos éramos felizes.
Os dias, os meses e anos foram-se passando, e a quantidade de pérolas foram diminuindo dentro do vaso. Estávamos vivendo agora os últimos meses do sexto ano, que era o último da oportunidade. À medida em que os dias se passavam, aumentava em meu coração uma preocupação e uma angústia, pois Sara até então não tomara interesse em apossar-se de sua pérola, apesar de meus constantes rogos.
Naqueles momentos de aflição em que clamava a Deus pela salvação de Sara, meu único consolo eram as últimas palavras do rei de Salém, de que ao fim dos seis anos ela seria transformada.
Vivíamos agora os últimos dias do sexto ano; A consciência de que o tempo estava esgotando, fazia com que muitas pessoas me procurassem de manhã até à noite, para apossarem-se das pérolas da salvação.Com o coração ferido por indizível aflição, eu insistia com Sara, procurando convencê-la de sua necessidade em tomar, o quanto antes, uma pérola, pois as mesmas estavam ficando a cada dia mais escassas. Sem atentar para a minha angústia, Sara desdenhava de meus apelos, afirmando que aquelas pérolas não tinham nenhum significado para ela.
A História de um Vaso
Capitulo IX
Depois de uma noite de vigília em que, desesperadamente, procurei convencer minha amada a apossar-se se sua pérola, aceitando a salvação representada por aquele vaso, vi o sol surgir trazendo a luz do último dia - véspera de Rosh Hashaná. Ao olhar para dentro do vaso naquela manhã, vi que restavam apenas três pérolas. Ao admirar-lhes o brilho, comecei a imaginar que a mais brilhante seria para o meu filho prometido, a de brilho intermediário seria a de Sara, e a última seria a minha. Esse pensamento trouxe-me alívio e esperança; Mas, ao mesmo tempo, comecei a preocupar-me com a possibilidade de chegar pessoas procurando por elas; Se viessem, eu não poderia negar-lhes o direito à elas.
Tomado por essa preocupação, permaneci sentado sob o Carvalho de Mambré. Na viração do dia, sobreveio-me um grande estremecimento quando vi ao longe três peregrinos que caminhavam rumo à nossa tenda. Comecei a clamar a Deus que eles mudassem de rumo, mas meus clamores não foram atendidos. Dominado por uma grande amargura, corri até eles, e, depois de prostrar-me, convidei-os para a sombra.
Tomando uma bacia com água, passei a lavar-lhes os pés, limpando-os da poeira do caminho. Ao ver os pés feridos e calejados daqueles homens, senti compaixão por eles; Compreendi que haviam vindo de muito longe, enfrentado perigos e desafios, com o propósito de pegarem em tempo as pérolas. Vi que eles eram muito mais merecedores do que eu, Sara e nosso filho prometido.
Ao lavar os pés do terceiro, meu coração que até então estava aflito, encheu-se de paz e alegria; Imaginava naquele momento, quão terrível seria se aquele terceiro peregrino, não houvesse se unido aos dois primeiros naquela caminhada; Nesse caso eu seria obrigado a tomar da última pérola, subindo sem minha amada à Salém. Se eu tivesse de passar por essa experiência, a pérola que simboliza a alegria da salvação, se tornaria para mim num símbolo de solidão e tristeza, pois a vida longe do carinho de Sara, seria para mim o maior castigo, como a própria morte.
Depois de lavar-lhes os pés, comecei a servir-lhes o alimento que foi especialmente preparado para eles. Enquanto os servia em silêncio, eu ficava esperando pelo momento em que eles me perguntariam pelas pérolas. Mas sem revelar nenhuma pressa, eles falavam sobre a longa caminhada que fizeram, sobre as cidades por onde haviam passado. Eu perguntei-lhes se conheciam Salém; Eles responderam-me afirmativamente, acrescentando que naqueles seis anos, muitas obras haviam sido realizadas naquela cidade, em preparação para uma grande festa que estava para realizar-se dentro de mais um ano, por ocasião de Sukot.
As palavras daquele terceiro peregrino, o mais falante dos três, começaram a trazer-me, misteriosamente, um sentimento de esperança. Ao olhar para os seus olhos azuis, vi que ele se parecia com Melquisedeque.
Lembrava-me da última promessa feita pelo rei de Salém, quando o terceiro peregrino perguntou-me com um sorriso:
- Abraão, onde está Sara tua mulher?!
Atônito, perguntei-lhe:
- Como você sabe o meu nome e o nome de minha esposa?
O peregrino, respondeu-me:
- Não somente sei o nome de vocês, como também sei que, daqui a um ano vocês terão um filho que será chamado Isaque.
Ao ouvir as palavras do visitante, corri para dentro da tenda afim de chamar minha esposa, para que ouvisse as palavras daquele peregrino.
Ao vê-la, o peregrino perguntou-lhe:
- Sara, porque você riu de minhas palavras?
Assustada, Sara, respondeu:
- Eu não ri meu senhor!
- Não diga que não riu, pois eu a vi rindo dentro da tenda. Afirmou o peregrino.
Consciente de estar diante de alguém que conhecia o seu íntimo, Sara perguntou-lhe:
- Quem és tu Senhor?!
- Eu Sou a chama que desprendeu-se do Fogo do Altar para estar no vaso de seu esposo! Eu Sou o Messias, o Yahwéh que sofre humilhações e desprezo por amor ao Seu povo!.
Tendo feito esta revelação, o peregrino estendeu Suas mãos sobre a cabeça de Sara para abençoá-la; Somente então vi que elas estavam marcadas por cicatrizes semelhantes às do rei de Salém.
O peregrino, com muita ternura, começou a falar ao coração de minha amada, resgatando-a de sua caverna de incredulidade:
- Sara, você é preciosa aos meus olhos! Todo o seu passado de descrença e infertilidade está perdoado! Tenho para você um futuro glorioso, pois você se tornará mãe de muitos povos e nações!
Depois de dizer estas palavras, o nobre visitante encaminhou-se para o vaso e, inclinando-se, tomou dele as três pérolas restantes. Dirigindo-se a Sara, entregou-lhe duas pérolas, e disse-lhe:
- Uma é para você e a outra é para o teu filho Isaque.
Com a vida transformada pelo amor de Yahwéh, Sara prostrou-se agradecida aos pés daquele peregrino que a salvara no último momento de oportunidade. Quando a vi prostrar-se submissa, meu coração por tantos anos aflito, rompeu-se em lágrimas de alegria e gratidão, e caí aos pés de meu Redentor e Rei.
Depois de consolar-nos com a certeza de nossa eterna salvação, o peregrino entregou-me a última pérola. Quando apertei-a em minhas mãos senti grande luz de alegria e paz penetrar-me todo o ser, e passei a louvar ao Eterno pela certeza de que teria para sempre ao meu lado minha querida Sara e o filho da promessa que, dentro de um ano nasceria
A História de um Vaso
Capitulo X
Depois destas coisas, Yahwéh despediu-se de Sara e dos pastores que ali se encontravam, e convidou-me a acompanhá-los até o outeiro que fica defronte do vale. Ao chegarmos àquele lugar, o Eterno despediu-se de seus dois companheiros, enviando-os para uma missão especial em Sodoma.
Do cimo do monte contemplávamos os férteis vales e florestas que, como um paraíso, estendiam-se em ambas as margens do rio Jordão, circundando as prósperas cidades, dentre as quais destacavam-se Sodoma e Gomorra.
Fora sobre aquela colina que, depois da contenda entre os meus pastores e os pastores de Ló, dei-lhe a oportunidade de escolher o rumo a seguir, pois não poderíamos permanecer juntos. Atraído pelas riquezas da campina, ele decidiu mudar-se para lá.
Ao olhar para o meu companheiro que ficara silente desde o momento em que avistamos a campina, fiquei surpreso ao vê-lo chorando. Perguntei-lhe o motivo de sua tristeza, e Ele, soluçando respondeu:
- Este é para mim um dia de muita tristeza, pois pela última vez meus olhos podem pousar sobre este vale fértil. Choro pelos habitantes dessas cidades que não sabem que os seus dias acabaram!
A declaração de Yahwéh trouxe-me à lembrança todos aqueles cativos que haviam sido libertos seis anos antes; Infelizmente, quase todos rejeitaram o banho da purificação, retornando imundos para suas casas; Unicamente Ló e suas filhas aceitaram a salvação, tomando posse de suas pérolas. Pensando numa possibilidade de livramento para aquele povo, perguntei ao Senhor:
- E se por acaso existir naquelas cidades, cinqüenta pessoas justas, mesmo assim elas serão destruídas?
Yahwéh disse-me que se houvesse cinqüenta justos, toda a planície seria poupada.
- E se hover 45 justos?.
- Se houvesse ali 45 justos, toda aquelas cidades seriam poupadas.
Continuei com minhas indagações até chegar ao número dez. Yahwéh disse-me que se houvesse 10 justos naquelas cidades, toda a planície seria poupada.
Torturado por uma indizível agonia de espírito, Yahwéh voltou a chorar amargamente, enquanto com voz embargada, pronunciava um triste lamento:
- Sodoma e Gomorra, quantas vezes quis Eu ajuntar os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintainhos debaixo das asas, mas você não aceitou minha proteção. Por que você trocou a luz da minha salvação, pelas trevas deste reino de morte?! Meus ouvidos estão atentos em busca de, pelo menos uma prece, mas tudo é silêncio! Minhas mãos estão estendidas, prontas a impedir o fogo do juízo, mas vocês recusam o meu socorro!
Curvando-me ao lado de meu companheiro sofredor, uni-me a Ele na lamentação. Naquele momento de dor, tive a certeza de que Melquisedeque também sofria por todos aqueles que haviam trocaram o amor e a paz de Salém, pelas ilusões daquele vale de destruição.
Depois de um longo pranto, Yahwéh consolou-me, com a revelação de os seus dois companheiros, encontravam-se naquele momento em Sodoma, com a missão de salvar Ló e suas filhas, livrando-os da morte. Suas palavras trouxeram-me grande alívio, e prostrei-me agradecido aos seus pés.
A História de um Vaso
Capitulo XI
Antes de partir, Yahwéh encarregou-me de uma missão, dizendo:
- Tome um rolo vazio e registre nele a história do vaso e a história de Salém, conforme ouviste dos lábios de Melquisedeque. Dentro de um ano, você e todos aqueles que aceitaram a salvação, deverão subir à Salém para a festa de Sukot; Naquele dia, devolverá ao rei de Salém o vaso, oferecendo dentro dele como presente, o rolo.
Naquela mesma tarde, em obediência às ordens de Yahwéh, comecei a registrar a história vivida por mim e por meus pastores, desde o momento em que parti rumo ao vale, levando sobre as costas o vaso com sua labareda.
No dia seguinte, o sol já ia alto, quando, ao mencionar a cidade de Sodoma no manuscrito, lembrei-me que aquele era o dia de sua destruição.Com o coração acelerado, corri para lá e fiquei espantado com o cenário que estendeu-se diante de meus olhos: Em lugar daquele vale fértil, semelhante a um paraíso, havia um deserto fumegante, sem nenhuma vida; No lugar das cidades de Sodoma e Gomorra, havia uma profunda cratera, para onde as águas do mar salgado escorriam.
Abalado ante essa visão de destruição, retornei à tenda com o coração entristecido . A lembrança de tantas pessoas que, por rejeitarem o perdão divino, haviam sido consumidas pelo fogo, deixava-me profundamente abalado. Nos dias seguintes, não encontrei forças para escrever; Retornei outras vezes ao outeiro, com a esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas em lugar do vale fértil eu somente conseguia enxergar aquele caos.
Demorou vários dias para que eu voltasse a ter ânimo para prosseguir com os escritos do rolo. Fim da primeira parte.
Segunda parte
A História de Salém
Capitulo I
Esta é a história de Salém segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por ocasião da festa de Sukot, quinze dias depois do livramento de Ló e suas filhas.
Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias; Ele possuía de muitas riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a paz que nascem da sabedoria e do amor.
Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã, Adonias resolveu edificar um reino que fosse regido por leis de amor e de justiça. O nome da capital desse reino seria Salém, a Cidade da Paz.
Os súditos de Salém não empunhariam arcos e flechas, mas seriam treinados na arte musical; Cada habitante de Salém teria sempre ao alcance de suas mãos um instrumento musical, para expressar por meio dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos, formariam uma poderosa orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do egoísmo.
O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi elaborar as leis do novo reino, as quais ele as escreveu em um pergaminho. Os súditos de Salém não poderiam mentir, furtar, odiar, nem matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa de todo o mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz..
As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade, da amizade, e, acima de tudo, do amor que é a maior de todas as virtudes.
Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino, Adonias passou a arquitetar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena, com habitações para mil e duzentas pessoas. Como lugar de sua edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte das Oliveiras.
Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de todas as partes que, de perto e de longe, vinham para conhecerem os palácios e as mansões que estavam sendo edificados. Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que Salém destinava-se aos limpos de coração - aqueles que estivessem dispostos a obedecerem suas leis.
A História de Salém
Capitulo II
A edificação da cidade foi finalmente concluída e Salém revelou-se formosa como uma noiva adornada, à espera de seu esposo.
Assentado em seu trono, Adonias examinava agora os numerosos pretendentes a súditos que chegavam de todas as partes. Aqueles que, prometendo fidelidade às leis, eram aprovados, recebiam três dotes do rei: o direito à uma mansão, vestes de linho fino e um instrumento musical no qual deveriam praticar.
A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no decorrer da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele reino, dizendo:
- A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados, nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles que permanecerem leais, progredindo na prática das leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz. Aqueles que forem enlaçados por culpas e transgressões, serão banidos pelo juízo.
As palavras do rei levou a todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são as raízes de todos os males.
Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque. A beleza, ternura e sabedoria desse filho amado, haviam sido sua inspiração para a edificação fundação de seu reino.
Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada. Era plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos. Este plano, o manteria em segredo até o momento devido.
O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito querido de todos em Salém. Ele tinha sempre nos lábios um sorriso e uma palavra de carinho. Apreciava estar junto aos súditos em seus lares, recitando-lhes as leis do pergaminho em forma de lindas canções que vivia a compor. Sua presença trazia ao ambiente uma atmosfera de felicidade e paz. Esse amado príncipe possuía, de fato, todas as virtudes necessárias para ser rei de uma Salém vitoriosa.
Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho. Diariamente ele observava os moradores, procurando entre eles essa pessoa a quem desejava honrar.
Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros, Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era, encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias alegrou-se por haver encontrado aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia fiel do príncipe, chamava-se Samael.
Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde, recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre os quais o direito de estar sempre ao seu lado.
Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o qual todos foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o aclamaram com alegria, acreditando ser o próprio príncipe.
Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai.
No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das virtudes que coroavam o amado príncipe.
A História de Salém
Capitulo III
Salém crescia em felicidade e paz.Com alegria, os súditos reuniam-se a cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz.
Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa, sobressaia aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão do monte, Samael tornara-se seu companheiro constante. Passavam longas horas juntos, meditando sobre as leis do pergaminho.Com admiração, o súdito honrado via o filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções. As doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor.
Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe, além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de seu íntimo.
Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no pergaminho, convocou-os para um banquete, no qual faria importantes revelações.
Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael.
Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém, eram em grande medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o autor daquelas doces canções.
Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos mantidos até então em segredo.Com voz pausada, disse-lhes:
- Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras, como quando as recebestes de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e instrumentos, hoje são maiores.
Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:
-Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo fiéis como até aqui, sereis honrados confirmados como súditos deste reino de paz. Contudo, se alguém for achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos traga muita tristeza e sofrimento.
As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se, indagavam reverentes: - Estaremos aprovados?!
Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes seu grande segredo:
- Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o meu filho , a quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.
A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes revelara todo o seu plano, por isso pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:
- O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio seu cetro , simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.
Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe prostrando-se aos pés de seu pai, chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando ver o raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa.
Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:
- No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o guardião da honra desse reino triunfante.
A História de Salém
Capitulo IV
Samael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia. Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de glória. Considerando as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser dominado por um sentimento de exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do pergaminho, vivera uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição. Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés, aclamando com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse sentimento, não dava por conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira, estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça.
Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o pensamento de ser deixado em segundo plano. Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?! Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade.
Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe, recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções. Agora, tais momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam os seus ideais. Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria o antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do novo reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião daquelas leis? Essa "vitória" procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria.
Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das glórias do reino vindouro, onde os dois, cobertos de honras, desfrutariam dos louvores de uma Salém vitoriosa. Seriam eles os heróis do mais perfeito reino estabelecido entre os homens.
As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao coração do jovem príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e humildade do pergaminho.
Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler compassadamente os seguintes parágrafos:
- O reino de Salém será firmado sobre a humildade ,pois esta virtude é a base de toda verdadeira grandeza.
A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações ,iludindo-a como se as mesmas fossem de infinito valor.
A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço pelos semelhantes.
Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo:
- Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito acima deste pergaminho ,cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses anos de prova. A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não coexistirá com estas leis, cujo objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós dois coroarmos Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim. Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho.
O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura. Como libertá-lo desse caminho de morte?!
Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis não podiam jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz.
Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso.
Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo.
Os dias que seguiram-se à libertação, foram cheios de realizações; O príncipe revelava-se ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir triunfante no caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de conhecer o cetro que estava sendo moldado.
Num momento de descuido, Samael que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça lhe sobreveio no momento em que o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde, no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.
A História de Salém
Capitulo V
De sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a, qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a formular planos de conquista. Já podia sentir-se exaltado sobre o seu trono, tendo nas mãos o cetro precioso. Todos aclamariam-no como o libertador da opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer. Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista.
Samael decidiu agir sutilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho um impecílio à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade, revelando interesse pelo crescimento da felicidade de todos.
Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das glórias do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade.
Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o como um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que em meio àquela atmosfera de júbilo e gratidão uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras da qual muitos poderiam cair por descuido.
Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver exercido naqueles seis anos prestes a findarem ,uma missão de prova. Em sua lógica, contudo, procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho, seria um entrave à concretização da verdadeira liberdade.
As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos seria selado. Um terço dos habitantes ,seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora, em completo desprezo às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados.
Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições.
Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam, dando lugar ao caos.
Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz cheia de bondade ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no caminho da paz. Suas palavras a todos emocionou, ficando até mesmo Samael ficou a princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira, o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho, endureceu-se em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano.
Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom que ficava fora dos muros de Salém.
Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, ,começou a falar-lhes de seus planos de vingança e traição:
- Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como rei em lugar de Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.
Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações sobre a maneira de agirem a partir daquela data:
- Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação. À meia-noite, furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, juntos, fugiremos para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. Ali nos armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos. Acabaremos então com o pergaminho e com todos aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo.
A História de Salém
Capitulo VI
Sobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz Samael, fingindo fidelidade, estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os seguidores de Samael, da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que expressavam a grandeza dos princípios aos quais repugnavam.
Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação, ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente para aquela ocasião.Com felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar Salém cada vez mais honrada por sua beleza e harmonia.
Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria o golpe da traição.
Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe todo o segredo: a sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro. Contemplando-o o astuto Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o selo do domínio; Compreendeu que, aquele que o possuísse, teria nas mãos o reino de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele instrumento precioso.
O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota.
Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação. Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso maldoso. Como ansiara por aquela noite!
Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória , revisavam sob a luz de candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus últimos preparativos para desferirem o golpe.
À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom, onde esperariam pelo seu novo rei.
Samael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal, dirigindo-se silentemente à sala que guardava o precioso cetro.
Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo, dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo:
- Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.
Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:
- Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.
O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os momentos festivos da coroação. Enquanto isso, o rebelde com as mãos trêmulas, apossava-se do cetro. Naquele momento, teve a idéia de levar somente o alaúde, deixando o estojo em seu devido lugar.Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio.
Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando:
- Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a terra e o mar.A minha força está nas trevas , pois através dela o conquistei.
Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.
O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur)..Despertando de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação. Vestes especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas, foram-lhe preparadas. Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro de seus súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião.
Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento. Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul, levando consigo seus instrumentos musicais.
Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos. Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava-lhe a face mais querida de seu amigo Samael.
Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael; Sua voz, contudo, não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.
Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em sua glória, através de conselhos sábios. Recordou daqueles dias que seguiram à sua recuperação; Como se alegrara com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! Levando-o a pressentir a tragédia, veio-lhe a lembrança as indagações de Samael sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade. A memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite, deu-lhe a certeza que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem dedicara tanto amor.
Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo. Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos da rebeldia.
Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis. Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe guiou-os em marcha triunfal rumo ao palácio.
A História de Salém
Capitulo VII
Ao aproximarem-se do monte Sião, galgaram os alvíssimos degraus da escadaria, sendo seguidos pela multidão exultante. Doía-lhe na alma a expectativa de ver morrer nos lábios dos fiéis, naquela manhã, o seu alegre canto, devido o golpe da traição.
Encontravam-se agora no interior do palácio, diante do magnífico trono que esperava pelo jovem rei. Na base do trono, jazia aberto, em meio a um arranjo de flores, o pergaminho das leis. Junto dele podia-se ver a linda coroa, feita de ouro e pedras preciosas, bem como o estojo daquele cetro que simbolizava toda a harmonia de Salém.
Os súditos estavam felizes, pois sabiam que seriam achados dignos de herdar aquele reino de paz. Aguardavam agora o momento da coroação, quando o seu novo rei os regeria de seu trono com seu cetro precioso, num cântico triunfal.
Em meio aos aplausos das hostes vitoriosas, Melquisedeque dirigiu-se a seu pai, que o recebeu com um carinhoso abraço. O momento era deveras solene. As hostes silenciaram-se na expectativa da coroação. O estojo seria aberto e, todos testemunhariam a exaltação do querido príncipe.
Com o coração pulsando forte pela alegria, Adonias curvou-se sobre o estojo, abrindo-o cuidadosamente; Ao encontrá-lo vazio, a alegria de seu semblante deu lugar à uma expressão de indizível preocupação e tristeza, pois naquele cetro selara o destino daquele reino de paz.
Ao ver seu pai e todos os súditos aflitos pela ausência do cetro e de tantos amigos que deveriam estar com eles naquele momento, Melquisedeque consolou-os com a promessa de que buscaria o cetro. Inconscientes dos riscos e perigos que aguardavam o príncipe em seu caminho, os súditos despediram-se dele, vendo-o partir apressadamente.
O alvorecer daquele dia que seria o da coroação, alcançou os rebeldes distantes de Salém, a caminho das cidades da planície. Naquele manhã, Samael encheu-se de fúria ao ver que o precioso alaúde estava adornado com inscrições das leis contidas no pergaminho. Tomando uma pedra pontuda, passou a danificar o cetro, raspando-lhe todas as palavras de amor e justiça. Suas harmoniosas cordas estavam agora desafinadas sobre o seu bojo ferido, mas continuava sendo precioso, pois sobre ele jazia selado o domínio de Salém. Possuí-lo, significava ser dono de todo o poder.
Ao chegarem à altura em que o caminho bifurcava-se, Samael ordenou a seus seguidores que prosseguissem rumo a Gomorra, enquanto ele iria até Sodoma, onde permaneceria por dois dias, juntando-se depois a eles.
Esperou pela noite para entrar em Sodoma. Quando ali entrou, caminhou pelas ruas estreitas sem ser notado, até encontrar uma casa isolada sobre uma elevação. Fazendo do cetro sua arma, invadiu a casa matando seus moradores, enquanto dormiam. Apossou-se dessa maneira daquela residência onde, solitário, maquinaria seus planos para a tomada de Salém.
O entardecer daquele dia que seria o da coroação, alcançou o filho de Adonias a caminhar pelo pedregoso caminho rumo ao vale. Seus olhos carregados de tristeza e anseio voltam-se para o solo, em busca dos rastros dos rebeldes. A lembrança da ingratidão daqueles a quem tanto amava, o fez chorar. Suas lágrimas, refletindo os últimos lampejos daquele sol poente, assemelham-se a gotas de sangue jorrando de um coração ferido. Ele chorava não por causa dos perigos que lhe sobreviriam naquela fria noite, mas pela infeliz sorte daqueles que haviam trocado a paz de Salém pela violência daquelas cidades da planície.
O seu único consolo era a lembrança daqueles que, apesar de todas as tentações, haviam permanecido fiéis. A eles prometera devolver o cetro, e isto o faria apesar de qualquer sacrifício.
Depois de uma longa noite de insônia em que o príncipe ficou recostado ao lado do caminho, raiou a luz de um dia que seria decisivo.
Ao aproximar-se de Sodoma naquela manhã, o pensamento de estar tão próximo do cetro de sua amada Salém, fez com que se esquecesse de toda a fadiga, abreviando seus passos rumo ao desafio.
Ao abeirar-se do grande portão da cidade, ficou tomado por um temor, ao ouvir ruídos espantosos de desarmonia, que traduziam o orgulho, o egoísmo e a cobiça que ali dominavam todos os corações, fazendo-os explodir na orgia de uma maldade sem fim.
Seria um grande risco expor-se à violência gratuita daquela cidade. Esse pensamento o fez deter-se a um passo do portal, onde estremecido curvou a fronte em indizível luta íntima. Era tentado a recuar, mas lutava com todas as forças de sua alma contra esse pensamento de fracasso.
Pensando na triste sorte de Salém, cujo domínio estava sendo pisado no interior daquela cruel Sodoma, Melquisedeque tomou uma firme decisão: como um destemido guerreiro haveria de avançar, e, mesmo que tivesse de enfrentar o acúmulo de todos os perigos, prosseguiria, até erguer em suas mãos vitoriosas o cetro amado.
Resoluto e esperançoso, transpôs o portão de Sodoma, mergulhando naquele mundo estranho. Tudo ali era o oposto de Salém, começando pelas pedras ásperas e sujas de suas construções. Sodoma era um reino de trevas.
A presença contrastante do príncipe foi logo notada por muitos que, em tumulto o acercaram. A pureza de caráter expressa em sua meiga face e o esplendor de suas vestes, encheram-nos de espanto, e recuaram como que vencidos por uma força invisível. Dominados pela fúria , passaram a perseguí-lo à distância, decididos a fazê-lo recuar. Jogavam-lhe pedras e lama tentando macular-lhe as vestes, mas não o atingiam, enquanto ele avançava em sua ansiosa busca. Desistiram finalmente de perseguí-lo, ao entardecer.
A História de Salém
Capitulo VIII
O filho de Adonias percorrera todas as ruas e becos à procura do precioso cetro, mas em vão. Ao ver tombar no horizonte o sol, anunciando a chegada de mais uma escura e fria noite, seu coração ficou opresso por uma grande agonia. Ali, naquele último beco, quase que vencido pela exaustão e pelo desespero, inclinou a fronte, desfazendo-se em pranto. Seus lábios, pronunciaram em meio aos soluços as seguintes palavras:
- Salém, Salém, você não pode perecer! O seu cetro precisa ser redimido das garras da rebeldia! Mas quando e onde vou encontrá-lo?! Já não restam forças em mim, e a esperança de redimi-lo antes da noite me abandona!
O príncipe, em sua suprema angústia, não percebia que outro gemido de dor, procedente de cordas arrebentadas de um alaúde humilhado, fazia-se ouvir naquele entardecer.
Subtamente, o fraco gemido penetrou seus ouvidos, reanimando-o com a certeza de que o grande momento da redenção havia chegado. Enxugando as lágrimas, reuniu as últimas forças correndo em direção à uma pequena casa situada sobre um monte, de onde parecia vir o som.
Ao dirigir-se à porta entreaberta, deteve-se ao contemplar uma cena chocante, de humilhante escravidão: Samael, envolvido por um manto sujo, castigava o cetro de Salém. Tanto o rapaz quanto o cetro achavam-se tão desfigurados, que não restavam neles quase que nenhum traço da glória perdida. Aquele cetro, contudo, mesmo arrasado como estava, era muito precioso, pois nele jazia o selo do domínio de Salém.
A contemplação daquele que fora seu maior amigo e daquele cetro idealizado como símbolo de toda a harmonia, em tão trágica condição, comoveu profundamente o príncipe, fazendo-o chorar em alta voz. Somente então o súdito rebelde percebeu sua presença indesejada. Estremecido, levantou-se, e, cheio de ira perguntou-lhe:
- O que o trouxe a Sodoma?
Apontando para o cetro danificado, Melquisedeque exclamou:
- A glória de Salém está destruída!!!
Com uma gargalhada, Samael zombou de sua tristeza ,dizendo:
- Agora eu sou o rei de Salém. Vocês que são fiéis ao pergaminho, tornar-se-ão meus escravos.
Sem se importar com as palavras de afronta de Samael, o príncipe, movido por uma infinita angústia, lhe disse:
- Samael, Salém está ferida por sua traição. Por que você trocou o seu lar de justiça e amor por esse vale de injustiça, ódio e morte?! Agora, se não deseja retornar à Salém arrependido, devolva-lhe o cetro. Foi para redimi-lo que, a despeito de todos os perigos, desci a esse vale hostil.
Conhecendo o propósito do príncipe, o rebelde encheu-se de raiva e cerrando os punhos disse-lhe :
- Eu o odeio Melquisedeque!
Tendo dito isto, arremessou o cetro ao chão, e pisando-o acrescentou:
- Tenho vontade de fazer o mesmo com você.
Diante dessa afronta, o príncipe não sentiu nenhum temor, mas compaixão. Transportando-se ao feliz passado, lembrava-se dos momentos felizes em que tinha sempre ao seu lado a Samael; Ele era um jovem puro e humilde de coração; Por que permitira ser escravizado pela ilusão do orgulho e do egoísmo?! Quão doloroso era ver aquele jovem que, por sua beleza e simpatia, havia sido honrado acima de todos os súditos, agora arruinado pela cobiça! Não fora o sonho do príncipe ter junto ao seu trono glorificado, aquele que lhe era o mais precioso amigo?! Essa tragédia feria-lhe a alma. Contudo, a triste condição do cetro o atingia ainda mais, pois ele fora feito como o símbolo de toda a harmonia ,e estava sendo desfeito sob os pés da ingratidão.
Surpreso por não ver nos olhos de Melquisedeque nenhuma expressão de temor, porém de piedade, Samael sentiu-se frustrado em suas afrontas que visam amedrontá-lo, levando-o desistir de sua missão.
Diante da postura digna do príncipe, que em silente dor o contemplava, sentiu-se envergonhado. Essa fraqueza, contudo, foi banida pelo orgulho que dominava o seu coração. Começou então a planejar algo terrível, para humilhar e ferir o príncipe, fazendo-o sofrer ainda mais.Com escárnio disse-lhe:
- O cetro de Salém poderá ser seu, se você conseguir pagar-me o preço de seu resgate.
Com um brilho nos olhos, o príncipe perguntou-lhe:
- Qual é o preço?
Samael, com um sorriso maldoso, respondeu-lhe pausadamente:
- O preço não é ouro nem prata, mas dor e sangue. Você deverá despir-se completamente de suas vestes, deitando-se ao chão. Deverá suportar nessa condição, espancamentos, até que o sol se ponha. Se você estiver disposto a submeter-me, sem reagir, o cetro será inteiramente seu.
Estremecido ante tão cruel proposta, o filho de Adonias olhou para o sol que pairava distante sobre uma nuvem. Passou a travar em seu coração uma luta intensa. A princípio, o horror do sacrifício quase o dominou, levando-o recuar, mas o pensamento de ver Salém escravizada pela rebeldia, levou-o finalmente à decisão de pagar o preço do resgate, entregando-se ao humilhante sofrimento.
Tendo tomado a firme decisão de resgatar o cetro, o príncipe, tirou as vestes, colocando-as sobre uma pedra. Deitou-se em seguida naquele solo frio, com a fronte voltada para o poente.
Impiedosamente, Samael começou a espancá-lo, fazendo uso do próprio cetro como instrumento de tortura. Gemendo pela dor dos golpes que o faziam sangrar, o príncipe mantinha o olhar fixo no sol que parecia deter-se sobre a nuvem. Atordoado pela dor, contemplou finalmente o sol prestes a se pôr. Alentado pela vitória que se aproximava,murmura baixinho:
- Salém, Salém, daqui a pouco terei em meus braços o teu cetro precioso que, em minhas mãos, tornar-se-á num instrumento de justiça e paz.
Ouvindo a promessa do príncipe feita por entre gemidos, Samael bradou-lhe com fúria:
- O teu sofrimento não trará nenhum alvorecer para Salém ,pois tuas mãos jamais serão capazes de tocar no cetro.
Depois de fazer essa afronta, Samael apossou-se de uma pedra pontuda, preparando-se para desferir os últimos golpes.
Enquanto pensava sobre a feliz vitória de Salém, Melquisedeque sentiu seu braço direito sendo comprimido pelos pés de Samael. Seguiu a esse rude gesto um golpe que o fez contorcer-se em agonia. Sua mão fora vazada cruelmente, passando a jorrar abundante sangue da ferida aberta. Essa mesma violência foi descarregada logo depois sobre sua mão esquerda.
Não suportando a agonia causada por esses derradeiros golpes, o filho de Adonias, ensangüentado, mergulhou nas trevas de um profundo desmaio.
A História de Salém
Capitulo IX
Ao cessar de golpear o príncipe, o súdito rebelde ficou possuído por um estranho horror ao contemplar na face daquele que somente lhe fizera o bem, o torpor da morte. Procurava não recordar o passado, mas, irresistente, sentia ser arrastado aos dias de sua feliz inocência em Salém. Revestido de ricas vestes estava sempre ao lado do príncipe que, com dedicação, ensinava-lhe a cada dia suas canções que falavam de paz.
Nas indesejadas lembranças pelas quais era arrastado, reviveu seus primeiros passos no caminho do orgulho e do egoísmo. Lembrou-se dos incessantes conselhos e rogos daquele que fora seu melhor amigo, para que desistisse daquele caminho que poderia conduzi-lo à infelicidade.
Depois de ser arrastado em lembranças por todo aquele passado de felicidade destruída por sua culpa, Samael teve consciência de sua ingratidão. Horrorizado pelo que fizera, curvou-se sobre o corpo ensangüentado de Melquisedeque, e desesperou-se ao vê-lo sem vida. Não suportando o peso da grande culpa, deixou às pressas aquele lugar, desejando ocultar-se distante, sob as trevas da fria noite.
Depois de um profundo desmaio, o príncipe começou a voltar à consciência; Em delírios que o transportavam ao seio de sua amada Salém, ele revivia momentos vividos e sonhados: Com alegria contemplava a face de seu maior amigo, para quem estendeu a mão com um sorriso. Mas seu gesto foi frustrado por uma profunda dor. Em meio aos aplausos dos súditos vitoriosos, recebe de seu pai o cetro, mas ao tocá-lo, sente uma irresistível dor em suas mãos.
Com esses sonhos frustrados pela dor, Melquisedeque despertou para a realidade. Estava nu, ferido e solitário, em um lugar perigoso, longe do abrigo e carinho de Salém. Mais doloroso era pensar que tudo aquilo fora a retribuição de alguém que fora o alvo principal de todas as dádivas de seu amor.
O príncipe, sem poder mover-se, considerando a grande traição passou a chorar sem consolo. Lamentava não por sua dor, mas pela perdição daqueles que haviam trocado o carinho e a justiça de Salém pelo desprezo e ódio que os reduziriam finalmente a cinzas sobre aquele vale condenado.
Através das lágrimas, o príncipe contemplava o céu que, semelhante a um manto tinto de sangue, estendia-se banhado na luz do sol poente. Lembrou-se então do alaúde pelo qual pagara tão alto preço. Onde estaria ele?
Em sua desesperada fuga, Samael deixara o cetro abandonado junto ao corpo ferido de Melquisedeque. Quando ele o viu, esqueceu-se de toda a dor, e abraçou-o com suas mãos feridas. Acariciando-lhe o bojo arruinado, disse-lhe com um sorriso:
- Você é meu novamente. Eu o comprei com o meu sangue".
Samael que, dominado pelo estranho horror, fugira após cometer o horrível crime, deteve-se a um passo do portão de Sodoma. Ali, impulsionado pelo orgulho, arrependeu-se com indignação de sua fraqueza. Por que fugira depois de conquistar tão grande vitória? Não era seu plano destruir o reino de Salém, para estabelecer seu próprio reino? Lembrando-se do cetro, decidiu retornar para tomá-lo. Por que o deixara abandonado junto ao cadáver daquele odiado príncipe?
Reunindo suas poucas forças, Melquisedeque dirigiu-se tropegamente ao lugar em que deixara suas vestes.
Depois de vestir-se, tendo junto ao peito o cetro amado, o filho de Adonias, com profunda emoção fez um juramento antes de deixar aquele lugar de seu sofrimento. Acariciando o cetro diz-lhe:
- Meu querido cetro, você foi criado como um emblema da harmonia que procede da justiça e do amor. Toda a glória de Salém repousava sobre você quando a rebeldia em sua ingratidão escravizou-o, arrastando-o para este vale hostil. Aqui você foi ferido e humilhado, vindo a tornar-se um instrumento de impiedade nas mãos do tirano. Eu, porém, o redimi com o meu sangue. Agora nossas feridas serão restauradas, e em breve seremos entronizados em meio aos louvores de uma Salém vitoriosa. Quando esse sonho se concretizar, testemunharemos juntos o fim daqueles que se levantaram contra nós para nos ferir. Samael e seus seguidores serão devorados pelo fogo que reduzirá às cinzas Sodoma e Gomorra.
Concluindo seu solene juramento ,o jovem príncipe, já oculto pelas trevas da noite e deixou aquela colina, e sobre ela as marcas de seu sofrimento.
Desde que o filho do rei partira, prometendo retornar com o cetro, Salém vivia momentos de indizível anseio. Em pranto, o rei e os súditos remanescentes lembravam-se de todo aquele feliz passado desfeito pela ingratidão dos rebeldes. O que mais lhes torturava era a ausência do príncipe e do cetro, sem os quais todo o brilho daquele reino de paz se ofuscaria.
Desejando consolar o coração de seus súditos, Melquisedeque avançava em meio à noite rumo aos montes que cercavam Salém. Ainda que enfraquecido e ferido, prosseguia em sua marcha ascendente, esperando alcançar sua pátria pela manhã.
Aquela longa e escura noite foi finalmente vencida pelos raios do alvorecer. Em Salém a esperança em rever Melquisedeque com o seu cetro estava quase banida quando, ao olharem para o Monte das Oliveiras, viram-no descendo pelo caminho do Getsêmani. Quando o encontraram no profundo vale de Cedrom, ficaram assustados com sua aparência: sua face estava pálida e seu manto encharcado de sangue. Mesmo assim, ele sorria expressando grande alegria.
Ao perguntarem-no sobre o porque daquelas marcas de sangue, Melquisedeque retirou de sob o manto suas mãos feridas, revelando-lhes entre elas o cetro redimido.
Depois de contar-lhes os passos que o levaram ao resgate do cetro, os súditos, emudecidos, prostraram-se reverentes aos seus pés, aclamando-o como seu redentor e rei.
Em meio aos louvores das hostes redimidas, o príncipe foi introduzido no palácio real, onde sob os cuidados de seu amoroso pai, deveria restabelecer-se de seu sofrimento. O cetro desfigurado, agora mais precioso, seria também restaurado, devendo tornar-se mais belo que antes.
O dia da coroação foi fixado para o próximo Yom Kipur. Naquele dia, Melquisedeque selaria com o cetro restaurado o triunfo de todos os fiéis, bem como a condenação dos rebeldes.
A História de Salém
Capitulo X
Poucos instantes após a saída de Melquisedeque, Samael chegara ao local onde o deixara aparentemente sem vida, ao lado do alaúde. Sem entender aquele misterioso desaparecimento, ele prosseguiu para Gomorra, onde seus seguidores o esperavam. a Ao vê-los, proclamou sua "vitória" sobre o odiado príncipe e sobre o cetro, os quais massacrara em Sodoma, não restando aos seguidores do pergaminho nenhuma esperança.
Suas palavras agradaram a turba rebelde, que passou a comemorar a "conquista" entregando-se à orgia. Zombavam agora da justiça e do amor, exaltando a Samael como rei vitorioso.
Obteriam agora armas, com o propósito de avançarem sobre Salém, desferindo-lhe o último golpe; Juntaram-se a eles em seu maléfico propósito, muitos criminosos que foram recebidos como mestres no manejo de arcos e flechas.
Em sua loucura, Samael ordenou o banimento de todo calendário, pois em seu reino de "liberdade" não estariam sujeitos a nenhum cômputo de tempo. As leis da moralidade foram também banidas, surgindo com isso um completo caos. Essa desordem, revelou-se de maneira mais patente no barulho estridente e cacofônico, ao qual proclamaram como a nova música.
Dominados pelo egoísmo, Samael e seus seguidores alimentavam-se de ilusões, inconscientes de que seus dias estavam contados. Os frutos da rebelião não tardariam em atrair sobre eles o fogo da destruição.
Dividindo seus seguidores em pequenos grupos, Samael passou a comandá-los em atos violentos que aterrorizavam os moradores das planícies; Por esse tempo, eles escondiam-se nas cavernas situadas próximas ao mar salgado.
O respeito e o medo dos guerrilheiros de Samael, levou finalmente os reis de quatro cidades a procurarem-no, propondo alianças de paz. Eram eles: Bara, rei de Sodoma, Bersa, rei de Gomorra, Senaab, rei de Adama, Semeber, rei de Seboim e Segor, o rei de Bela. Por essa época, esses reis pagavam tributos a Cordolaomor, rei de Elam que, acompanhado pelos exércitos de quatro outras cidades, os haviam subjugado no vale de Sidim junto ao mar salgado.
Fortalecido pelas alianças, Samael tornou-se mais ousado em suas investidas, levando o terror e a destruição aos territórios de cidades distantes. Os exércitos de Cordolaomor e seus aliados que retornavam nesses dias de outras conquistas, enfurecidos pelas provocações de Samael, marcharam contra os quatro reis, vencendo-os novamente no vale de Sidim. Foi nessa ocasião que levaram cativos os habitantes de Sodoma, entre os quais encontrava-se o meu sobrinho Ló.
Acovardados diante do furor dos cinco reis, Samael e seus seguidores esconderam-se em suas cavernas, ao norte do mar salgado
A História de Salém
Capitulo XI
Os doze meses contados a partir do grande sacrifício estavam prestes a terminar. O cetro, totalmente restaurado, resplandecia em seu estojo, enquanto o príncipe, igualmente restabelecido das feridas causadas pela rebeldia, alegrava-se ao ver chegar o Yom Kipur de sua coroação. Enquanto isso, ele compunha lindas canções que expressavam o seu amor por Salém.
Naqueles doze meses, a cidade da paz tornara-se mais bela, sendo adornada qual noiva para o grandioso dia da coroação.
À uma semana para o Yom Kipur, Samael, totalmente inconsciente de que o dia de seu julgamento se aproximava, reuniu os seus seguidores, anunciando-lhes que a próxima missão seria a conquista de Salém. Antes de avançarem, contudo, ele subiria sozinho para verificar os pontos vulneráveis da cidade.
Depois de ser aplaudido pela turba, Samael partiu em sua missão de reconhecimento. Enquanto avançava sozinho, procurava não lembrar-se daqueles momentos que trouxeram-lhe terror pela culpa, mas, dominado por uma força superior, foi arrastado em suas lembranças para aquele monte da cruel tortura.
Todo o seu passado começou a vir-lhe à lembrança, como um peso esmagador.
Quando despertou-se de suas lembranças das quais não conseguiu fugir, já era noite. A escuridão que o envolvia pareceu-lhe o prenúncio de um triste fim. Esse desânimo, contudo, procurou bani-lo com a lembrança do exército que o esperava, pronto para cumprir suas ordens, na conquista de Salém, onde não haveria lembranças daquele pergaminho.
O alvorecer o alcançou próximo de Salém. Ao avistar o monte das Oliveiras, veio-lhe à lembrança a última vez que o transpôs, deixando para trás a cidade vencida. Quantas noites haviam passado desde então? Ele perdera a noção de tempo, não sabendo que justamente doze meses haviam se passado. Não podia imaginar que, raiava naquela manhã o Yom Kipur, o dia de seu julgamento.
Ao chegar ao topo do monte das Oliveiras naquela manhã, Samael surpreendeu-se ao ver que a cidade tornara-se mais bonita que outrora; Toda ela estava adornada de ramos e flores, como uma donzela à espera de seu noivo. Contudo, Salém estava abandonada, não havendo nenhum sinal de vida em todas as suas mansões. Isto o fez concluir que os golpes que haviam aniquilado o príncipe e o cetro, trouxeram como conseqüência todo aquele abandono. Ele não sabia, contudo, que naquele momento todos os remanescentes daquele reino, encontravam-se ocultos no grande salão do palácio, aguardando pelo momento mais glorioso, da coroação de Melquisedeque.
Imaginando-se exaltado sobre o trono abandonado, tendo a seus pés os exércitos vitoriosos, o rebelde penetrou na cidade, dirigindo-se apressadamente ao palácio. Ao transpor o portal principal que dá entrada ao salão principal, ficou surpreso ao ver ali reunidos uma multidão de fiéis. Sobre um áureo tablado, enfeitado de flores talhadas em pedras preciosas, encontra-se o trono vazio. Na base do trono estava o pergaminho das leis, uma coroa de ouro cheia de pedras preciosas e o estojo que deixara vazio naquela noite de traição. Sem entender o enigma, Samael escondeu-se por trás de uma coluna, temendo ser reconhecido, e ficou observando.
Os súditos, com expressão de feliz expectativa olhavam para o trono vazio. Onde encontravam eles motivos para toda essa alegria, se haviam perdido o seu rei juntamente com o cetro? Samael questionava sobre esse mistério, quando Adonias, aplaudido pelos súditos, encaminhou-se para junto do trono.Com voz cheia de emoção pela vitória, o fundador de Salém anunciou que havia chegado o momento tão sonhado da coroação. Um brado de triunfo ecoou pelos ares quando, anunciado pelo seu pai, entrou o amado príncipe encaminhando-se em direção do trono. Ao vê-lo coberto por um manto de glória, Samael ficou possuído por um terrível pavor, e procurou fugir. Descobriu, contudo, que todos os portais do grande salão estavam fechados por fora.
Teve início a cerimônia da coroação. Era um momento deveras solene. Adonias, num gesto reverente, tomou a rica coroa, colocando-a na fronte de seu filho. Prostrando-se depois sobre o estojo, abriu-o cuidadosamente, tirando dele o alaúde restaurado, cuja beleza e brilho eram muito superiores à sua primeira condição, ao sair das mãos de Adonias o seu luthier. Assentando-se no trono em meio às aclamações dos súditos, Melquisedeque passou a dedilhar o cetro, tirando dele acordes de muita harmonia e paz. Todos se aquietaram para ouvirem suas novas composições que expressavam o seu profundo amor pelo cetro e por todo aquele reino de paz.
Grande emoção invadia o coração de todos naquele momento, levando-os às lágrimas. Samael, sem forças para reagir, sentia-se torturado por aqueles acordes que torturavam faziam reviver em sua mente suas oportunidades perdidas, numa terrível tortura para sua consciência.
Melquisedeque compusera para aquele momento especial, canções que retratavam os momentos mais marcantes da história de Salém; Quando passou a cantar sobre a amizade que tinha por Samael, sua voz embargava-se pelas lágrimas que não conseguia conter. Triste para ele era cantar sobre a queda daquele que era-lhe o maior amigo! Cantou então sobre o alto preço que teve de pagar pela reconquista do cetro, que representa a honra de Salém.
Ao contemplarem aquelas mãos marcadas pelas cicatrizes, tocando com tanta maestria e carinho o cetro restaurado, os súditos tomados por forte emoção, prostraram-se em pranto.
Ao ver nas nãos de Melquisedeque aquele alaúde que, em suas mãos fora instrumento de tortura, Samael compreendeu, tarde demais o quanto errara, desviando-se dos conselhos do príncipe; Quantas vezes aquelas mãos sobre as quais descarregara toda aquela violência haviam sido estendidas num esforço de salvá-lo, e ele as havia negligenciado. Agora, era tarde demais! Tarde demais!!!
A História de Salém
Capitulo XII
Os súditos triunfantes que, reverentes, haviam sido conduzidos a todo aquele passado de felicidade, traição, dor e triunfo, uniram finalmente as vozes numa jubilosa proclamação:
Verdadeiros e justos são os teus princípios, ó rei de Salém. Digno és de reinar em glória e majestade entre os louvores de teus fiéis, porque em teu sacrifício nos livraste das ameaças das trevas, fazendo renascer em nosso coração a alegria do alvorecer.
Esse cântico de exaltação foi seguido pela cerimônia de confirmação de todos os fiéis em sua vitória. O filho de Adonias, com o seu cetro redimido, passou a selar com um toque especial do cetro, a vitória de cada um. Formou-se para tanto uma longa fila de fiéis exultantes.
Os súditos confirmados, à medida em que iam recebendo o toque de aprovação do rei, posicionavam-se ao lado direito do trono, onde permaneciam aguardando pela confirmação dos outros.
Os olhares que, iluminados de alegria, haviam acompanhado o selamento dos últimos justos, pousaram sobre a figura estranha de Samael que, dominado por uma força irresistível, encaminhava-se cabisbaixo em direção do trono. Seu aspecto era horrível: seu semblante havia sido deformado pelo mal; suas vestes estavam sujas e mal cheirosas; tudo nele repugnava, ao ponto de ninguém reconhecê-lo.
Em meio ao espanto dos súditos, Melquisedeque ergueu-se de seu trono como que ferido por uma grande dor; De seus lábios os súditos ouvem uma dolorosa exclamação:
- Samael, Samael!!!
A figura deplorável daquele que fora tão belo, encheu a todos de tristeza, e começaram a prantear. Eles lamentavam por saber que o destino de Samael e de todos aqueles que o seguiram, poderia ter sido muito diferente, se eles houvessem atendido aos rogos de amor de Adonias e de seu filho. Não era o plano do rei e o sonho de Melquisedeque tê-lo como o guardião do pergaminho, sendo o segundo em honra naquele reino?
Samael que, reconhecendo sua desventura, aproximara-se cabisbaixo do trono, ao presenciar toda aquela lamentação, é novamente iludido pelo orgulho, julgando tratar-se de uma demonstração de fraqueza de seus inimigos. A lembrança de seu exército que fortalecido o aguarda na planície, ilude-o com a certeza de que será vitorioso sobre Salém.Com esse pensamento, ergue a fronte marcada pelo ódio e, fitando o rei, levanta o punho cerrado e o desafia, desdenhando de sua autoridade, com a ameaça de tomar-lhe o trono.
Ainda que condoídos por sua perdição, os súditos de Salém não suportaram a ousada afronta daquele enlouquecido jovem que, depois de causar tanto sofrimento, ainda era capaz de erguer-se com tamanho desafio.
O vitorioso rei que com tanto prazer selara com o seu cetro a conquista dos fiéis, ergueu-o dolorosamente para o selamento da triste sorte dos rebeldes. Imobilizado por uma força estranha, Samael, sem desviar os olhos do cetro, ouviu dos lábios do rei a proclamação de seu julgamento e de todos os seguidores:
Prisioneiros de uma força invisível, ficariam retidos em suas cavernas por seis anos, sendo depois visitados pelo fogo do juízo que os destruiria juntamente com as cidades que a eles se aliaram.
A História de Salém
Capitulo XIII
Ao ir para a cama depois daquele dia de tantas emoções, o jovem rei, imerso nas lembranças daquele passado de felicidade e dor, rolava em sua cama insone. Quando finalmente adormeceu, teve um sonho muito significativo.
No sonho, apareceu-lhe um anjo luminoso, que saudou-o com um sorriso, dizendo-lhe que todo o Universo acompanhava com atenção todo aquele drama que estavam vivendo, que o mesmo tinha um sentido prefigurativo, retratando acontecimentos passados e futuros, que envolvia todo o vasto universo.
As palavras do anjo despertaram em Melquisedeque um grande desejo de conhecer a história desse drama cósmico.
Conhecendo o seu anseio, o anjo arrebatou-o no sonho revelando-lhe um distante futuro. Diante de seus olhos manifestaram-se as glórias de uma nova e esplêndida Salém, cujas muralhas e mansões eram feitas de pedras preciosas; Os portais da cidade eram de pérolas. Suas amplas avenidas eram de ouro puro. A cidade era quadrangular e se estendia por centenas de quilômetros. Estava dividida em dois setores distintos: Norte e Sul. Ao Sul elevavam-se incontáveis mansões, habitações eternas de anjos e de seres humanos redimidos; Ao Norte havia um lindo paraíso ao qual o anjo revelou ser o jardim do Éden. Ali, em ambas as margens do rio da vida, havia campos repletos de todo tipo de vegetação, com flores e frutos em abundância. Viviam ali em perfeita harmonia, todas as espécies de insetos, aves e animais.
No meio do paraíso podia-se ver uma montanha fulgurante, a qual o anjo afirmou ser o monte Sião, o lugar do trono de Deus. Era daquele monte que emanava o rio da vida, fluindo por toda a cidade.
Quando alcançaram o topo da montanha sagrada, o rei de Salém ficou deslumbrado com o cenário visto ao seu redor. Encontrava-se na parte mais elevada de Sião a mais linda de todas as edificações revelado pelo anjo como o palácio de Deus. Aquela magnífica construção era sustentada por sete colunas, todas de ouro transparente, engastadas de lindas pérolas. Ao redor do palácio, floresciam a mais exuberante vegetação: havia ali o pinheiro, o cipreste, a oliveira, a murta, a romãzeira e a figueira, curvada ao peso de seus figos maduros.
Enquanto admirava-se ante a beleza daquele lugar, o anjo disse-lhe que a nenhum ser humano fora dado o privilégio de ver o interior daquele palácio de Deus. A ele seria dada esta honra, pois fora escolhido para ser o portador das mais amplas revelações sobre o reino da luz.
Ao transporem com reverência um dos portais de pérolas, prostraram-se em adoração, enquanto ouviam o cântico de uma multidão de serafins, que circundavam o trono, em constante louvor Àquele que Era, que É e que Sempre Será.
Ao olhar para Aquele que estava assentado sobre o trono, Melquisedeque ficou surpreso ao descobrir a figura de um homem. Ele estava coberto por um manto de linho fino, de uma alvura sem igual, e tinha sobre a cabeça uma coroa formada por sete coroas sobrepostas, repletas de pedras preciosas.
Ao olhar para as mãos que sustentavam o cetro, o filho de Adonias ficou surpreso ao descobrir nelas cicatrizes de ferimentos, semelhantes àquelas em suas mãos. O anjo afirmou-lhe ser o Messias, a manifestação visível de Yahwéh, o Deus Invisível.
Atraído para o cetro resplandecente, com o qual o Messias governava sobre todo o Universo, o rei de Salém viu nele o selo do domínio, e nele escrito o nome: Israel.
Tomado por profunda emoção, Melquisedeque prostrou-se ante o Rei daquela eterna Salém, e, revivendo ali a história de sua pequena cidade, teve desejo de conhecer o grande drama da história universal. Conhecendo o desejo de seu coração, o anjo disse-lhe:
- Agora lhe farei conhecer a história desta gloriosa Salém. Tudo o que lhe for mostrado na visão, você deverá registrar fielmente em seis pergaminhos que serão costurados um ao outro, formando um único rolo. Você terá seis anos para escrevê-los. Ao fim dos sete anos, você receberá das mãos de um ancião um vaso contendo um rolo especial, com muitas revelações importantes, destacando-se a história de Salém. Você tomará esse rolo, e o costurará como o primeiro dos sete, formando um único rolo. Depois de selá-lo, você e o ancião o guardarão no vaso, levando-o para uma caverna que eu lhes mostrarei ao norte do mar salgado, onde permanecerá esquecido até que chegue os últimos dias, quando será resgatado e revelado ao mundo por meio de um pequeno beduíno.
Depois de falar ao rei de Salém estas palavras, o anjo conduziu-o em visão a um infinito passado, quando o Universo ainda não existia.
Uma história muito parecida com a de Salém passou a desdobrar-se diante de seus olhos; porém, numa dimensão infinitamente maior, começando pela criação do reino da luz.Com admiração contemplou a formação de bilhões de mundos e estrelas, repletos de vida e felicidade que passaram a girar em torno da Salém Celeste, o paraíso de Deus.
Sua atenção voltou-se depois para o mais belo de todos os querubins que, honrado pelo Criador, passou a residir com Ele em Seu palácio. Uma eternidade de felicidade e paz parecia embalar aquele reino, quando a mesma experiência de egoísmo e rebeldia vivida por Samael, começou a repetir-se na vida daquele anjo amado.
Cenas de uma grande rebelião começaram a ser mostradas a Melquisedeque, envolvendo todos os habitantes do Universo. O querubim honrado, semelhante a Samael, seduzira um terço das hostes que, passaram a reverenciá-lo como rei.
Em meio às cenas daquele grande conflito, o rei de Salém testemunhou a criação do planeta Terra, sobre a qual surgiu o homem como cetro racional daquele reino disputado.
Com agonia viu o momento em que o chefe da rebelião aproximou-se sutilmente do paraíso, apossando-se do ser humano, depois de seduzi-lo com tentações. Ouviu então o seu brado, numa proclamação de vitória. A partir daquele momento, o inimigo de Deus passou a arruinar o ser humano, apagando nele todos os traços da glória divina, como Samael fizera com o cetro.
A sua própria experiência, ao declarar naquela manhã aos súditos de Salém sua decisão de ir em busca do cetro perdido, começou a repetir-se diante de Seus olhos.
Reunindo as hostes que haviam permanecido fiéis ao Seu governo, o Criador passou a revelar um plano de resgate: Ele haveria de ir em busca do homem, e o remiria, ainda que isto lhe custasse infinito sacrifício. Diante desta revelação, o filho de Adonias prostrou-se comovido, ao descobrir que em sua vida tivera a honra de retratara o próprio Messias.
Todo o drama vivido pelo filho de Adonias em sua angustiante busca, até o momento de seu suplício pela redenção do cetro, foi ganhando amplitude naquela visão que abarcava toda uma eternidade. Diante de seus olhos desfilavam cenas de uma grande batalha que, sem trégua se estenderia até o dia do juízo final, quando o Messias vitorioso empunhará o cetro redimido, selando com ele a condenação de todas as hostes rebeldes.
A História de Salém
Capitulo XIV
Através das revelações recebidas do anjo, Melquisedeque tomou conhecimento do grande livramento alcançado dez dias antes de sua coroação, em Rosh Hashaná, quando diante de trezentos pastores com seus vasos incendiados, exércitos de cinco reis tombaram, saindo livres os cativos.
Conhecendo nossa intenção de subir à Salém por ocasião de Sukot, o rei fez preparativos para uma grande festa, na qual comemoraríamos juntos a vitória sobre toda a desarmonia gerada pelo orgulho e pelo egoísmo.
Foi por isso que ao chegarmos a Salém, ficamos surpresos com toda aquela honrada recepção.
Ocupar-me com o relato de todos esses acontecimentos, fez-me passar por todo este sétimo ano, quase sem notar os seus dias, que passaram velozes. Estamos hoje às portas de um novo Rosh Hashanah, quando os 300 pastores tocarão os chifres, convocando todos aqueles que possuem as pérolas, para a reunião solene de Yom Kipur. Cinco dias depois seremos recebidos em Salém para a festa de Sukot.
A certeza de que acontecimentos importantes ainda deverão ser relatados até o momento em que o vaso será deixado na caverna, fez-me reservar um espaço no rolo, no qual registrarei, dia após dia, os fatos, até a consumação desta história.
Hoje é Rosh Hashaná, o dia mais feliz de minha vida, pois meus braços puderam envolver finalmente o filho da promessa. A primeira coisa que Sara fez ao recebê-lo, foi colocar-lhe em sua mãozinha direita a segunda pérola que o Messias lhe dera no dia de sua conversão, na qual estava escrito nome Isaque que significa "riso", o nome de Melquisedeque e o nome de Salém.
Dois dias antes do Yom Kipur, Isaque foi circuncidado, conforme a ordem de Yahwéh.
Desde que os pastores começaram a tocar seus chifres em Rosh Hashanah, todos aqueles que possuíam pérolas do vaso, deixaram suas tendas, dirigindo-se em pequenos grupos, para junto do Carvalho de Mambré.
Ao chegar o Yom Kipur, o dia da reunião solene, meus pastores informaram-me que todos que aqueles que haviam recebido pérolas, haviam comparecido ao encontro, não faltando nenhuma pessoa. Era maravilhoso ver a alegria estampada no semblante de toda aquela multidão, que ansiava pela subida à Salém. Todos tinham uma história para contar, de como foram mal compreendidos e humilhados por aqueles que não receberam a salvação representada pelas pérolas. O único consolo que tinham naquele tempo, vinha da certeza de que subiriam a Salém para a festa de Sukot.
No primeiro dia da festa de Sukot, a multidão foi subdividida pequenos grupos de doze pessoas, para subirmos em ordem à Salém.
Tendo o vaso com o rolo em minhas costas, posicionei-me à frente da multidão, sendo seguido por Sara e Isaque, que vinham montados num camelo; Logo atrás vinha Ló e suas filhas; um pouco atrás, os trezentos pastores seguidos por todos os fiéis.
Iniciávamos nossa escalada quando, acompanhado por todos os seus súditos, surgiu Melquisedeque vindo ao nosso encontro, fazendo vibrar pelos ares o som festivo de muitos instrumentos musicais, comemorando a grande vitória.
Depois de saudar-nos, o filho de Adonias conduziu-nos numa marcha festiva até adentrarmos os portais de Salém, que encontra-se agora mais bonita que outrora.
Diante do trono, todos os remidos foram coroados por Melquisedeque,começando em seguida o grande banquete.
Grande foi a alegria do rei de Salém quando entreguei-lhe o vaso com o meu manuscrito. Levando-me para uma sala especial do palácio, ele mostrou-me os seis manuscritos nos quais registrara a história do Universo, segundo fora-lhe mostrada em sonho.
Ao receber o meu manuscrito, ele o costurou aos demais, vindo a ser o primeiro do grande rolo.
No último dia da festa de Sukot, o rolo foi aberto diante de toda a multidão de fiéis. Depois de ler uma boa parte do meu manuscrito, o filho de Adonias, tomando em seus braços o pequeno Isaque, afirmou:
- Na descendência desta criança haverá de cumprir-se todas as coisas escritas neste manuscrito.
Tendo dito isto, o rei o abençoou, devolvendo-o à Sara.
Depois de abençoar Isaque, Melquisedeque passou a falar sobre o futuro do rolo que permaneceria por quase quatro milênios ocultos em uma caverna, sendo finalmente encontrado por um beduíno da tribo de Taamireh. Ao sair de sua caverna, o rolo enfrentaria a oposição de muitos eruditos que o declarariam apócrifo. Viria, contudo, o momento, em que suas revelações seriam confirmadas, e muitos seriam transformados pelas suas mensagens, preparando-se para o dia do juízo final.
Fim da Segunda Parte

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ATENÇÃO! LEIA ISTO: Resolvi tirar a moderação dos comentários. Agora até você troll pode vir aqui me infernizar. Mas tudo tem seu preço! Quando você vir encher d lixo meu blog, no fim do mês vou limpar este lixo daqui e quando fizer isto. Vou estar limpando você q é um lixo no mundo. Vai doer muito em ti! Quer apostar q esta praga vai pegar? Quando sua vida depois virar do avesso, não diga q não avisei... Maktub!((Aquele q quiser se manifestar contra o q penso sinta-se a vontade, mas faça isso sem trollar, pois essa praga só inclui os trolls imbecis.) Agora você deve estar se perguntando porque estou fazendo isto? Só pra treinar minha ação com quietude mesmo.

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